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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Segundo Nascimento

Na foto do cartaz de divulgação, o semblante sério, curtos cabelos e comportados, as mãos próximas dos pés, trajes comuns sem adereços ou extravagâncias, composição visual cuja impressão pode ser de alguma rigidez ou excessiva seriedade no trato. Em um pátio interno de um colégio, uma multidão crescente e ruidosa aglomera-se frente a uma porta de um teatro, aguardando a pessoa cujo trabalho é motivo de um bate-papo.

Sem anúncios, nem escândalos com a própria presença, apresenta-se em notável discrição. Algumas vozes em volta silenciam, perante a chegada da admirada figura. Uma funcionária fala com a convidada, indica-a um corredor, informa-a de que ao final deste está o organizador do evento. Poucos minutos de espera, as portas do teatro são abertas, o público adentra. Um funcionário do colégio faz uma breve apresentação da convidada: escritora, jornalista, tais e tais prêmios, livros, pequena formalidade antes que o microfone seja passado a dela.

“Eu não tinha muita convicção disso, de ser repórter”, ela fala, tom suave e natural de voz. “Eu tinha escolhido jornalismo, nunca tive problemas nas aulas, mas acabei escolhendo porque as outras opções de faculdade não pareciam tão legais. Mas apesar disso, eu nunca tive em mim essa força, esse ideal de reportar. Só no final do curso que um professor me ensinou a importância disso”, explica. “Esse professor me ensinou que reportar é mais do que levar informação, que há casos em que você conta uma vida quando escreve”.

“É como se você se deixasse por um momento e desse a sua voz a outro”, continua. A repórter fala de tal forma que o ouvinte é embalado pela tranquilidade do que ouve. Ela emenda: “é você buscar ouvir alguém pela voz desse alguém, evitando julgamentos prévios”. Uma moça na plateia levanta a mão, e pergunta como é a relação da convidada com a escrita e a leitura, considerando que boa parcela dos trabalhos dela está relacionada a estas atividades.

“A leitura veio antes da escrita, foi como nascer de novo”, ela responde. “Fui ensinada a ler e escrever pelo meu pai, e ele aprendeu com uma senhora para quem prestava serviços. Esta senhora queria que todas as pessoas do vilarejo onde meu pai morava pudessem ler e escrever, e sempre dizia que o mundo da leitura é um mundo maravilhoso, onde você viaja pelas páginas. O meu pai aprendeu isso com ela, e eu com ele. E graças a essa senhora que nós podemos viajar pelas páginas, porque antes disso éramos cegos das letras. Foi um segundo nascimento”.


Outras perguntas foram feitas naquele curto bate-papo, uma delas sobre inspiração, em busca de compreender como a escriba exerce o ofício. Alguns ouvintes nas cadeiras da primeira fila do teatro, que estavam com blocos de papel e canetas em mãos, puseram-se a rabiscar rapidamente, para registrar com exatidão cada palavra da convidada. Porém, pouco antes da pergunta cuja resposta foi mencionada no parágrafo anterior, também haviam mãos levantadas, possíveis questões extras ou declarações de afeto. Mas quando ela falou no que denominou segundo nascimento, parcela dos que assistiam ao bate-papo julgaram ter compreendido mais do que as palavras podem explicar.

domingo, 6 de outubro de 2013

Anônima Gentileza

O centro de Curitiba, esta cidade dentro da capital do Estado. Suas ruas e praças batizadas em referencia a Marechal Floriano Peixoto, Barão do Rio Branco, XV de Novembro, Voluntários da Pátria, Tiradentes, e outras personagens ou datas julgadas importantes devido ao legado de distante época, reconstituída por esparsos entusiastas da história local e solenemente ignorada por cidadãos que cruzam avenidas sem se preocuparem com seu nome ou origem.

Saindo a pé da Praça Rui Barbosa, uma espécie de terminal de ponto de ônibus a céu aberto, em direção a Praça Osório, marcada pelo chafariz e por ser ponto de barracas de feiras de inverno ou artesanais, anda-se pela Senador Alencar Guimarães, cortada pela Emiliano Pernetta. O corte se resume a uma faixa de pedestres, atravessada por velozes veículos motorizados enquanto os caminhantes aguardam (ou não) a sua vez prostrados no fim das calçadas.

Um homem, de idade entre vinte a trinta anos, está parado ao lado do semáforo, e tem a atenção roubada do trânsito por algo que lhe é encostado suavemente no braço esquerdo. Olha a fonte do toque, é uma fina bengala de plástico, manejada por um senhor com visíveis quarenta e tantos anos. Este pede ao jovem auxílio para cruzar a ruela, que lhe atende. O sinal enverdece, o rapaz caminha lentamente segurando o senhor pelo braço, e gentilmente pergunta-lhe o nome. “Meu nome não importa”, resmunga. Desistindo do diálogo, informa ao cidadão que chegaram ao outro lado da rua, ao que o homem de bengala na mão agradece, e desaparece na multidão, tão anônimo e discreto quanto surgira.

