quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Solidão Povoada – Paulo Venturelli na FLIM 2013

Na tarde de sexta-feira, 25 de outubro de 2013, a FLIM, Festa Literária do Medianeira, foi palco de um bate-papo com o escritor Paulo Venturelli. A mediadora desta sessão foi a também professora Ana Tezza, que indagou ao convidado como ocorre a relação entre literatura e vida, considerando leitura e escrita atos solitários.

É uma solidão povoada por todos que admiramos, de amigos antigos a novos, responde o professor. Mesmo sozinho, se tem em mente leitores a serem contagiados pela história narrada no livro, cujo sentido vem deles. Seu livro Anjo Rouco pode ser qualquer coisa, depende da leitura de cada um, ele afirma, ato dependente da interpretação feita a partir das entrelinhas do texto, dividindo a autoria deste com quem lê; afinal, um bom livro é aquele que deixa mais dúvidas do que certezas, afirma Venturelli, para quem a literatura é uma arte provocativa.

Ana Tezza pergunta-o como foi a trajetória até ele se tornar escritor. Ele conta que quando estava aproximadamente na idade do público – grande maioria composta por turmas do sexto ano, de 12-13 anos –, ouviu de seus professores que quem quisesse ser inteligente deveria ler. Em retrospectiva, Venturelli conta que era tímido, falava pouco com os colegas de classe; mas após ter começado a ler, passou a escrever melhor, e os professores começaram a notar e elogia-lo na frente da turma, e no recreio eram os alunos que iam pergunta-lo como que ele conseguia escrever tão bem, e pediam-no dicas disso. Gradativamente, de aluno que copiava trechos dos livros passou a escritor, e posteriormente a estudante na Faculdade de Letras.

Findadas as perguntas da professora Tezza, o microfone foi passado para os alunos. Segurando cadernos de aula com anotações, o primeiro estudante indagou como a história do livro Anjo Rouco pode ajudar no entendimento do mundo. Venturelli diz que não sabe exatamente, mas há uma possível compreensão do diferente na humanização do animal estranho que é o protagonista e nome do livro em questão, como se víssemos o outro do outro.


Quando começa uma história, já sabe o final dela? – questiona outro estudante. As vezes sim, responde o escritor, mas há livros sem final definido; em resposta a outra pergunta, escreve mais de um livro simultaneamente, tendo ideias para um próximo antes que a obra na qual trabalhe esteja finalizada. 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Análise Desacelerada – Caetano Galindo e Benito Rodriguez na FLIM 2013

Quinta-feira, 24 de outubro de 2013, quarto dia da FLIM, Festa Literária do Medianeira. Iniciando a bate-papo da tarde, o mediador Gustavo Pinheiro comenta sobre a cultura oral do Brasil, em especial a do nordeste, e sua possível associação noutras expressões. As riquezas da oralidade nem sempre estão longe do mundo da escrita, argumenta Benito Rodriguez, depende de como essa linguagem é usada, ele exemplifica que a poesia absorveu alguns elementos da palavra falada.

Uma cultura falada que não é abafada por letramento, de acordo com Caetano Galindo, outro convidado desta sessão. Inclusive, uma provê ferramentas a outra, e ele diz não ver relação entre presença da cultura oral e baixo letramento em determinadas regiões do país; e ressalta que não se deve demonizar uma expressão em detrimento de outra.

E quanto aos discursos do homem sobre si mesmo, além da leitura nos cursos específicos de humanas?,  questiona Gustavo Pinheiro. O texto considerado acadêmico é associado a obrigações, sendo renegado a segundo plano, mas os leitores de ficção são muitos , afirma Caetano Galindo. Ele considera a literatura um estudo do ser humano, como se fossemos forçados a enxergar a espécie doutras formas durante a leitura; pois qualquer universo profissional é limitador, caso seja o único direcionamento de um indivíduo – por isso Galindo diz que as pessoas mais interessantes que conhece são aquelas que vão além de suas profissões. A isso, Benito Rodriguez acrescenta o poder da literatura em proporcionar se por na perspectiva de outro, ainda que por breves instantes.

O mediador indaga sobre os novos espaços do texto, com a transição entre publicações impressas e virtuais. Houve uma mudança no modo de se relacionar com a leitura, afirma Benito Rodriguez, mas ele não vê problemas nos novos suportes. Não se trata de ver toda novidade como algo rápido e necessariamente melhor, como se todas as ferramentas anteriores devessem ser descartadas, mas o texto literário solicita tempo e concentração especiais, algo chamado por Benito de desaceleração. Uma vantagem, ele diz, que nos permite estabelecer um contraponto ao mundo excessivamente acelerado.


Antigamente, ao encomendar um livro importado, a entrega demorava semanas, mas hoje 15 segundos após baixar um e-book por Ipads ou celulares a leitura pode começar, conta Caetano Galindo, embora isso não signifique sossego para o ato – ele exemplifica que mensagens de celular não deixam ninguém em paz para tanto. Quanto a desaceleração mencionada por Rodriguez, ele compara a leitura a uma atividade subversiva e até cruel em relação ao que a sociedade espera, como se o ato demandasse uma quantia de tempo que esta preferisse empregar em mero entretenimento. Basicamente, cavar um buraco para ler sem pressa.