terça-feira, 29 de outubro de 2013

Análise Desacelerada – Caetano Galindo e Benito Rodriguez na FLIM 2013

Quinta-feira, 24 de outubro de 2013, quarto dia da FLIM, Festa Literária do Medianeira. Iniciando a bate-papo da tarde, o mediador Gustavo Pinheiro comenta sobre a cultura oral do Brasil, em especial a do nordeste, e sua possível associação noutras expressões. As riquezas da oralidade nem sempre estão longe do mundo da escrita, argumenta Benito Rodriguez, depende de como essa linguagem é usada, ele exemplifica que a poesia absorveu alguns elementos da palavra falada.

Uma cultura falada que não é abafada por letramento, de acordo com Caetano Galindo, outro convidado desta sessão. Inclusive, uma provê ferramentas a outra, e ele diz não ver relação entre presença da cultura oral e baixo letramento em determinadas regiões do país; e ressalta que não se deve demonizar uma expressão em detrimento de outra.

E quanto aos discursos do homem sobre si mesmo, além da leitura nos cursos específicos de humanas?,  questiona Gustavo Pinheiro. O texto considerado acadêmico é associado a obrigações, sendo renegado a segundo plano, mas os leitores de ficção são muitos , afirma Caetano Galindo. Ele considera a literatura um estudo do ser humano, como se fossemos forçados a enxergar a espécie doutras formas durante a leitura; pois qualquer universo profissional é limitador, caso seja o único direcionamento de um indivíduo – por isso Galindo diz que as pessoas mais interessantes que conhece são aquelas que vão além de suas profissões. A isso, Benito Rodriguez acrescenta o poder da literatura em proporcionar se por na perspectiva de outro, ainda que por breves instantes.

O mediador indaga sobre os novos espaços do texto, com a transição entre publicações impressas e virtuais. Houve uma mudança no modo de se relacionar com a leitura, afirma Benito Rodriguez, mas ele não vê problemas nos novos suportes. Não se trata de ver toda novidade como algo rápido e necessariamente melhor, como se todas as ferramentas anteriores devessem ser descartadas, mas o texto literário solicita tempo e concentração especiais, algo chamado por Benito de desaceleração. Uma vantagem, ele diz, que nos permite estabelecer um contraponto ao mundo excessivamente acelerado.


Antigamente, ao encomendar um livro importado, a entrega demorava semanas, mas hoje 15 segundos após baixar um e-book por Ipads ou celulares a leitura pode começar, conta Caetano Galindo, embora isso não signifique sossego para o ato – ele exemplifica que mensagens de celular não deixam ninguém em paz para tanto. Quanto a desaceleração mencionada por Rodriguez, ele compara a leitura a uma atividade subversiva e até cruel em relação ao que a sociedade espera, como se o ato demandasse uma quantia de tempo que esta preferisse empregar em mero entretenimento. Basicamente, cavar um buraco para ler sem pressa.

domingo, 27 de outubro de 2013

Entre desenhos e conceitos – Ademir Paixão e Pryscilla Vieira na Flim 2013

Manhã de quinta-feira, 24 de outubro de 2013. Após um bate-papo entre os jornalistas José Carlos Fernandes e Mariana Sanchez, o salão nobre do Colégio Medianeira foi palco para uma conversa entre dois profissionais desenhistas, no quarto dia da Flim, Festa Literária do Medianeira.

Ana Paula Luz, professora do colégio e mediadora desta sessão, pergunta aos convidados como começou a paixão pela atividade. O primeiro convite para aplicar seus traços profissionalmente foi em 1997, mas desde criança desenhava, conta Pryscilla Vieira, que trocava desenhos por lanches nos recreios. Quanto a Ademir Paixão, chargista da Gazeta do Povo há 27 anos, desenhava em Japira, cidade interiorana do Paraná onde morou enquanto menor,  gravuras encomendadas para fazendas e uma via crucis pintada em parede de igreja entre seus trabalhos iniciais.

A mediadora questiona quais as diferenças entre tiras, charges e demais formatos, ao que Paixão responde que a charge tem vida própria, vinculada ao noticiário, retratando algum aspecto deste, frequentemente com ironia e humor. Pryscilla comenta que a tirinha tem um tom mais leve e atemporal, sem ligação com o cotidiano.

Ana Paula Luz conta que encontrou desenhos atrás das provas dos alunos, apesar de atualmente os celulares e Ipads servirem como prancheta, e pergunta para os convidados como é a rotina de desenho deles. Vieira rascunha bastante no Ipad, e conta ter notado o que considera analfabetismo visual, por se lerem cada vez menos as imagens e nem sempre se interpretarem as reais intenções do desenhista com sua obra. Paixão compara desenhar a cozinhar, a evolução vem com a prática, e comenta sobre a presença do design em tudo, desde charges a uma singela cadeira – houve um processo de desenho nela.

É possível viver desenhando, em um sentido profissional? , pergunta Ana Luz. Rica a pessoa não se tornará, responde Ademir Paixão, mas isso depende do quanto se quer ganhar. Há uma porção de investimentos e pesquisas a serem feitos, permitindo não apenas o aprimoramento do traço mas também a criação de um estilo próprio – mas leva tempo. Pryscilla complementa, conta de uma visita que fez ao prédio de Maurício de Sousa, considerado um Walt Disney brasileiro, tamanho se tornou o império, nas palavras dela, construído por ele ao longo dos anos.

Vieira conta de sua personagem Ameli, uma boneca inflável com dois defeitos de fábrica: ela pensa e fala. Esta cria nasceu de uma vazão sentimental da desenhista, próximo ao natal de 2005, mas após divulgação cresceu e passou a ter espaços próprios, e a boneca antes comprada por um preço ‘módico’ tornou-se trabalho conhecido de Vieira, por meio do qual se põe contra a objetificação da mulher.


Questionado por Ana Luz, Ademir Paixão utiliza conceitos e preconceitos incutidos na sociedade ao desenhar, a exemplo de sátiras com a classe política, pois há uma noção amplamente difundida de desonestidade desta, ao contrário da política praticada 2500 anos antes, Paixão conta, onde o pertencente a esta categoria era quem ajudava a comunidade.