Durante alguns meses, fui estudante de um
curso de fotografia, lecionado em uma escola no centro de Curitiba. Um ônibus e
dez minutos de caminhada me bastavam para eu chegar ao destino. Avesso a
atrasos, preferia chegar cedo, ainda que isso me resultasse em quinze ou vinte
minutos de espera.
O que não me dizia nada. Minha ocupação
pré-aula, sentado em um banco próximo a sala, era a mesma que durante o tempo
dentro do veículo: um livro. Devido à prática, ganhei uma injusta alcunha.
“Estudando de novo”, me disse a professora, mais de uma vez. Imerecida fama
minha, e ingenuidade a dela. A menos que ela considere coletânea de contos do
Marquês de Sade ou do Dalton Trevisan como baixaria fina – neste caso,
arrisco-me a dizer que honro o adjetivo “estudioso”.
Talvez “absorto” sirva. Tão empolgado estava
em determinada leitura, não necessariamente dos citados autores, que lia em pé no
ponto de ônibus, dentro dos tubos que também caracterizam o transporte coletivo
da metrópole. A lotação chegando, eu entrava e me encostava próximo a porta, quando
não nesta, e voltava a ler assim que fechasse. A despeito do livro, não me
concentrava a ponto de ignorar meus arredores, o que incluía freadas bruscas,
entrada e saída de passageiros e gritos ou expressões verbais indiscretas
destes, em especial uma dirigida a mim - “nossa, isso que é vontade de ler”. Um
coletivo terrivelmente cheio, transitando lentamente debaixo de um sol
escaldante, e um sujeito se punha a ler como se tais fatores não o afetassem. Por
vezes eu observava pessoas lendo dessa maneira, noutras o visado era eu.
Houve capítulos, melhor, situações nas quais
a prática me rendeu reações mistas. Em casa, eu com a mente e os olhos
enterrados em um livro, e topava com alguma passagem que me era engraçada, eu
ria. Quem estava perto me olhava com algo que de estranhamento. Mesmo não
pedindo silêncio, talvez fosse esperado de mim, considerando minha absorção durante
a leitura.
Entre olhares cujo significado variava entre
“tudo bem aí?” e “alguém está se divertindo”, a melhor reação foi a da minha
irmã caçula. Eu tinha me jogado em um sofá na sala, e voltei a ler, e ela
chegou dizendo que ia interromper meu silêncio ligando a televisão. Eu lia, e
ria. Ela me perguntou sobre o livro, ao que respondi que gostava tanto daquele
em especial que lia uma vez por ano. A caçula me olha espantada, uma expressão
de personagem de desenho animado tremendo de susto, e emenda: “acho que vou
voltar a assistir”. Quanto a mim, voltei a rir- não do livro, mas da reação
dela. Melhor deixar ele lendo antes que fale mais bobagem, não?