domingo, 11 de agosto de 2013

Estante Incompleta

Eu estava organizando a estante do meu quarto, tarefa parcialmente ingrata. Não importa que critério eu use para dispor os itens, nem quantas vezes eu os mude de lugar, nunca me contento com essa bagunça.

Mas vejo um pequeno benefício nessa neurose. Minhas lembranças ficam mais nítidas na medida em que pouso meus olhos sobre o que encontro.

Aquela orquestra magnífica, a programação ainda está comigo. Folder de show que fui, onde encontrei amigos que não via há tempo. Uma propaganda sobre a peça de teatro que um antigo parceiro de banda me convidou, será que ele ainda atua? O ingresso do grupo de dança folclórica do qual uma amiga faz parte, daqui algumas semanas tem nova apresentação.

É fácil cuidar de papéis, uma caixa e pronto. Não que a estante fique mais apresentável sem eles, pois ainda tem uma porção de livros para guardar. Seis de um autor, dez de outro, ambos lidos desde a época do cursinho; cinco que foram presentes de aniversário, aquele me foi indicado por um amigo; e no mínimo metade da coleção originou-se em sebos, em reavaliações de materiais a serem mantidos ou trocados.

É um acervo amorfo e eternamente incompleto. Alguns amigos se espantam ao vê-lo, e dizem que tenho bastante. Bastante ignorância. Não importa quanto eu adquira ou empreste, minha biblioteca particular é marcada pelos buracos. Uma matéria no jornal literário da cidade, tal título parece interessante, além da menção ao autor cuja obra  acompanho. Uma revista conduziu uma entrevista fantástica com artista ou político, e quem sabe um exemplar desta edição more por aqui.

Além do ‘quanta coisa’, também ouvi que sou culto ou inteligente. Breve engano. O elogio é sincero, apesar de eu não gostar desses termos.  Nos contatos presenciais com pessoas das áreas ditas ‘culturais’ que mais me interessam, não é preciso esforço algum para topar com quem as estude e pratique por um tempo igual a minha idade ou mais; e ninguém se descreve com essas palavras. As pessoas apenas conversam.

Porém, apesar deste saudável acúmulo de conhecimento, uma questão persiste. O que eu faço com isso? Sério, o que eu faço com essa cultura toda, ainda que pouca, incompleta e disforme?

É para ficar mais inteligente, diriam alguns? Para quebrar preconceitos?
Independente dos argumentos que me apresentem, a única certeza possível me parece o reconhecimento do próprio não-saber. Para cada explicação, uma dúvida nova, acompanhada da vivência de quem a expressa – e lá se vai outro oceano de particularidades.

Lembro-me de duas colunas nas quais o jornalista Daniel Piza argumentou sobre o tema.  Na primeira, ele citou dois exemplos de utilidade da cultura na vida cotidiana.

“Uma foi de um agrônomo que conheci em minha viagem pelo cerrado, [...], que comentou as dificuldades de convencer os produtores a adotarem métodos mais modernos e, citando os que dão atenção aos padres que acham que genética é obra do demo, resumiu: ‘Quando o sujeito não tem cultura, assimila a primeira informação’. A outra foi do Lopes, o profissional que corta meu cabelo e que me contou dos problemas que surgem quando um talento da tesoura começa a despontar, decide abrir seu próprio negócio, ganha muito dinheiro e, ‘como não tem cultura’, se deslumbra com o sucesso, perdendo-se em drogas e dívidas”.

Na segunda, após argumentar sobre a utilidade indireta da cultura
(“intensificar a percepção, ampliar sua capacidade de associar e antecipar”), ele afirmou, altruisticamente, que ela pode fazer de um indivíduo melhor ser humano, “menos orgulhoso e mais seguro, menos complacente e mais compreensivo, menos crédulo e mais produtivo, menos passivo e mais alerta”.

Será?
Talvez, após uma década ou mais reorganizando minha estante, eu me satisfaça pelo menos com a disposição dos sinais físicos de algum acúmulo de cultura.  E descubra outros acréscimos necessários para faxinas vindouras.


Nota: As colunas citadas são, respectivamente, Contra o Elogio da Ignorância, de 2/12/2001, e Utilidades da Cultura, de 6/8/1999. Ambas estão na coletânea Contemporâneo de Mim, publicada pela Bertrand Brasil em 2007. 

PS.: este texto foi originalmente publicado com o título "Organizando a Estante", e foi levemente editado .