A mencionada Praça Osório cruza diretamente com a Avenida XV de Novembro, referência por concentrar cafeterias, lanchonetes, bancos, lojas de calçados, de roupas, estabelecimentos vinculados a cultura e a ensino - o Teatro Guaíra próximo a Reitoria da Universidade Federal, e o imponente prédio onde outrora funcionou o shopping Garcez, hoje Campus da Facinter, cada um em uma ‘ponta’ da rua XV, servindo de referência – e outros serviços oferecidos ao habitante curitibano. Não faz mal não saber o nome exato de um lugar, afinal, “me encontre na frente daquele bar dos toldos roxos”, “na entrada da galeria perto do café”, “pega aquela rua que sobe para a Biblioteca”, “o tal prédio fica em frente ao cavalo babão no Largo, sabe”.

Talvez se saiba. Um humorista afirmou certa vez que o Brasil é um país onde todo mundo fala errado mas todo mundo se entende. Adaptando parcialmente a zombaria, por aqui nem todo mundo sabe o nome da rua pela qual anda mas sabe aonde quer chegar.  Dependendo do caso, singelos “com licença moço, esse ônibus vai para o centro?”, “moça qual o nome dessa rua?” servem para evitar problemas de localização. Se por acaso quem perguntar estiver diante de um excessivamente introvertido, mal-humorado ou puro indisposto cidadão, este pode nem falar, mas apontar o nome da rua em uma placa ou parede próxima.

O que serve, ainda que duas quadras a frente, uma a direita e uma última a esquerda seja necessária nova pergunta. Uma olhada em um pedaço de papel ou anotação no celular na qual o endereço de destino foi registrado, apenas para certificar-se de que se está em frente a ele. Os olhos passeiam em busca do nome e número do destino, com possibilidades de encontrar mais do que se procura.

Um exemplo: na região do Largo da Ordem, há uma quadra cujos lados são duas ruas inclinadas, na qual está uma construção antiga, que pode ser vista a distância, das quadras em declive perto da que abriga a referida construção, de tons amarelados, com altos portões de ferro, chamada Sociedade Garibaldi. Saindo do Memorial de Curitiba, andar duas quadras em aclive em direção a esta sociedade é um entre muitos caminhos para nela chegar.

Precisamente entre o bloco da antiga Garibaldi e o anterior a ela, fazendo-se o caminho descrito no parágrafo anterior, há uma ruela pela qual passam inúmeros carros, e a pressa de seus motoristas força os pedestres a esperar passagem, especialmente pela falta de semáforo neste trecho. Eis que durante um final de tarde, uma moça empurrando um carrinho de bebê espera uma folga dos carros para ir pela quadra da construção; ela dá um passo a frente, mas recua frente ao tráfego.


Um homem, na frente desta mulher, porém na direção oposta a ela, nota o aguardo desta. Ele desce pela ruela, um carro se aproxima de onde ele está,  o homem levanta a mão em sina de pare, forçando o motorista a um freio, e com a outra a mão acena “venha” para a mulher, que enfim caminha ladeira acima. Assim que ela pisa na quadra de cima, o homem atravessa a rua e segue abaixo. Três rapazes na sacada de um restaurante vermelho, na esquina do bloco vizinho ao da Sociedade Garibaldi, aplaudem e gritam “isso aí, parabéns” e pronunciam um nome que não é tão audível em meio ao som dos carros trafegando, mas ouve-se ‘inho’ ao final. Seria Joãozinho, Luisinho, Ricardinho, o nome do homem que facilitou o trajeto da mulher que empurrava o carrinho de bebê? Não há como saber. Ambos desaparecem em seus caminhos, sem sequer perguntarem-se os nomes. O que não impediu uma anônima gentileza.

domingo, 8 de setembro de 2013

Voltando a Leitura

Durante alguns meses, fui estudante de um curso de fotografia, lecionado em uma escola no centro de Curitiba. Um ônibus e dez minutos de caminhada me bastavam para eu chegar ao destino. Avesso a atrasos, preferia chegar cedo, ainda que isso me resultasse em quinze ou vinte minutos de espera.

