quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A Frieza do Pôr do Sol

Acordara. Sem companhia, recolhera-se na cama, e se dera ao luxo de cochilar após o almoço. Saiu debaixo das cobertas, espreguiçou-se, a meia hora que dormiu valera por duas inteiras. Foi até o banheiro, acendeu a luz, olhou-se no espelho, os cabelos desarrumados e as remelas nos olhos denunciavam a soneca.

Despertou após um banho quente. Além das roupas de costume, vestira uma blusa de lã e uma jaqueta; mesmo dentro do lar, sentia muito frio.

Apesar disto, apreciava-o. “Só você para gostar de uma cidade dessas, parece que nunca esquenta aí’, ouvira de um amigo que morava noutra cidade. O calor também lhe agradava, porém, sentia-se mais a vontade no que chamava de ‘charme congelado’. Respondia aos encalorados que o clima de onde residia era mais aconchegante e propício ao namoro.

Computador na mesa da sala, xícara com café ao lado do mouse pad, uma música acústica ligada. Tinha algumas pendências para resolver, livrou-se delas o mais rápido que pôde. Já tinha se dado ao luxo de dormir após o almoço, e resolveu se ‘presentear’ novamente; para tanto necessitava de uma tarde sem compromissos – e seria esta.

Agenda em branco, como desejava. Trancou a casa, saiu para cumprir o objetivo: uma extensa caminhada. Ruas com pouco movimento, quase despercebidas entre vias rápidas, eram o começo do trajeto, continuado por outras vias que lhe parecessem novas. Praças diminutas, entre a calçada que une uma rua sem saída a outra dentro do bairro; bancos de madeira com aparentes sinais de abandono, desde pichações a partes quebradas; arbustos e árvores servindo de escudo a moradias vistosas a distância, tanto pela localização quanto pelo porte; pontes improvisadas ligando margens de rios, estes contaminados e fedorentos devido a sujeira, aquelas frágeis e prestes a quebrar no primeiro descuido; poças de água da chuva do dia anterior, cercadas por calçadas incompletas dividindo espaço com pilhas de materiais de construção ou pedras soltas; não havia restrição de percurso.

Numa vez em que caminhara com um amigo, ouvira ‘parece que você prefere aonde não tem como andar’. Não se ofendia, toda ida-e-volta rendia. Especialmente nos dias frios, pois não suava nem se cansava.  Acostumara-se a todo tipo de terreno e companhia, ainda que esta fosse apenas o vento.

Não foram poucos os trabalhos realizados após breves passos pelo bairro, e teve quem brincasse que a andança era um energético. Talvez, embora não soubesse explicar como uma singela caminhada pudesse ajudar.


Decidira voltar por um caminho diferente, queria ver o céu mudar de tom por outro ângulo. Alguns raios de sol haviam clareado parcialmente a tarde, cuja pintura foi dominada por cores pálidas, e a esfera começava a sumir em algum ponto longínquo, tão discretamente quanto surgira. Retornando lentamente para casa, desconhecidos contornos urbanos lhe preencheriam os olhos, para outrora serem revisitados; e quem sabe, em uma próxima tarde, teria o privilégio de acompanhar, ainda que a distância, a frieza do por do sol.

PS.: a versão original foi publicada em