Mostrando postagens com marcador Flim 2013. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Flim 2013. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Além da Convivência – Daniel Galera na Flim 2013

A última palestra da Flim, Festa Literária do Medianeira, foi na noite de sexta-feira, 25 de outubro de 2013. Perante um público misto, em comparação ao de bate-papos nos quais estudantes de sextos e sétimos anos compunham parte dos ouvintes, Caetano Galindo indaga ao convidado como acontece o processo de escrita, comumente associado a solidão.

A escrita é uma forma de expressão além da oralidade e da convivência, responde Daniel Galera, e enxerga uma tendência introspectiva em si mesmo, longe de ser antissocial, mas por ‘necessitar’ de tempo para dedicar-se a escrita. Antes de tornar-se ficcionista, tentou pintura, música, mas não obteve resultado, e encontrou-se na escrita, atividade que transcende a solidão, ele diz – apesar de nunca ter idealizado o ofício ou se imaginado escritor.

Caetano Galindo, o mediador, fala da acolhida de Barba Ensopada de Sangue, premiado em terceiro lugar no Jabuti 2013 na categoria romance,  e indaga Daniel Galera como é a ‘transição’ entre eremita e figura pública. Durante a divulgação de Cachalote, projeto em parceria com Rafael Coutinho, Galera teve contato com o fiel público das Histórias em Quadrinhos, até então novo para si, e foram muitos convites Brasil afora para ir a feiras de HQs. No caso do circuito literário, ele conta ser possível viver disso, de ir a todo evento em que se é chamado, tanto mediando encontros entre público e autor ou sendo convidado; em especial nos eventos cujos temas de debate são as obras dos autores, aumentando a chamada demanda por eles, como diz Galera, algo que todo autor contemporâneo deve lidar nessa euforia ‘incomum’ de eventos literários.


E como é a pressão de um livro não escrito, há uma angústia para escrever? Pergunta Galindo. Daniel responde mencionando o que David Foster Wallace chamou de criança defeituosa – pior é quando ela (o livro) não existe, o processo de escrita é considerado pelo autor melhor do que o de promoção do livro, e também o motiva a não querer sair de casa, buscando a solidão essencial para a atividade.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Retratando Marcas – Daniel Zanella e André Tezza na Flim 2013

A literatura absorve e organiza conflitos, fala Rosana Machado, mediadora de um debate entre André Tezza e Daniel Zanella, no quinto dia da Flim 2013 – Festa Literária do Medianeira. Mas que marcas são essas? , ela indaga.

Professor de Literatura na Vila Verde para adolescentes de 13-14 anos, Daniel Zanella busca inserir temas do cotidiano dos estudantes no universo literário, mapeando o que eles consideram cultura, de forma a integrá-los na leitura. Tarefa longe de ser fácil, comenta ele, pois os alunos encaminhados ao programa vêm de ambientes onde não há incentivo a prática da leitura e, em geral, marcados por violência.

A publicidade é efêmera e no dia seguinte ninguém se lembra do jingle ouvido, argumenta André Tezza, professor desta face da comunicação. Apesar desta suposta brevidade, os trabalhos do ramo expõem marcas de nossa época, no intuito de deixar visível o que não é, por vezes emprestando recursos humorísticos, cada vez mais frequentes, comenta André.

Rosana Machado lê um trecho de Dia do Degelo, crônica de Daniel Zanella, e indaga-o se nesta forma de escrita o autor é personagem. Há alguma dificuldade em separar tanto autor de personagem como o real do inventado, ele responde, devido ao impacto do texto nas pessoas próximas. Quase como nos tempos de colégio, nos quais Zanella escrevia cartas para as meninas de que gostava e apanhou do irmão de algumas; após tornar-se cronista, ao escrever sobre gente de convívio frequente e mostrar os textos, teve quem não gostou de ser ler retratado.


Respondendo a mediadora sobre a relação que estabelece com personagens e contos, André Tezza diz que depende do livro, durante a leitura ele descobre se o personagem tem a ver consigo.  Pode existir algum distanciamento ao ler a história, mas nem sempre durante a escrita, pois há indivíduos representados nas próprios personagens. 