O que não me dizia nada. Minha ocupação pré-aula, sentado em um banco próximo a sala, era a mesma que durante o tempo dentro do veículo: um livro. Devido à prática, ganhei uma injusta alcunha. “Estudando de novo”, me disse a professora, mais de uma vez. Imerecida fama minha, e ingenuidade a dela. A menos que ela considere coletânea de contos do Marquês de Sade ou do Dalton Trevisan como baixaria fina – neste caso, arrisco-me a dizer que honro o adjetivo “estudioso”.

Talvez “absorto” sirva. Tão empolgado estava em determinada leitura, não necessariamente dos citados autores, que lia em pé no ponto de ônibus, dentro dos tubos que também caracterizam o transporte coletivo da metrópole. A lotação chegando, eu entrava e me encostava próximo a porta, quando não nesta, e voltava a ler assim que fechasse. A despeito do livro, não me concentrava a ponto de ignorar meus arredores, o que incluía freadas bruscas, entrada e saída de passageiros e gritos ou expressões verbais indiscretas destes, em especial uma dirigida a mim - “nossa, isso que é vontade de ler”. Um coletivo terrivelmente cheio, transitando lentamente debaixo de um sol escaldante, e um sujeito se punha a ler como se tais fatores não o afetassem. Por vezes eu observava pessoas lendo dessa maneira, noutras o visado era eu.

Houve capítulos, melhor, situações nas quais a prática me rendeu reações mistas. Em casa, eu com a mente e os olhos enterrados em um livro, e topava com alguma passagem que me era engraçada, eu ria. Quem estava perto me olhava com algo que de estranhamento. Mesmo não pedindo silêncio, talvez fosse esperado de mim, considerando minha absorção durante a leitura.


Entre olhares cujo significado variava entre “tudo bem aí?” e “alguém está se divertindo”, a melhor reação foi a da minha irmã caçula. Eu tinha me jogado em um sofá na sala, e voltei a ler, e ela chegou dizendo que ia interromper meu silêncio ligando a televisão. Eu lia, e ria. Ela me perguntou sobre o livro, ao que respondi que gostava tanto daquele em especial que lia uma vez por ano. A caçula me olha espantada, uma expressão de personagem de desenho animado tremendo de susto, e emenda: “acho que vou voltar a assistir”. Quanto a mim, voltei a rir- não do livro, mas da reação dela. Melhor deixar ele lendo antes que fale mais bobagem, não? 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A Frieza do Pôr do Sol

Acordara. Sem companhia, recolhera-se na cama, e se dera ao luxo de cochilar após o almoço. Saiu debaixo das cobertas, espreguiçou-se, a meia hora que dormiu valera por duas inteiras. Foi até o banheiro, acendeu a luz, olhou-se no espelho, os cabelos desarrumados e as remelas nos olhos denunciavam a soneca.

Despertou após um banho quente. Além das roupas de costume, vestira uma blusa de lã e uma jaqueta; mesmo dentro do lar, sentia muito frio.

Apesar disto, apreciava-o. “Só você para gostar de uma cidade dessas, parece que nunca esquenta aí’, ouvira de um amigo que morava noutra cidade. O calor também lhe agradava, porém, sentia-se mais a vontade no que chamava de ‘charme congelado’. Respondia aos encalorados que o clima de onde residia era mais aconchegante e propício ao namoro.

Computador na mesa da sala, xícara com café ao lado do mouse pad, uma música acústica ligada. Tinha algumas pendências para resolver, livrou-se delas o mais rápido que pôde. Já tinha se dado ao luxo de dormir após o almoço, e resolveu se ‘presentear’ novamente; para tanto necessitava de uma tarde sem compromissos – e seria esta.

Agenda em branco, como desejava. Trancou a casa, saiu para cumprir o objetivo: uma extensa caminhada. Ruas com pouco movimento, quase despercebidas entre vias rápidas, eram o começo do trajeto, continuado por outras vias que lhe parecessem novas. Praças diminutas, entre a calçada que une uma rua sem saída a outra dentro do bairro; bancos de madeira com aparentes sinais de abandono, desde pichações a partes quebradas; arbustos e árvores servindo de escudo a moradias vistosas a distância, tanto pela localização quanto pelo porte; pontes improvisadas ligando margens de rios, estes contaminados e fedorentos devido a sujeira, aquelas frágeis e prestes a quebrar no primeiro descuido; poças de água da chuva do dia anterior, cercadas por calçadas incompletas dividindo espaço com pilhas de materiais de construção ou pedras soltas; não havia restrição de percurso.

Numa vez em que caminhara com um amigo, ouvira ‘parece que você prefere aonde não tem como andar’. Não se ofendia, toda ida-e-volta rendia. Especialmente nos dias frios, pois não suava nem se cansava.  Acostumara-se a todo tipo de terreno e companhia, ainda que esta fosse apenas o vento.

