Eu estava organizando a estante do meu quarto,
tarefa parcialmente ingrata. Não importa que critério eu use para dispor os
itens, nem quantas vezes eu os mude de lugar, nunca me contento com essa
bagunça.
Mas vejo um pequeno benefício nessa neurose. Minhas
lembranças ficam mais nítidas na medida em que pouso meus olhos sobre o que
encontro.
Aquela orquestra magnífica, a programação
ainda está comigo. Folder de show que fui, onde encontrei amigos que não via há
tempo. Uma propaganda sobre a peça de teatro que um antigo parceiro de banda me
convidou, será que ele ainda atua? O ingresso do grupo de dança folclórica do
qual uma amiga faz parte, daqui algumas semanas tem nova apresentação.
É fácil cuidar de papéis, uma caixa e pronto.
Não que a estante fique mais apresentável sem eles, pois ainda tem uma porção
de livros para guardar. Seis de um autor, dez de outro, ambos lidos desde a
época do cursinho; cinco que foram presentes de aniversário, aquele me foi
indicado por um amigo; e no mínimo metade da coleção originou-se em sebos, em
reavaliações de materiais a serem mantidos ou trocados.
É um acervo amorfo e eternamente incompleto. Alguns
amigos se espantam ao vê-lo, e dizem que tenho bastante. Bastante ignorância.
Não importa quanto eu adquira ou empreste, minha biblioteca particular é
marcada pelos buracos. Uma matéria no jornal literário da cidade, tal título
parece interessante, além da menção ao autor cuja obra acompanho. Uma revista conduziu uma entrevista
fantástica com artista ou político, e quem sabe um exemplar desta edição more
por aqui.
Além do ‘quanta coisa’, também ouvi que sou
culto ou inteligente. Breve engano. O elogio é sincero, apesar de eu não gostar
desses termos. Nos contatos presenciais
com pessoas das áreas ditas ‘culturais’ que mais me interessam, não é preciso
esforço algum para topar com quem as estude e pratique por um tempo igual a
minha idade ou mais; e ninguém se descreve com essas palavras. As pessoas apenas
conversam.
Porém, apesar deste saudável acúmulo de
conhecimento, uma questão persiste. O que eu faço com isso? Sério, o que eu
faço com essa cultura toda, ainda que pouca, incompleta e disforme?
É para ficar mais inteligente, diriam alguns?
Para quebrar preconceitos?
Independente dos argumentos que me
apresentem, a única certeza possível me parece o reconhecimento do próprio
não-saber. Para cada explicação, uma dúvida nova, acompanhada da vivência de
quem a expressa – e lá se vai outro oceano de particularidades.
Lembro-me de duas colunas nas quais o
jornalista Daniel Piza argumentou sobre o tema.
Na primeira, ele citou dois exemplos de utilidade da cultura na vida
cotidiana.
“Uma foi de um agrônomo que conheci em minha
viagem pelo cerrado, [...], que comentou as dificuldades de convencer os
produtores a adotarem métodos mais modernos e, citando os que dão atenção aos
padres que acham que genética é obra do demo, resumiu: ‘Quando o sujeito não
tem cultura, assimila a primeira informação’. A outra foi do Lopes, o
profissional que corta meu cabelo e que me contou dos problemas que surgem
quando um talento da tesoura começa a despontar, decide abrir seu próprio negócio,
ganha muito dinheiro e, ‘como não tem cultura’, se deslumbra com o sucesso,
perdendo-se em drogas e dívidas”.
Na segunda, após argumentar sobre a utilidade
indireta da cultura
(“intensificar a percepção, ampliar sua
capacidade de associar e antecipar”), ele afirmou, altruisticamente, que ela
pode fazer de um indivíduo melhor ser humano, “menos orgulhoso e mais seguro,
menos complacente e mais compreensivo, menos crédulo e mais produtivo, menos
passivo e mais alerta”.
Será?
Talvez, após uma década ou mais reorganizando
minha estante, eu me satisfaça pelo menos com a disposição dos sinais físicos
de algum acúmulo de cultura. E descubra
outros acréscimos necessários para faxinas vindouras.
Nota: As colunas citadas são, respectivamente, Contra o Elogio da Ignorância, de
2/12/2001, e Utilidades da Cultura,
de 6/8/1999. Ambas estão na coletânea Contemporâneo
de Mim, publicada pela Bertrand Brasil em 2007.
PS.: este texto foi originalmente publicado com o título "Organizando a Estante", e foi levemente editado .