Solidão Povoada – Paulo Venturelli na FLIM 2013

Na tarde de sexta-feira, 25 de outubro de 2013, a FLIM, Festa Literária do Medianeira, foi palco de um bate-papo com o escritor Paulo Venturelli. A mediadora desta sessão foi a também professora Ana Tezza, que indagou ao convidado como ocorre a relação entre literatura e vida, considerando leitura e escrita atos solitários.

É uma solidão povoada por todos que admiramos, de amigos antigos a novos, responde o professor. Mesmo sozinho, se tem em mente leitores a serem contagiados pela história narrada no livro, cujo sentido vem deles. Seu livro Anjo Rouco pode ser qualquer coisa, depende da leitura de cada um, ele afirma, ato dependente da interpretação feita a partir das entrelinhas do texto, dividindo a autoria deste com quem lê; afinal, um bom livro é aquele que deixa mais dúvidas do que certezas, afirma Venturelli, para quem a literatura é uma arte provocativa.

Ana Tezza pergunta-o como foi a trajetória até ele se tornar escritor. Ele conta que quando estava aproximadamente na idade do público – grande maioria composta por turmas do sexto ano, de 12-13 anos –, ouviu de seus professores que quem quisesse ser inteligente deveria ler. Em retrospectiva, Venturelli conta que era tímido, falava pouco com os colegas de classe; mas após ter começado a ler, passou a escrever melhor, e os professores começaram a notar e elogia-lo na frente da turma, e no recreio eram os alunos que iam pergunta-lo como que ele conseguia escrever tão bem, e pediam-no dicas disso. Gradativamente, de aluno que copiava trechos dos livros passou a escritor, e posteriormente a estudante na Faculdade de Letras.

Findadas as perguntas da professora Tezza, o microfone foi passado para os alunos. Segurando cadernos de aula com anotações, o primeiro estudante indagou como a história do livro Anjo Rouco pode ajudar no entendimento do mundo. Venturelli diz que não sabe exatamente, mas há uma possível compreensão do diferente na humanização do animal estranho que é o protagonista e nome do livro em questão, como se víssemos o outro do outro.


Quando começa uma história, já sabe o final dela? – questiona outro estudante. As vezes sim, responde o escritor, mas há livros sem final definido; em resposta a outra pergunta, escreve mais de um livro simultaneamente, tendo ideias para um próximo antes que a obra na qual trabalhe esteja finalizada. 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Análise Desacelerada – Caetano Galindo e Benito Rodriguez na FLIM 2013

Quinta-feira, 24 de outubro de 2013, quarto dia da FLIM, Festa Literária do Medianeira. Iniciando a bate-papo da tarde, o mediador Gustavo Pinheiro comenta sobre a cultura oral do Brasil, em especial a do nordeste, e sua possível associação noutras expressões. As riquezas da oralidade nem sempre estão longe do mundo da escrita, argumenta Benito Rodriguez, depende de como essa linguagem é usada, ele exemplifica que a poesia absorveu alguns elementos da palavra falada.

Uma cultura falada que não é abafada por letramento, de acordo com Caetano Galindo, outro convidado desta sessão. Inclusive, uma provê ferramentas a outra, e ele diz não ver relação entre presença da cultura oral e baixo letramento em determinadas regiões do país; e ressalta que não se deve demonizar uma expressão em detrimento de outra.

E quanto aos discursos do homem sobre si mesmo, além da leitura nos cursos específicos de humanas?,  questiona Gustavo Pinheiro. O texto considerado acadêmico é associado a obrigações, sendo renegado a segundo plano, mas os leitores de ficção são muitos , afirma Caetano Galindo. Ele considera a literatura um estudo do ser humano, como se fossemos forçados a enxergar a espécie doutras formas durante a leitura; pois qualquer universo profissional é limitador, caso seja o único direcionamento de um indivíduo – por isso Galindo diz que as pessoas mais interessantes que conhece são aquelas que vão além de suas profissões. A isso, Benito Rodriguez acrescenta o poder da literatura em proporcionar se por na perspectiva de outro, ainda que por breves instantes.

O mediador indaga sobre os novos espaços do texto, com a transição entre publicações impressas e virtuais. Houve uma mudança no modo de se relacionar com a leitura, afirma Benito Rodriguez, mas ele não vê problemas nos novos suportes. Não se trata de ver toda novidade como algo rápido e necessariamente melhor, como se todas as ferramentas anteriores devessem ser descartadas, mas o texto literário solicita tempo e concentração especiais, algo chamado por Benito de desaceleração. Uma vantagem, ele diz, que nos permite estabelecer um contraponto ao mundo excessivamente acelerado.