Não foram poucos os trabalhos realizados após breves passos pelo bairro, e teve quem brincasse que a andança era um energético. Talvez, embora não soubesse explicar como uma singela caminhada pudesse ajudar.


Decidira voltar por um caminho diferente, queria ver o céu mudar de tom por outro ângulo. Alguns raios de sol haviam clareado parcialmente a tarde, cuja pintura foi dominada por cores pálidas, e a esfera começava a sumir em algum ponto longínquo, tão discretamente quanto surgira. Retornando lentamente para casa, desconhecidos contornos urbanos lhe preencheriam os olhos, para outrora serem revisitados; e quem sabe, em uma próxima tarde, teria o privilégio de acompanhar, ainda que a distância, a frieza do por do sol.

PS.: a versão original foi publicada em

domingo, 11 de agosto de 2013

Estante Incompleta

Eu estava organizando a estante do meu quarto, tarefa parcialmente ingrata. Não importa que critério eu use para dispor os itens, nem quantas vezes eu os mude de lugar, nunca me contento com essa bagunça.

Mas vejo um pequeno benefício nessa neurose. Minhas lembranças ficam mais nítidas na medida em que pouso meus olhos sobre o que encontro.

Aquela orquestra magnífica, a programação ainda está comigo. Folder de show que fui, onde encontrei amigos que não via há tempo. Uma propaganda sobre a peça de teatro que um antigo parceiro de banda me convidou, será que ele ainda atua? O ingresso do grupo de dança folclórica do qual uma amiga faz parte, daqui algumas semanas tem nova apresentação.

É fácil cuidar de papéis, uma caixa e pronto. Não que a estante fique mais apresentável sem eles, pois ainda tem uma porção de livros para guardar. Seis de um autor, dez de outro, ambos lidos desde a época do cursinho; cinco que foram presentes de aniversário, aquele me foi indicado por um amigo; e no mínimo metade da coleção originou-se em sebos, em reavaliações de materiais a serem mantidos ou trocados.

É um acervo amorfo e eternamente incompleto. Alguns amigos se espantam ao vê-lo, e dizem que tenho bastante. Bastante ignorância. Não importa quanto eu adquira ou empreste, minha biblioteca particular é marcada pelos buracos. Uma matéria no jornal literário da cidade, tal título parece interessante, além da menção ao autor cuja obra  acompanho. Uma revista conduziu uma entrevista fantástica com artista ou político, e quem sabe um exemplar desta edição more por aqui.

Além do ‘quanta coisa’, também ouvi que sou culto ou inteligente. Breve engano. O elogio é sincero, apesar de eu não gostar desses termos.  Nos contatos presenciais com pessoas das áreas ditas ‘culturais’ que mais me interessam, não é preciso esforço algum para topar com quem as estude e pratique por um tempo igual a minha idade ou mais; e ninguém se descreve com essas palavras. As pessoas apenas conversam.

Porém, apesar deste saudável acúmulo de conhecimento, uma questão persiste. O que eu faço com isso? Sério, o que eu faço com essa cultura toda, ainda que pouca, incompleta e disforme?

É para ficar mais inteligente, diriam alguns? Para quebrar preconceitos?
Independente dos argumentos que me apresentem, a única certeza possível me parece o reconhecimento do próprio não-saber. Para cada explicação, uma dúvida nova, acompanhada da vivência de quem a expressa – e lá se vai outro oceano de particularidades.

Lembro-me de duas colunas nas quais o jornalista Daniel Piza argumentou sobre o tema.  Na primeira, ele citou dois exemplos de utilidade da cultura na vida cotidiana.

“Uma foi de um agrônomo que conheci em minha viagem pelo cerrado, [...], que comentou as dificuldades de convencer os produtores a adotarem métodos mais modernos e, citando os que dão atenção aos padres que acham que genética é obra do demo, resumiu: ‘Quando o sujeito não tem cultura, assimila a primeira informação’. A outra foi do Lopes, o profissional que corta meu cabelo e que me contou dos problemas que surgem quando um talento da tesoura começa a despontar, decide abrir seu próprio negócio, ganha muito dinheiro e, ‘como não tem cultura’, se deslumbra com o sucesso, perdendo-se em drogas e dívidas”.

Na segunda, após argumentar sobre a utilidade indireta da cultura
(“intensificar a percepção, ampliar sua capacidade de associar e antecipar”), ele afirmou, altruisticamente, que ela pode fazer de um indivíduo melhor ser humano, “menos orgulhoso e mais seguro, menos complacente e mais compreensivo, menos crédulo e mais produtivo, menos passivo e mais alerta”.

Será?
Talvez, após uma década ou mais reorganizando minha estante, eu me satisfaça pelo menos com a disposição dos sinais físicos de algum acúmulo de cultura.  E descubra outros acréscimos necessários para faxinas vindouras.


