quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Retratando Marcas – Daniel Zanella e André Tezza na Flim 2013

A literatura absorve e organiza conflitos, fala Rosana Machado, mediadora de um debate entre André Tezza e Daniel Zanella, no quinto dia da Flim 2013 – Festa Literária do Medianeira. Mas que marcas são essas? , ela indaga.

Professor de Literatura na Vila Verde para adolescentes de 13-14 anos, Daniel Zanella busca inserir temas do cotidiano dos estudantes no universo literário, mapeando o que eles consideram cultura, de forma a integrá-los na leitura. Tarefa longe de ser fácil, comenta ele, pois os alunos encaminhados ao programa vêm de ambientes onde não há incentivo a prática da leitura e, em geral, marcados por violência.

A publicidade é efêmera e no dia seguinte ninguém se lembra do jingle ouvido, argumenta André Tezza, professor desta face da comunicação. Apesar desta suposta brevidade, os trabalhos do ramo expõem marcas de nossa época, no intuito de deixar visível o que não é, por vezes emprestando recursos humorísticos, cada vez mais frequentes, comenta André.

Rosana Machado lê um trecho de Dia do Degelo, crônica de Daniel Zanella, e indaga-o se nesta forma de escrita o autor é personagem. Há alguma dificuldade em separar tanto autor de personagem como o real do inventado, ele responde, devido ao impacto do texto nas pessoas próximas. Quase como nos tempos de colégio, nos quais Zanella escrevia cartas para as meninas de que gostava e apanhou do irmão de algumas; após tornar-se cronista, ao escrever sobre gente de convívio frequente e mostrar os textos, teve quem não gostou de ser ler retratado.


Respondendo a mediadora sobre a relação que estabelece com personagens e contos, André Tezza diz que depende do livro, durante a leitura ele descobre se o personagem tem a ver consigo.  Pode existir algum distanciamento ao ler a história, mas nem sempre durante a escrita, pois há indivíduos representados nas próprios personagens. 

Solidão Povoada – Paulo Venturelli na FLIM 2013

Na tarde de sexta-feira, 25 de outubro de 2013, a FLIM, Festa Literária do Medianeira, foi palco de um bate-papo com o escritor Paulo Venturelli. A mediadora desta sessão foi a também professora Ana Tezza, que indagou ao convidado como ocorre a relação entre literatura e vida, considerando leitura e escrita atos solitários.

É uma solidão povoada por todos que admiramos, de amigos antigos a novos, responde o professor. Mesmo sozinho, se tem em mente leitores a serem contagiados pela história narrada no livro, cujo sentido vem deles. Seu livro Anjo Rouco pode ser qualquer coisa, depende da leitura de cada um, ele afirma, ato dependente da interpretação feita a partir das entrelinhas do texto, dividindo a autoria deste com quem lê; afinal, um bom livro é aquele que deixa mais dúvidas do que certezas, afirma Venturelli, para quem a literatura é uma arte provocativa.

Ana Tezza pergunta-o como foi a trajetória até ele se tornar escritor. Ele conta que quando estava aproximadamente na idade do público – grande maioria composta por turmas do sexto ano, de 12-13 anos –, ouviu de seus professores que quem quisesse ser inteligente deveria ler. Em retrospectiva, Venturelli conta que era tímido, falava pouco com os colegas de classe; mas após ter começado a ler, passou a escrever melhor, e os professores começaram a notar e elogia-lo na frente da turma, e no recreio eram os alunos que iam pergunta-lo como que ele conseguia escrever tão bem, e pediam-no dicas disso. Gradativamente, de aluno que copiava trechos dos livros passou a escritor, e posteriormente a estudante na Faculdade de Letras.

Findadas as perguntas da professora Tezza, o microfone foi passado para os alunos. Segurando cadernos de aula com anotações, o primeiro estudante indagou como a história do livro Anjo Rouco pode ajudar no entendimento do mundo. Venturelli diz que não sabe exatamente, mas há uma possível compreensão do diferente na humanização do animal estranho que é o protagonista e nome do livro em questão, como se víssemos o outro do outro.


Quando começa uma história, já sabe o final dela? – questiona outro estudante. As vezes sim, responde o escritor, mas há livros sem final definido; em resposta a outra pergunta, escreve mais de um livro simultaneamente, tendo ideias para um próximo antes que a obra na qual trabalhe esteja finalizada.