Antigamente, ao encomendar um livro importado, a entrega demorava semanas, mas hoje 15 segundos após baixar um e-book por Ipads ou celulares a leitura pode começar, conta Caetano Galindo, embora isso não signifique sossego para o ato – ele exemplifica que mensagens de celular não deixam ninguém em paz para tanto. Quanto a desaceleração mencionada por Rodriguez, ele compara a leitura a uma atividade subversiva e até cruel em relação ao que a sociedade espera, como se o ato demandasse uma quantia de tempo que esta preferisse empregar em mero entretenimento. Basicamente, cavar um buraco para ler sem pressa.

domingo, 27 de outubro de 2013

Entre desenhos e conceitos – Ademir Paixão e Pryscilla Vieira na Flim 2013

Manhã de quinta-feira, 24 de outubro de 2013. Após um bate-papo entre os jornalistas José Carlos Fernandes e Mariana Sanchez, o salão nobre do Colégio Medianeira foi palco para uma conversa entre dois profissionais desenhistas, no quarto dia da Flim, Festa Literária do Medianeira.

Ana Paula Luz, professora do colégio e mediadora desta sessão, pergunta aos convidados como começou a paixão pela atividade. O primeiro convite para aplicar seus traços profissionalmente foi em 1997, mas desde criança desenhava, conta Pryscilla Vieira, que trocava desenhos por lanches nos recreios. Quanto a Ademir Paixão, chargista da Gazeta do Povo há 27 anos, desenhava em Japira, cidade interiorana do Paraná onde morou enquanto menor,  gravuras encomendadas para fazendas e uma via crucis pintada em parede de igreja entre seus trabalhos iniciais.

A mediadora questiona quais as diferenças entre tiras, charges e demais formatos, ao que Paixão responde que a charge tem vida própria, vinculada ao noticiário, retratando algum aspecto deste, frequentemente com ironia e humor. Pryscilla comenta que a tirinha tem um tom mais leve e atemporal, sem ligação com o cotidiano.

Ana Paula Luz conta que encontrou desenhos atrás das provas dos alunos, apesar de atualmente os celulares e Ipads servirem como prancheta, e pergunta para os convidados como é a rotina de desenho deles. Vieira rascunha bastante no Ipad, e conta ter notado o que considera analfabetismo visual, por se lerem cada vez menos as imagens e nem sempre se interpretarem as reais intenções do desenhista com sua obra. Paixão compara desenhar a cozinhar, a evolução vem com a prática, e comenta sobre a presença do design em tudo, desde charges a uma singela cadeira – houve um processo de desenho nela.

É possível viver desenhando, em um sentido profissional? , pergunta Ana Luz. Rica a pessoa não se tornará, responde Ademir Paixão, mas isso depende do quanto se quer ganhar. Há uma porção de investimentos e pesquisas a serem feitos, permitindo não apenas o aprimoramento do traço mas também a criação de um estilo próprio – mas leva tempo. Pryscilla complementa, conta de uma visita que fez ao prédio de Maurício de Sousa, considerado um Walt Disney brasileiro, tamanho se tornou o império, nas palavras dela, construído por ele ao longo dos anos.

Vieira conta de sua personagem Ameli, uma boneca inflável com dois defeitos de fábrica: ela pensa e fala. Esta cria nasceu de uma vazão sentimental da desenhista, próximo ao natal de 2005, mas após divulgação cresceu e passou a ter espaços próprios, e a boneca antes comprada por um preço ‘módico’ tornou-se trabalho conhecido de Vieira, por meio do qual se põe contra a objetificação da mulher.