Nota: As colunas citadas são, respectivamente, Contra o Elogio da Ignorância, de 2/12/2001, e Utilidades da Cultura, de 6/8/1999. Ambas estão na coletânea Contemporâneo de Mim, publicada pela Bertrand Brasil em 2007. 

PS.: este texto foi originalmente publicado com o título "Organizando a Estante", e foi levemente editado . 

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Pétalas Escuras

Tarde de céu aberto, clima quente, sentia como se os raios solares insistissem em atingir sua cabeça. Improvisava uma proteção com a mão direita, encostada horizontalmente acima dos olhos.  Andava a passos lentos, tinha a tarde livre, mas parecia competir um espaço na calçada com pessoas que iam de um canto a outro.

Mesmo tendo que encarar o que lhe parecia uma multidão e um clima que não lhe agradava, sentiu que valeu a pena ter saído de casa. O que tinha visto, no primeiro contato com o que lhe fez sair do conforto do lar, já era recompensador, e, melhor, era só um começo.

Soubera da feira graças a matérias de jornal, lido no dia anterior. Estava de folga naquela semana, poderia se dar ao luxo de descansar sem se preocupar com o trabalho no dia seguinte. Mas independente do tempo livre que tinha, o lugar onde mais ficava era o jardim.

Não se lembrava da primeira planta que viu, mas a primeira que plantou estava enraizada em sua memória: uma semente de girassol. Nos seus oito anos, via a mãe trocando flores e vasos de lugar, o pai carregando sacos de terra de cinco quilos e deixando algumas ferramentas no chão, presenteando-a com algum item a mais para o jardim, dizia que flor nunca era demais.

As vezes, ficava perto, só olhando, em silêncio. Em outras, levava um vaso para dentro de casa, ou passava a tesoura ou qualquer outra ferramenta que a mãe precisasse. Não entendia direito, por que ela troca tanta terra e deixa esse monte de flor no mesmo lugar? Ela respondia, as plantas precisam de cuidado, terra nova, água, por em um vaso maior, mas continuava sem entender aquilo. Era mais fácil ficar observando.

Um dia, enfim, a mãe lhe perguntou se queria plantar uma semente. Sem saber bem o que fazer, pegou uma semente maior que as demais – de girassol, aprendera.  Foi a primeira que viu, nem sabia no que aquilo se transformaria, mas gostou da ideia: cavar um buraco na terra, por a semente, cobrir com cuidado, e o primeiro passo já estava feito. Molhar o local – aprendera posteriormente o verbo regar -, e não descuidar após o nascimento.

Lentamente, o girassol nasceu. Não recordava direito quanto tempo levou, se foram quatro ou cinco meses, mas demorou. A espera valeu a pena, a planta crescera forte, precisava de duas réguas do material do colégio para medir a altura dela. E todo dia a criança cuidava da flor como se fosse um membro da família.

Porém, foi um membro que ficou por pouco tempo. Em duas semanas a flor tinha murchado, ficando com a cabeça caída e as folhas secas, mesmo regadas, e por mais que a mãe contasse que cada flor tem seu ciclo de vida e suas condições para crescer e manter-se firme, a criança ficou inconsolável. Via a mãe cuidando do jardim, mas levou algumas muitas semanas até ter ânimo de plantar outra flor – mas queria uma que durasse mais tempo.

Lembrava-se deste episódio de infância enquanto via os girassóis expostos em vasos na primeira tenda da feira. Alguns mais altos, outros recém-saídos da terra, e muitos pacotes de sementes a venda, junto com os já crescidos. Quando criou o próprio jardim, em seu lar, conseguiu criar um exemplar desta flor – e durou mais do que duas semanas, tinha até fotografado a evolução dela. Tivera só essa e bastava. Com o desabrochar dos anos, não foi somente o gosto pela jardinagem que se desenvolveu.

Tinha criado um hábito um pouco estranho para alguns, mas que passou a caracterizar seu jardim. Vivia cultivando plantas escuras. Violetas, tulipas, petúnias e todas as outras flores em suas cores mais escuras possíveis. Se uma espécie pudesse ter folhas nessas tonalidades, buscava um exemplar para a coleção.

Até os vasos eram escuros. Comprava vasos de cerâmica, e sempre pedia no tom mais escuro possível, um marrom que, embora não se aproximasse do tom da terra, era o suficiente para combinar com a coloração de suas ‘filhas florais’.

