Escritores são herdeiros dos narradores, de
acordo com Cecília Meireles. A frase é citada por Ilan Brenman, na primeira
palestra da Flim 2013 – Festa Literária do Medianeira, em uma chuvosa noite de
segunda-feira, 21 de outubro. A mencionada frase de Meireles, Brenman adiciona
que vivemos e morremos por causa das histórias, algo explicado por meio de uma
que ele conta.
Em um reino muito distante, havia um rei
muito poderoso, apaixonado por sua rainha. Porém, um dia ela adoeceu, emagreceu
muito, e o rei pediu auxílio aos melhores médicos do reino. Porém, em vão – a
rainha continuava doente, magra e triste. Em busca de socorro, o rei andou por
todos os cantos, e nenhum remédio parecia bastar. Até encontrar um camponês,
que o apresentou a sua esposa – sorridente,
saudável e em forma. ‘Mas o que o senhor dá a sua esposa, que ela está
tão bem?’ perguntou o rei, e ouviu do camponês que este a alimentava com carne
de língua. O rei deu-se por satisfeito com a resposta, voltou ao seu castelo e
instruiu ao cozinheiro que preparasse tal prato.
Ilan Brenman continua com a história –seu
cozinheiro preparou a tal ‘carne de língua’ com o que tinha- língua de cobra,
sapo, qualquer animal que fosse; mas, mesmo com ingerindo essa refeição, a
rainha não melhorou. E o rei afligia-se, se perguntava porque o tal ‘remédio’
funcionou tão bem com a esposa do camponês, mas não com sua amada rainha. Foi
conversar com o camponês, contou-lhe que serviu carne de língua a rainha mas
ela não melhorava, e os dois homens trocaram de lugar por alguns dias – o rei
foi cuidar da esposa do camponês, enquanto aquele foi cuidar da rainha. Ao
desfazer a ‘troca’, o rei notou que a rainha estava bem, tinha voltado a forma,
sorridente, ao que a esposa do camponês adoeceu. Este perguntou o que houve, e
o rei contou que serviu a tal carne de língua a esposa do camponês da mesma
forma que a rainha, e o camponês explicou o que realmente significava tal
expressão. Não era de comer ou beber, ou algo físico, e sim contar histórias para
a pessoa. Aí o rei suspendeu o prato que pediu a seu cozinheiro, a passou a
contar histórias para sal rainha.
Após terminar de contar esta história, Brenman
comenta dos vários tipos de ‘carne’ do que nomeou açougue da vida, há desde
carne fina de primeira qualidade a comida de quinta. E adverte - se nos
alimentamos apenas de histórias ‘fast-food’, viramos zumbis.
Mas ilustrar um raciocínio por meio do conto
parece não ser o suficiente. Por que inventar histórias se podemos falar? Ilan
questiona a plateia, uma multidão de pais, mães, professores, crianças e
visitantes que lotou o salão nobre do Colégio Medianeira. A primeira resposta
veio de uma criança na segunda fila, próxima ao palestrante: para deixar a vida
interessante. Outras respostas, de adultos, vieram de carona – pelo
conhecimento, criatividade.
O homem não suporta a angústia de não
compreender o mundo, e as histórias eram criadas para explica-lo, conta
Brenman. No contato com estas ferramentas de compreensão chamadas histórias e
linguagens, podemos entender a história da natureza humana, e perceber que não
houve mudança nela, diz o palestrante, que considera a espécie como a mesma de
sempre.
Parte da herança dos escritores, legado dos
narradores, conforme a citação no início desta palestra, pode ser explicada por
outro ato falado por Ilan: nomear. Usando uma frase do psicanalista francês
Jacques Lacan, argumenta que quando não se nomeiam sentimentos, eles nos
devoram; enquanto o ato de nomear é mais do que mera definição, é uma proteção.
Ao contrário do chamado politicamente correto
de não mostrar realidades as crianças e disfarçar temas com palavras suaves, como
se falar de violência fosse incentivar um comportamento violento na criança - um
pensamento que Ilan comenta ser ultrapassado nas áreas educacionais
estrangeiras, mas ainda corrente no Brasil.
A criança é dona de um mundo interior rico e
complexo, argumenta Ilan Brenman. Um universo a ser explorado com cuidado e
sensibilidade, nomeando experiências e sensações, evitando ou possivelmente
reduzindo a angústia da incompreensão, especialmente ao considerar que as
viagens das crianças (por meio de leituras ou não) não são as mesmas de pais e
mães. E assim se toma posse da herança deixada por narradores e escritores.