Questionado por Ana Luz, Ademir Paixão utiliza conceitos e preconceitos incutidos na sociedade ao desenhar, a exemplo de sátiras com a classe política, pois há uma noção amplamente difundida de desonestidade desta, ao contrário da política praticada 2500 anos antes, Paixão conta, onde o pertencente a esta categoria era quem ajudava a comunidade. 

sábado, 26 de outubro de 2013

Cinemas e Calçadas – Mariana Sanchez e José Carlos Fernandes na FLIM 2013

Manhã de quinta-feira, 24 de outubro de 2013. No quarto dia da Flim, Festa Literária do Medianeira, o salão nobre deste Colégio abrigou uma conversa entre dois narradores da capital paranaense, os jornalistas José Carlos Fernandes e Mariana Sanchez. Letícia Magalhães, mediadora desta sessão, menciona a escritora curitibana Teresa Urban, que preferia ser chamada de jornalista, pois embora autora de livros cujo conteúdo esbarrou na ficção, considerava-se mais jornalista do que propriamente escritora; e comenta também sobe a palestra da noite anterior, em que a igualmente jornalista Eliane Brum afirmou que há realidades que só a ficção suporta.

No cinema a fronteira entre ficção e documentário tornou-se difusa, diz Mariana Sanchez, e na literatura há um movimento semelhante. Narrar é da natureza humana, ninguém chega em casa ou em uma roda de amigos sem ter o que contar. Especificamente sobre a literatura, Sanchez comenta sobre o suposto ‘não servir para nada’ em torno dela, um raciocínio em torno da literatura por sua aparente falta de utilidade prática – um não servir para nada que é fundamental, de acordo com a jornalista, afirmando que a literatura amplia o mundo para a subjetividade. É entrar em contato com uma experiência alheia, confronto com as visões de outros, diz.

Maior especialista de determinado assunto por uma hora, eis o jornalista, descreve José Carlos Fernandes. O contato com a realidade vicia, ele conta, é como se estivesse sempre em busca da próxima história a ser contada; uma realidade mais fascinante que a ficção, pois ninguém imagina que um determinado fato tenha acontecido. Fernandes menciona a história de uma mulher que ele conheceu em uma favela, cuja prole é formada por 24 filhos. Em contato com profissionais da área médica, Fernandes não teve notícia de que 24 gravidezes fossem impossíveis, mas essa história que não consta na literatura médica existe. Mencionando as personagens. Afirma que lemos para encontrar pessoas em profundidade, cujas camadas são descobertas durante este processo – algo que vale também na ficção, menciona Capitu e Anna Karienina, de quem se descobre as razões de adultério ao ler suas histórias (acreditando na hipótese de Capitu ter traído Bentinho, este merecendo, se explica Fernandes).

Letícia Magalhães pergunta a Mariana Sanchez sobre o cinema brasileiro, muitas vezes julgado desinteressante pelo público, parte disso pela temática favela/pobreza. Há extremos, responde Sanchez, pois alguns diretores vêm de classes econômicas abastadas, e um oposto extremo é essa parcela da realidade retratada nas telas, ainda que de maneira exótica. Mariana faz uma breve comparação entre os cinemas brasileiros e argentinos, não em termos de conteúdo, mas de cultura – os ‘hermanos’ possuem certa tradição de ir ao cinema para assistir a produção nacional, algo que nosso Brasil perdeu um pouco.

Curitiba tem exemplo disso, pois houve uma redução no número de cinemas de rua, e mesmo com salas dentro de shoppings o público não é o mesmo, numérica e culturalmente. Devemos procurar o que gostamos neste universo infinito do cinema, afirma Mariana, lembrando que festivais dedicados a sétima arte tornaram-se mais comuns e acessíveis, por vezes sem cobrança de ingresso.

José Carlos Fernandes menciona uma frase de Steve Backes, que afirmou que nós sabemos mais sobre o imaginário norte-americano do que sobre o brasileiro, algo que se deu, em parte, por não ter existido uma construção do cinema daqui. Além disso, não é apenas a experiência da sala escura ou quaisquer possíveis rituais em torno do cinema, mas as narrações por meio das imagens amplificadas possibilitam uma compreensão de como nós somos, algo em andamento, ele conta.  


Quanto a coluna que mantém na Gazeta do Povo, na qual Curitiba é narrada por pessoas cujas palavras não seriam amplificadas por manchetes, sua origem veio, em parte, de um dado de uma pesquisa do jornal, apontando afastamento de leitores por conta de notícias sobre violência. Fernandes cita Susan Sontag – é impossível nos sentirmos insensíveis perante o mundo, mas pode existir um sentimento de impotência frente a sua face violenta. Há gente interessante em todos os lugares, afirma José Carlos, convicto de que todo mundo tem uma história para contar; e ao ouvir e contar as narrações de Curitiba por seus habitantes mapeia-se afetiva e simbolicamente a cidade, para motivar pessoas a voltarem para ruas e calçadas, pois, afirma, é nelas que a vida acontece. 