A mãe levou um choque quando viu aquele jardim obscuro. O pai perguntou se estava bem, achou que podia estar triste com alguma coisa e descontou tudo na plantação. Foi a vez da criança, agora adulta e dona do próprio quintal, explicar que as plantas negras estavam mais próximas de si do que as claras. Uma resposta que não ajudou, pois outros itens da casa também tinham tons escuros – do mogno da estante a fotografia preto-e-branco da sala e o computador preto.

Ganhou uma rosa branca do pai uma vez, mas ficou em segundo plano – parecia que só tinha mãos para cultivar ‘aquelas coisas pálidas’. Tão lentamente quanto o crescimento de uma planta, a família e os amigos aceitaram – mesmo sem nunca entender tal fascínio enegrecido.

Enquanto procurava algo pudesse ser adicionado a sua coleção, via que as demais tendas da feira tinham flores de todo tipo, e algumas estavam em um salão a parte, supunha ser uma competição ou exposição especial, pois na base do vaso podiam-se ver placas identificando donos e detalhes do plantio. Muitas pessoas queriam olhar as flores de perto, tirar fotos, conversas começavam ao admirar as plantas e grupos se formavam ao seu redor.

Não muito longe das mais disputadas, tinha encontrado. Parecia esquecida em um canto, talvez não despertasse o interesse da maioria do público. Mas estava lá. Em cima de uma mesa, perto da entrada, em um vaso de barro, o que realmente lhe atraiu.


Uma orquídea. Os fios do meio da flor, amarelos, quase escondidos pela cor das folhas, tão escuras quantos seus olhos. Aproximou-se, pôde sentir o suave perfume emanado dela. Em meio aos apreciadores da aquarela composta pelas demais plantas, nunca entendeu completamente o porque daquela atração. Mas sentia, mesmo sem saber explicar, que buscava a delicadeza das pétalas escuras. 

PS.: originalmente publicado em

sábado, 3 de agosto de 2013

Bom Dia, Curitiba

1.
Há trajetos que podem ser percorridos tanto a pé quanto dentro de um ônibus, mas quando se tem compromisso pela manhã, uma locomoção motorizada ajuda – qualquer minuto economizado vale por dois. Sete da manhã, a cidade ainda acordando, eu esperava um ônibus no ponto, na Avenida Presidente Kennedy, a pé iria demorar mais para chegar ao terminal. Embarco em um verde, passo pela catraca, fiquei olhando as ruas, que passavam rapidamente diante de meus olhos, sem que eu pudesse me ater a detalhes.

As miudezas escaparam, mas algo que vi em um cruzamento entre uma rua marginal e a avenida pela qual o ônibus faz seu trajeto não. Um carro preto, perto de uma esquina onde fica uma loja de sapatos, estava com o farol direito quebrado, o capô levemente amassado; próximo a ele, um carro amarelo, faróis traseiros destruídos, foi o que pude notar, além de um tapete formado por cacos de vidro, visto por dois sujeitos, parados em uma divisória entre as faixas da via rápida, aparentemente os donos dos veículos. Antes que pudesse olhar com mais atenção para esta cena, o ônibus continuou seu caminho. Bom dia, Curitiba.

2.
Entrei em um biarticulado, meio de transporte típico daqui de Curitiba. Plenas sete e dez da manhã, os ônibus parecem latas de sardinhas humanas sobre rodas. As portas se fecharam após minha entrada, andei dois passos a frente, continuei esmagado, se a porta atrás de mim fosse aberta seria despejado. Mas demoraria bons 30 minutos para acontecer, podia aproveitar o trajeto confortavelmente apertado.

Eu estava com um livro em mãos, além de uma mochila pendurada no ombro direito, esta suspensa a minha frente, aquele fechado enquanto eu procurava um microscópico espaço. Prosseguia na leitura, a mão direita segurando o volume de crônicas, o braço esquerdo servindo de apoio em barras de suporte. Enquanto lia, notei que alguém me olhava.

Silenciosa, mas nitidamente, um bebê com o rosto posicionado para a frente do ônibus me observava. Repousava no colo de uma mulher jovem, de cabelos lisos castanhos, usando óculos de armação marrom, os olhos quase na mesma tonalidade do cabelo; o castanho dos olhos do bebê mais escuro que o da moça, um penteado improvisado com os poucos fios claros na cabeça. Ele estava empacotado em uma espécie de manta branca, apenas a gola de uma roupa de soft visível, ela usava um traje acastanhado.

Olhei nos olhos do bebê. E ele nos meus. Os olhos dele iam para todas as direções, desde as janelas as pessoas em volta. Será que a capa do livro que eu lia o agradou? Ele pareceu observá-la, não sei se a multidão vista da metade do corpo para baixo cruzando uma faixa de pedestres debaixo de um céu preto era do gosto dele. O olhei de novo. E ele a mim, uma leve piscada de olhos. Retribuí. A moça que o segurava o muda de posição, seu rosto ficou virado para as janelas, mantendo a feição de explorador visual. Bom dia, Curitiba.

