sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Decifrando Pessoas – Eliane Brum na FLIM 2013

A arte de perder não é um mistério - assim escreveu Elizabeth Bishop em um de seus poemas, recitado por José Carlos Fernandes na abertura palestra de quarta-feira, 23 de outubro de 2013, no terceiro dia da FLIM – Festa Literária do Medianeira. Perante uma tenda lotada por um público misto de professores, jornalistas, alunos do Colégio Medianeira, estudantes de jornalismo – classe profissional a qual tanto Fernandes quanto a convidada pertencem – e outros visitantes, a escutadeira, como Elaine Brum se define, conta uma história na qual responde ao mediador porque saiu da Revista Época.

Em 2008, Brum conta, ela começou a trabalhar com a morte. Durante uma reportagem, acompanhou os últimos 115 dias de uma mulher, de nome Ilse, cujo falecimento se deu por um câncer. Durante estes dias, falava com Ilse diariamente, por telefone ou face a face, e em meio a uma dessas conversas ouviu dela que ‘quando tinha tempo, descobri que meu tempo tinha acabado’. A partir deste trabalho em particular, Brum passou a se dedicar no que considera reapropriação do tempo, uma construção constante, pois como ela ouviu de um de seus professores, tempo não é dinheiro, e sim o tecido das nossas vidas.

Em meio a esta reapropriação do próprio tempo, em 2010 Eliane Brum deixa o emprego na redação da Época, mantendo apenas sua coluna no site da revista, um espaço utilizado por ela até setembro de 2013, quando se desapropriou deste espaço virtual. Uma segunda parte deste processo foi criar uma segunda voz na ficção, especificamente o romance Uma Duas, lançado em 2011. Eliane conta que foi questionada diversas vezes por colegas de profissão ‘qual é o seu rumo agora?’, ao que ela responde que está em desrumo, uma necessidade de se desinventar para se reinventar.

José Carlos Fernandes retoma, conta alguns acontecimentos da Eliane Brum, que ficou surpresa pela pesquisa do mediador – um livro aos 11 anos, maternidade aos 15, a escrita do livro Vida que Ninguém Vê, e indaga-a qual foi a grande ‘dobra’ de sua vida. Todas e mais algumas, ela responde, contando que não estaria viva se não conseguisse transformar dor em palavra escrita, algo que fez no Gotas da Infância. O livro – muito ruim, diz Brum - era uma coleção de pedaços de papel nos quais Eliane escreveu sobre essa nomeada dor de existir, sentida durante sua infância, deixados pela casa como pistas para que a família a decifrasse; mas o pai não somente os guardou como os transformou no mencionado livro, um retrato de sua infância, lugar de difícil vivência para algumas crianças, de acordo com ela.

O mediador retoma e menciona uma pergunta feita pelo jornalista Gilberto Dilmenstein a várias personalidades, que é feita a palestrante – a quem você deve ser quem você é? A muita gente, responde Eliane Brum, e brincando diz ser igual ao pai - conta uma história iniciada anos antes do momento atual para responder algo.  Mas conta de outra pessoa a quem deve seu desenvolvimento, uma que ela não pôde conhecer.

No século XIX, o estanceiro Sabino Andrade Neves, de abastada família do Rio Grande do Sul, apaixonou-se por uma escrava. Enamorados, tiveram uma filha, e Sabino assumiu tanto mãe como criança. A mãe faleceu após o nascimento desta, e o estanceiro teve de cria-la sozinho, pois fora deserdado pela família. Sabino tinha estudo o suficiente para lecionar, uma profissão que sua filha, batizada Luzia, herdou, e pai e filha peregrinaram pelos interiores do Rio Grande do Sul vivendo como professores. Entre os alunos de Luzia, estava o pai de Eliane Brum, que foi a primeira pessoa da família a aprender a ler. Enquanto morava em Ijuí, cidade natal, Brum foi levada pelo pai ao túmulo da professora Luzia, responsável não apenas por ensinar a leitura, mas por tirá-los de uma cegueira das letras, considerando a leitura um ato de enxergar o mundo.

Visão composta por uma delicadeza aprendida em família, aspecto habitante do mundo. Brum conta que criou sentido ao decifrar como cada um dá sentido a própria vida, muitas vezes como poucos recursos. Toda história é grande para a escutadeira, como se intitula, ‘buscadeira’ de sentidos próprios nos olhares alheios.

Sentidos que vem de desacontecimentos, responde Eliane a José Carlos Fernandes. Ela considera o jornalismo como documento da história cotidiana, retratada em muitas de suas crônicas, cujas pessoas entrevistadas estão longe de padrões de manchetes de jornal. Afirma que nenhuma vida se torna banal quando se reconhece a grandeza alheia, no que chama a extraordinária vida comum.


No jornalismo, tornou-se comum chamar pessoas entrevistadas de personagens, independente de sua natureza, e Fernandes questiona Brum qual relação ela tem com as personagens das matérias. Ela diz que quando um repórter reduz uma pessoa a uma personagem ele está sendo traidor, pois personagem é da ficção, como se fosse pessoa ‘pronta’, enquanto ela vê o jornalismo como decifração do outro. Em resposta direta, Eliane conta ter relações fortes com tais pessoas, procura fazer um processo interno antes de entrevista-las – pergunta-se se fosse ela sendo entrevistada, permitiria que alguém a indagasse sobre suas atividades e anseios. Tudo isso porque, como afirma, a gente não entra na vida dos outros impunemente.