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Decifrando Pessoas – Eliane Brum na FLIM 2013

A arte de perder não é um mistério - assim escreveu Elizabeth Bishop em um de seus poemas, recitado por José Carlos Fernandes na abertura palestra de quarta-feira, 23 de outubro de 2013, no terceiro dia da FLIM – Festa Literária do Medianeira. Perante uma tenda lotada por um público misto de professores, jornalistas, alunos do Colégio Medianeira, estudantes de jornalismo – classe profissional a qual tanto Fernandes quanto a convidada pertencem – e outros visitantes, a escutadeira, como Elaine Brum se define, conta uma história na qual responde ao mediador porque saiu da Revista Época.

Em 2008, Brum conta, ela começou a trabalhar com a morte. Durante uma reportagem, acompanhou os últimos 115 dias de uma mulher, de nome Ilse, cujo falecimento se deu por um câncer. Durante estes dias, falava com Ilse diariamente, por telefone ou face a face, e em meio a uma dessas conversas ouviu dela que ‘quando tinha tempo, descobri que meu tempo tinha acabado’. A partir deste trabalho em particular, Brum passou a se dedicar no que considera reapropriação do tempo, uma construção constante, pois como ela ouviu de um de seus professores, tempo não é dinheiro, e sim o tecido das nossas vidas.

Em meio a esta reapropriação do próprio tempo, em 2010 Eliane Brum deixa o emprego na redação da Época, mantendo apenas sua coluna no site da revista, um espaço utilizado por ela até setembro de 2013, quando se desapropriou deste espaço virtual. Uma segunda parte deste processo foi criar uma segunda voz na ficção, especificamente o romance Uma Duas, lançado em 2011. Eliane conta que foi questionada diversas vezes por colegas de profissão ‘qual é o seu rumo agora?’, ao que ela responde que está em desrumo, uma necessidade de se desinventar para se reinventar.

José Carlos Fernandes retoma, conta alguns acontecimentos da Eliane Brum, que ficou surpresa pela pesquisa do mediador – um livro aos 11 anos, maternidade aos 15, a escrita do livro Vida que Ninguém Vê, e indaga-a qual foi a grande ‘dobra’ de sua vida. Todas e mais algumas, ela responde, contando que não estaria viva se não conseguisse transformar dor em palavra escrita, algo que fez no Gotas da Infância. O livro – muito ruim, diz Brum - era uma coleção de pedaços de papel nos quais Eliane escreveu sobre essa nomeada dor de existir, sentida durante sua infância, deixados pela casa como pistas para que a família a decifrasse; mas o pai não somente os guardou como os transformou no mencionado livro, um retrato de sua infância, lugar de difícil vivência para algumas crianças, de acordo com ela.

O mediador retoma e menciona uma pergunta feita pelo jornalista Gilberto Dilmenstein a várias personalidades, que é feita a palestrante – a quem você deve ser quem você é? A muita gente, responde Eliane Brum, e brincando diz ser igual ao pai - conta uma história iniciada anos antes do momento atual para responder algo.  Mas conta de outra pessoa a quem deve seu desenvolvimento, uma que ela não pôde conhecer.

No século XIX, o estanceiro Sabino Andrade Neves, de abastada família do Rio Grande do Sul, apaixonou-se por uma escrava. Enamorados, tiveram uma filha, e Sabino assumiu tanto mãe como criança. A mãe faleceu após o nascimento desta, e o estanceiro teve de cria-la sozinho, pois fora deserdado pela família. Sabino tinha estudo o suficiente para lecionar, uma profissão que sua filha, batizada Luzia, herdou, e pai e filha peregrinaram pelos interiores do Rio Grande do Sul vivendo como professores. Entre os alunos de Luzia, estava o pai de Eliane Brum, que foi a primeira pessoa da família a aprender a ler. Enquanto morava em Ijuí, cidade natal, Brum foi levada pelo pai ao túmulo da professora Luzia, responsável não apenas por ensinar a leitura, mas por tirá-los de uma cegueira das letras, considerando a leitura um ato de enxergar o mundo.