3.
O ônibus no qual eu estava chegara ao ponto em que desembarco. Finalmente, livre para andar com as próprias pernas, sem precisar competir por espaço. Segui pela avenida sete de setembro, ainda tinha quadras a percorrer até chegar ao destino. Clima frio, ainda restava um pouco de neblina, que cobria o topo de alguns prédios no bloco a minha frente, apesar de um sol que parecia acordar preguiçosamente. Gente agasalhada nas calçadas, empacotados debaixo de jaquetas e sobretudos.


Exceto um. Pela canaleta exclusiva do ônibus, em sentido oposto ao qual eu andava, um senhor corria de bermudas e tênis, segurando uma blusa ou camiseta amassada em uma das mãos. A cidade ainda por despertar, uma maioria tremendo de frio, e alguém correndo como se fosse pleno verão? Notei que indivíduos próximos a mim olharam o homem, talvez querendo ter certeza de que viram o disposto atleta – ou imaginando de que lugar teria saído tal louco. Bom dia, Curitiba.  

domingo, 28 de julho de 2013

Diálogo Silencioso

E nos encontramos quase por acaso, que você tem feito? Já comecei aquele projeto, posso te mostrar? Você me diz que seus estudos vão mal, de novo, e consegue mais do que imagina, mas é para isso que servem, não? E aquele caso, terminou enfim? E sei lá mais o que nos perguntamos.

Fazem o que, duas, três semanas que nos vimos pela última vez? Mais do que isso, qual de nós perdeu as contas? E só nos eventos de sempre, a agenda está sempre cheia você diz, que ingenuidade minha perguntar. Ao menos nesses locais – mais do que as atividades que nos movem, valem pelas pessoas que encontramos.

Tenho caminhado bastante, você conta, só para passar o tempo, aproveitar um pouco essas folgas. Bons quinze quilômetros, a distância é mais ou menos essa, ida e volta, digo que é uma boa distância, você me diz que anda isso em duas ou três horas, dependendo do dia.

Te conto das minhas andanças, cada vez maiores e mais tempo fora de casa, as vezes voltando por uma rua diferente da qual fui. De súbito, a ideia, já que ambos caminhamos tanto, que tal companhia? Claro, porque não, tenho um dia livre semana que vem.

O dia chega. Te encontro no local combinado, achei que viesse de casa, já estava na rua faz tempo? Não muito, você responde, e me indica por quais ruas seguiremos.

Me lembro daqui. Já comprei um presente na loja ali do meio, tem um almoço perfeito naquele restaurante, quando passei aqui anos atrás nem tinha essa calçada, passei aqui várias vezes e nunca olhei o nome das ruas, reconheço um pouco a região. Você me responde frase ou outra, brevemente.

Começa a parte nova, ao menos para mim. Nos afastamos um pouco da região central, mas ainda estamos em solo urbano. Até demais – algumas quadras mal tem espaço para nós, temos que pular por cima de buracos destampados, poças com água da chuva do dia anterior, pedras e materiais de construção da reforma que ainda não acabou, disputando o pouco espaço com pedestres apressados, o conjunto todo quase transformando o passeio em uma corrida de obstáculos.

Vamos por baixo da trincheira, os carros passando velozmente tanto a nossa direita quanto na rua de cima. Não precisamos competir com eles, nossa trilha é composta por trechos irregulares e inacabados, mas servem bem a nossos pés. Esta trilha particular é nossa forma de conhecer a cidade, excessivamente percorrida pelas vias principais para se incomodar com dois aspirantes a exploradores.

Noto detalhes. Talvez pequenos, sutis, mas nada que incomode. Seu silêncio. Não lhe pergunto o porquê. Apenas tento perceber, sem me preocupar onde sua mente está. Te tiro um pouco desse estado perguntando porque caminha olhando o chão, ouço um só olho de resposta. E você retoma sua não expressão verbal.

Assim foi durante quase todo o tempo em que andamos. Colocamos o assunto em dia semana passada, você talvez queira me perguntar sobre algo e não o faz, costume de ter o silêncio por companhia? Não indago, evito falar, te resumi minha vida naquela outra conversa, as novidades são velhas conhecidas suas. Tenho ideia que começou a dar frutos, preciso avaliar tudo, aquele livro que você indicou é perfeito, a viagem está próxima, os problemas são os mesmos, mas deixe; não falemos disso. Não falemos.

