Acordara. Sem companhia, recolhera-se na
cama, e se dera ao luxo de cochilar após o almoço. Saiu debaixo das cobertas,
espreguiçou-se, a meia hora que dormiu valera por duas inteiras. Foi até o
banheiro, acendeu a luz, olhou-se no espelho, os cabelos desarrumados e as remelas
nos olhos denunciavam a soneca.
Despertou após um banho quente. Além das
roupas de costume, vestira uma blusa de lã e uma jaqueta; mesmo dentro do lar,
sentia muito frio.
Apesar disto, apreciava-o. “Só você para
gostar de uma cidade dessas, parece que nunca esquenta aí’, ouvira de um amigo
que morava noutra cidade. O calor também lhe agradava, porém, sentia-se mais a
vontade no que chamava de ‘charme congelado’. Respondia aos encalorados que o
clima de onde residia era mais aconchegante e propício ao namoro.
Computador na mesa da sala, xícara com café
ao lado do mouse pad, uma música acústica ligada. Tinha algumas pendências para
resolver, livrou-se delas o mais rápido que pôde. Já tinha se dado ao luxo de
dormir após o almoço, e resolveu se ‘presentear’ novamente; para tanto
necessitava de uma tarde sem compromissos – e seria esta.
Agenda em branco, como desejava. Trancou a
casa, saiu para cumprir o objetivo: uma extensa caminhada. Ruas com pouco
movimento, quase despercebidas entre vias rápidas, eram o começo do trajeto,
continuado por outras vias que lhe parecessem novas. Praças diminutas, entre a
calçada que une uma rua sem saída a outra dentro do bairro; bancos de madeira com
aparentes sinais de abandono, desde pichações a partes quebradas; arbustos e
árvores servindo de escudo a moradias vistosas a distância, tanto pela
localização quanto pelo porte; pontes improvisadas ligando margens de rios,
estes contaminados e fedorentos devido a sujeira, aquelas frágeis e prestes a
quebrar no primeiro descuido; poças de água da chuva do dia anterior, cercadas
por calçadas incompletas dividindo espaço com pilhas de materiais de construção
ou pedras soltas; não havia restrição de percurso.
Numa vez em que caminhara com um amigo, ouvira
‘parece que você prefere aonde não tem como andar’. Não se ofendia, toda
ida-e-volta rendia. Especialmente nos dias frios, pois não suava nem se
cansava. Acostumara-se a todo tipo de
terreno e companhia, ainda que esta fosse apenas o vento.
Não foram poucos os trabalhos realizados após
breves passos pelo bairro, e teve quem brincasse que a andança era um
energético. Talvez, embora não soubesse explicar como uma singela caminhada
pudesse ajudar.
Decidira voltar por um caminho diferente,
queria ver o céu mudar de tom por outro ângulo. Alguns raios de sol haviam
clareado parcialmente a tarde, cuja pintura foi dominada por cores pálidas, e a
esfera começava a sumir em algum ponto longínquo, tão discretamente quanto
surgira. Retornando lentamente para casa, desconhecidos contornos urbanos lhe
preencheriam os olhos, para outrora serem revisitados; e quem sabe, em uma
próxima tarde, teria o privilégio de acompanhar, ainda que a distância, a
frieza do por do sol.
PS.: a versão original foi publicada em