Visão composta por uma delicadeza aprendida em família, aspecto habitante do mundo. Brum conta que criou sentido ao decifrar como cada um dá sentido a própria vida, muitas vezes como poucos recursos. Toda história é grande para a escutadeira, como se intitula, ‘buscadeira’ de sentidos próprios nos olhares alheios.

Sentidos que vem de desacontecimentos, responde Eliane a José Carlos Fernandes. Ela considera o jornalismo como documento da história cotidiana, retratada em muitas de suas crônicas, cujas pessoas entrevistadas estão longe de padrões de manchetes de jornal. Afirma que nenhuma vida se torna banal quando se reconhece a grandeza alheia, no que chama a extraordinária vida comum.


No jornalismo, tornou-se comum chamar pessoas entrevistadas de personagens, independente de sua natureza, e Fernandes questiona Brum qual relação ela tem com as personagens das matérias. Ela diz que quando um repórter reduz uma pessoa a uma personagem ele está sendo traidor, pois personagem é da ficção, como se fosse pessoa ‘pronta’, enquanto ela vê o jornalismo como decifração do outro. Em resposta direta, Eliane conta ter relações fortes com tais pessoas, procura fazer um processo interno antes de entrevista-las – pergunta-se se fosse ela sendo entrevistada, permitiria que alguém a indagasse sobre suas atividades e anseios. Tudo isso porque, como afirma, a gente não entra na vida dos outros impunemente. 

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Recriação Poética – Ricardo Pozzo e Marcelo Sandmann na FLIM 2013

Segundo debate de terça-feira, 22 de outubro, na Festa Literária do Medianeira – FLIM 2013. No palco da tenda montada próxima a cancha esportiva do Colégio Medianeira, Cezar Tridapalli, organizador do evento, fala ao público, formado em maioria por estudantes de 14-15 anos, sobre o bate-papo da mesma manhã, no qual Daniel Zanella e Luiz Andriolli comentaram que a literatura permite conhecer outras pessoas, como se as desses voz – e Tridapalli passa a vez para Assionara Souza, mediadora desta sessão.

Ela pergunta aos dois escritores convidados onde se esconde a poesia, visto que ambos adotaram esta forma de expressão. Para Ricardo Pozzo, as crianças tem uma felicidade interior única, e o ‘mundo adulto’ muitas vezes perde a sensibilidade para perceber as sutilezas do mundo delas, recriado a sua própria maneira, e na falta de quem as ouça acabam falando sozinhas – parte desse ‘falar sozinho’ sendo fonte de poesias e demais escritos.

Já Marcelo Sandmann escreve a partir de textos que lê – ‘estou o tempo todo conversando com outros escritores’. Mas não é apenas dessas leituras que ele se alimenta para escrever, e sim de experiências pessoais, na observação de detalhes do cotidiano.

Pozzo diz que começa a escrever porque lê, e diz que todo mundo tem direito a escrever. Mesmo que seja algo apenas para si, ou que a pessoa não goste do que escreveu quando for ler de novo, pois considera que ao escrever se transmite um sentimento que não poderia ser contado de outra forma.

Após ler um trecho de um poema de Marcelo Sandmann, Assionara Souza pergunta como é a exposição de outros textos em sua obra. Sandmann menciona policial em ascensão, histórias macabras ou pesadas do cotidiano, conta que só as manchetes dos noticiários por si mesmas já contam histórias, e a reunião que ele faz delas em suas poesias é como um choque de linguagem entre o lado ‘bruto’ da realidade e o poético.


É preciso ser muito humano para ter sensibilidade hoje, argumenta Ricardo Pozzo. Nas palavras dele, a poesia é uma significação de força e sensibilidade, uma das expressões de humanidade em um mundo que há incentivo a tudo, menos a essa face sensível. 

Leitor como Amigo - Daniel Zanella e Luiz Andrioli na FLIM 2013

Manhã de terça-feira, 22 de outubro de 2013, segundo dia da Festa Literária do Medianeira – FLIM. Dentro da tenda montada próxima a cancha esportiva, algumas pessoas escolhiam seus lugares tranquilamente, os convidados deste bate-papo se encaminhavam para o palco, não sem antes serem avisados para ‘se prepararem’. Em um breve momento começa a sessão, e eis que dezenas de alunos, na faixa etária de 13-14 anos, entram na tenda e lotam-na com suas elétricas presenças.