Além do exercício físico, ou passatempo, ou puro gosto por bater perna por aí meio sem destino, é uma atividade preenchida por quietude. Não as poucas falas constrangedoras com desencontros verbais, nada de recolhimento em si porque o outro disparou a própria fúria pelo verbo, tampouco uma conversa forçada porque um dos interlocutores não sabe quando encerrar o assunto.

Apenas silêncio. Condição calma e espontânea, pouco dizendo tudo, uma compreensão moldada além das palavras.  Suavemente interrompida- você me indica o lugar aonde chegamos, e me diz para olhar na direção oposta. Andamos tudo isso. Um discreto sorriso lhe invade a face, dedicamos minutos a contemplar a paisagem desenhada pelas distâncias percorridas a pé.


Você me diz que devemos voltar, o almoço nos espera em casa e ainda há a tarde em frente. Retornamos ao trajeto, e, discretamente, ao nosso diálogo silencioso. 

PS.: originalmente publicado em http://diesvenit.blogspot.com.br/2013/06/dialogo-silencioso.html

Envelhecimento Fotográfico

Metade dos itens mudados de lugar, dois sacos de plástico cheios de lixo, algumas revistas e jornais velhos separados, livro esquecido em um canto do armário, CDs e filmes empilhados, além de chaveiros, enfeites, lembranças e cartas encaixotados, enfim, um mínimo de organização no quarto.  Mas ainda não tinha encontrado o que procurava.

Sem alternativa, o jeito foi me render ao quarto ‘dos fundos’ – aquele espaço na casa que não serve de dormitório há meses, mas está ocupado por uma bagunça de objetos indesejáveis sem data de saída.  Na base do que parece ser uma pilha de sacolas e caixas de eletrônicos, uma caixa na qual eu esperava que estivesse o que motivou a expedição em meio a tanta tralha.

Ela servia de depósito para uma coleção de fotos, do tempo da máquina fotográfica, quando não se podia cometer um mínimo erro que fosse – eram 36 ‘poses’, e olhe lá. Depois do décimo álbum que revirei, perdi as contas. Fotos soltas e negativos faziam companhia aos álbuns, um acervo guardado a parte, longe dos excessos do arquivo digital.

Imagens de 8, 10 anos atrás ou mais, alguns sustos ao olhar as datas anotadas no verso. Olhar fotos antigas é algo entre cômico e assustador. Nem eu lembrava que certo parente meu já teve cabelo, mas com certeza ele não me deixaria esquecer alguma besteira qualquer – menos ainda quem documentou a traquinagem em uma foto. Atividades do colégio, visitas de amigos em casa, viagens de família, não foram poucas as risadas nessa busca.

Alguns minutos de nostalgia depois, encontrei até mais do que imaginava. Peguei o telefone, avisei um (velho) amigo : “achei! Venha para cá.” Constantemente fui questionado sobre esses registros, que eu nunca achava por sei lá o que, e a cobrança se tornou quase tão antiga quanto a amizade. Ainda bem que as fotos estavam intactas.

As fotos. Quantos as pessoas nelas, não arrisco. “Olha sua cara de criança nessa foto, que é isso” ; “isso daqui é muito velho, foi antes de você ficar gordo”; “olha que besta a gente era nesse tempo”; “que cara andrógina nessa foto, credo”; “a gente tá ficando velho”. Envelhecemos alguns anos, ficaram esses registros visuais e as muitas lembranças. “Uma reunião dessas seria impossível hoje” me diz o amigo, com uma foto de uma festa de pelos menos cinco anos atrás em mãos. Tenho de concordar. Do grupo, cada um foi cuidar da própria vida em um canto diferente, todos cada vez mais ocupados – e constato isso a cada vez que consigo reencontrar alguém.

Somem-se os compromissos a presença da comunicação digital, parece que as conversas face a face tornaram-se mais raras. Ao oposto de papos sobre como mudou a vida daquele tempo até hoje (um ano atrás parece bastar), sem rendições a nostalgias, mas apenas por alguma saudade da companhia. Envelhecemos, ficamos ocupados, voltamos a trabalhar, nos dedicamos aos estudos, o que for – nos afastamos de alguns e conhecemos outros, renovando o ciclo.


Após conversar pela internet com pessoas que fisicamente estão longe, fico alguns instantes parado em frente ao computador. Vou a cozinha abastecer uma xícara com chá, olho de relance para o quarto de minha mãe, e noto que ela adormeceu. Com os olhos fechados e enrolada no cobertor, parece uma criança empacotada pronta para dormir, esperando que alguém apague a luz, desligue a televisão e lhe dê um beijo de boa noite. E eu e alguns amigos ainda nos espantamos e nos perguntamos o que é envelhecer.

Ps.: originalmente publicado em
 http://diesvenit.blogspot.com.br/2013/05/envelhecimento-fotografico.html