Ricado Pozzo, mediador, pergunta aos dois convidados sobre o ‘assunto do momento’, a biografia, considerando que na semana anterior a esta sessão houve polêmica devido a família do falecido poeta curitibano Paulo Leminski não ter autorizado a publicação de uma biografia deste escrita por Domingos Pellegrini – fato mencionado pelo mediador. Daniel Zanella responde que a imagem de uma pessoa pública pertence a coletividade, como se a vida da pessoa, no caso, Leminski, não pertencesse mais a família dela, embora ela procure velar os mortos a própria maneira. Zanella considera tal impedimento é um ranço da ditadura, devido a este cerceamento de informação.

Impedir a publicação de uma biografia é censurar uma história, e este ato é o mesmo de censurar uma reportagem que expõe riscos de uma decisão política equivocada, responde Luiz Andrioli, outro convidado desta mesa. Ele conta do processo e escrita do livro O Circo e a Cidade, sobre a trajetória da família circense Queirolo em Curitiba. Conheceu membros desta família através da própria, e após longa pesquisa começou a escrever o livro, o que significou contar acontecimentos bons e ruins. Alguns dos Queirolo não gostaram do que leram ,e tentaram convencer Andrioli a desistir da biografia; mas meses depois do livro ter sido publicado, a família circense passou a aceita-lo como seu. Ninguém gosta de se ver no espelho, diz Andrioli, e pergunta para o público – alguém já gravou a própria voz? Gostou do que ouviu? Um coro de ‘nããããos’ foi a resposta, e ele comenta que é semelhante em relação a biografia.

Ricardo Pozzo pergunta aos convidados como é a percepção do que constrói uma boa história. Daniel Zanella menciona Nelson Rodrigues, admirado por suas crônicas ditas simples, acessíveis a todo cidadão; ao que este disse em uma entrevista ‘vocês não imaginam como é difícil escrever simples’. Zanella conta que o cronista deve enxergar o leitor como amigo, para quem conta algo do cotidiano sem que isso soe conteúdo apenas para entendidos ou iniciados em determinado assunto, mas sim uma conversa leve; de maneira que o leitor, se identificando com que lhe é contado, enxergue no escritor um amigo próprio.

Luiz Andrioli conta sobre uma crônica que escreveu para a revista TopView, sobre uma barista. Ao conversar com a barista, soube que parte da família dela havia trabalhado com café, desde parentes que haviam estudado o tema a alguns que sobreviveram de plantações de café em eras passadas. Mas não parecia ser o suficiente, era como se faltasse algo para ‘fechar o texto’, a gíria do jornalismo para terminar a matéria. Andrioli disse que se valeu se um detalhe para tanto: durante o tempo em que entrevistou a barista, no local de trabalho desta, o marido dela foi até lá e entregou-a algo, pequeno o suficiente para caber em uma mão fechada – um brinco, precisamente. O jornalista pediu para ver o brinco, que tinha a forma de um grão de café pintado a ouro, de onde veio o nome da crônica – Grão de Ouro. É ao observar detalhes que vem a inspiração, conta o jornalista.

Respondendo a uma pergunta de Ricardo Pozzo, Luiz Andrioli recomenda a leitura de Érico Veríssimo e Dalton Trevisan. Cita uma pesquisa publicada pela revista Science, na qual se escreveu que quem lê mais ficções e romances está mais apto a conhecer o outro, tendo uma sensibilidade maior, não a ponto de chorar pelo que presencia, mas no sentido de perceber as nuances do contexto que o cerca.


Zanella conta que lê 30 páginas, se não se sentir conquistado este ‘prazo’, desiste do livro. O importante, ele diz, é encontrar um livro que possa divertir o leitor. Considera importante a expansão do acervo literário, mas com cautela, conta que a indicação de alguns livros lhe foi desastrosa em determinados momentos – não tinha consciência para entender Dom Casmurro aos 11 anos. Zanella fala que a literatura pode ajudar a conhecer pessoas, algo que somado ao que ele e Andrioli contaram neste bate-papo, pode fazer com que leitores e escritores vejam nas produções e leituras uns dos outros alguém com quem conversar.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Herança por meio de Histórias – Ilan Brenman na FLIM 2013

Escritores são herdeiros dos narradores, de acordo com Cecília Meireles. A frase é citada por Ilan Brenman, na primeira palestra da Flim 2013 – Festa Literária do Medianeira, em uma chuvosa noite de segunda-feira, 21 de outubro. A mencionada frase de Meireles, Brenman adiciona que vivemos e morremos por causa das histórias, algo explicado por meio de uma que ele conta.

Em um reino muito distante, havia um rei muito poderoso, apaixonado por sua rainha. Porém, um dia ela adoeceu, emagreceu muito, e o rei pediu auxílio aos melhores médicos do reino. Porém, em vão – a rainha continuava doente, magra e triste. Em busca de socorro, o rei andou por todos os cantos, e nenhum remédio parecia bastar. Até encontrar um camponês, que o apresentou a sua esposa – sorridente,  saudável e em forma. ‘Mas o que o senhor dá a sua esposa, que ela está tão bem?’ perguntou o rei, e ouviu do camponês que este a alimentava com carne de língua. O rei deu-se por satisfeito com a resposta, voltou ao seu castelo e instruiu ao cozinheiro que preparasse tal prato.

Ilan Brenman continua com a história –seu cozinheiro preparou a tal ‘carne de língua’ com o que tinha- língua de cobra, sapo, qualquer animal que fosse; mas, mesmo com ingerindo essa refeição, a rainha não melhorou. E o rei afligia-se, se perguntava porque o tal ‘remédio’ funcionou tão bem com a esposa do camponês, mas não com sua amada rainha. Foi conversar com o camponês, contou-lhe que serviu carne de língua a rainha mas ela não melhorava, e os dois homens trocaram de lugar por alguns dias – o rei foi cuidar da esposa do camponês, enquanto aquele foi cuidar da rainha. Ao desfazer a ‘troca’, o rei notou que a rainha estava bem, tinha voltado a forma, sorridente, ao que a esposa do camponês adoeceu. Este perguntou o que houve, e o rei contou que serviu a tal carne de língua a esposa do camponês da mesma forma que a rainha, e o camponês explicou o que realmente significava tal expressão. Não era de comer ou beber, ou algo físico, e sim contar histórias para a pessoa. Aí o rei suspendeu o prato que pediu a seu cozinheiro, a passou a contar histórias para sal rainha.

Após terminar de contar esta história, Brenman comenta dos vários tipos de ‘carne’ do que nomeou açougue da vida, há desde carne fina de primeira qualidade a comida de quinta. E adverte - se nos alimentamos apenas de histórias ‘fast-food’, viramos zumbis.

Mas ilustrar um raciocínio por meio do conto parece não ser o suficiente. Por que inventar histórias se podemos falar? Ilan questiona a plateia, uma multidão de pais, mães, professores, crianças e visitantes que lotou o salão nobre do Colégio Medianeira. A primeira resposta veio de uma criança na segunda fila, próxima ao palestrante: para deixar a vida interessante. Outras respostas, de adultos, vieram de carona – pelo conhecimento, criatividade.

O homem não suporta a angústia de não compreender o mundo, e as histórias eram criadas para explica-lo, conta Brenman. No contato com estas ferramentas de compreensão chamadas histórias e linguagens, podemos entender a história da natureza humana, e perceber que não houve mudança nela, diz o palestrante, que considera a espécie como a mesma de sempre.

Parte da herança dos escritores, legado dos narradores, conforme a citação no início desta palestra, pode ser explicada por outro ato falado por Ilan: nomear. Usando uma frase do psicanalista francês Jacques Lacan, argumenta que quando não se nomeiam sentimentos, eles nos devoram; enquanto o ato de nomear é mais do que mera definição, é uma proteção.

Ao contrário do chamado politicamente correto de não mostrar realidades as crianças e disfarçar temas com palavras suaves, como se falar de violência fosse incentivar um comportamento violento na criança - um pensamento que Ilan comenta ser ultrapassado nas áreas educacionais estrangeiras, mas ainda corrente no Brasil.


A criança é dona de um mundo interior rico e complexo, argumenta Ilan Brenman. Um universo a ser explorado com cuidado e sensibilidade, nomeando experiências e sensações, evitando ou possivelmente reduzindo a angústia da incompreensão, especialmente ao considerar que as viagens das crianças (por meio de leituras ou não) não são as mesmas de pais e mães. E assim se toma posse da herança deixada por narradores e escritores.