Manhã de terça-feira, 22 de outubro de 2013,
segundo dia da Festa Literária do Medianeira – FLIM. Dentro da tenda montada
próxima a cancha esportiva, algumas pessoas escolhiam seus lugares tranquilamente,
os convidados deste bate-papo se encaminhavam para o palco, não sem antes serem
avisados para ‘se prepararem’. Em um breve momento começa a sessão, e eis que
dezenas de alunos, na faixa etária de 13-14 anos, entram na tenda e lotam-na
com suas elétricas presenças.
Ricado Pozzo, mediador, pergunta aos dois
convidados sobre o ‘assunto do momento’, a biografia, considerando que na
semana anterior a esta sessão houve polêmica devido a família do falecido poeta
curitibano Paulo Leminski não ter autorizado a publicação de uma biografia deste
escrita por Domingos Pellegrini – fato mencionado pelo mediador. Daniel Zanella
responde que a imagem de uma pessoa pública pertence a coletividade, como se a
vida da pessoa, no caso, Leminski, não pertencesse mais a família dela, embora
ela procure velar os mortos a própria maneira. Zanella considera tal
impedimento é um ranço da ditadura, devido a este cerceamento de informação.
Impedir a publicação de uma biografia é
censurar uma história, e este ato é o mesmo de censurar uma reportagem que
expõe riscos de uma decisão política equivocada, responde Luiz Andrioli, outro
convidado desta mesa. Ele conta do processo e escrita do livro O Circo e a
Cidade, sobre a trajetória da família circense Queirolo em Curitiba. Conheceu
membros desta família através da própria, e após longa pesquisa começou a
escrever o livro, o que significou contar acontecimentos bons e ruins. Alguns
dos Queirolo não gostaram do que leram ,e tentaram convencer Andrioli a
desistir da biografia; mas meses depois do livro ter sido publicado, a família
circense passou a aceita-lo como seu. Ninguém gosta de se ver no espelho, diz
Andrioli, e pergunta para o público – alguém já gravou a própria voz? Gostou do
que ouviu? Um coro de ‘nããããos’ foi a resposta, e ele comenta que é semelhante
em relação a biografia.
Ricardo Pozzo pergunta aos convidados como é
a percepção do que constrói uma boa história. Daniel Zanella menciona Nelson
Rodrigues, admirado por suas crônicas ditas simples, acessíveis a todo cidadão;
ao que este disse em uma entrevista ‘vocês não imaginam como é difícil escrever
simples’. Zanella conta que o cronista deve enxergar o leitor como amigo, para
quem conta algo do cotidiano sem que isso soe conteúdo apenas para entendidos
ou iniciados em determinado assunto, mas sim uma conversa leve; de maneira que
o leitor, se identificando com que lhe é contado, enxergue no escritor um amigo
próprio.
Luiz Andrioli conta sobre uma crônica que
escreveu para a revista TopView, sobre uma barista. Ao conversar com a barista,
soube que parte da família dela havia trabalhado com café, desde parentes que
haviam estudado o tema a alguns que sobreviveram de plantações de café em eras passadas.
Mas não parecia ser o suficiente, era como se faltasse algo para ‘fechar o
texto’, a gíria do jornalismo para terminar a matéria. Andrioli disse que se
valeu se um detalhe para tanto: durante o tempo em que entrevistou a barista,
no local de trabalho desta, o marido dela foi até lá e entregou-a algo, pequeno
o suficiente para caber em uma mão fechada – um brinco, precisamente. O jornalista
pediu para ver o brinco, que tinha a forma de um grão de café pintado a ouro, de
onde veio o nome da crônica – Grão de Ouro. É ao observar detalhes que vem a
inspiração, conta o jornalista.
Respondendo a uma pergunta de Ricardo Pozzo,
Luiz Andrioli recomenda a leitura de Érico Veríssimo e Dalton Trevisan. Cita
uma pesquisa publicada pela revista Science, na qual se escreveu que quem lê mais
ficções e romances está mais apto a conhecer o outro, tendo uma sensibilidade
maior, não a ponto de chorar pelo que presencia, mas no sentido de perceber as nuances
do contexto que o cerca.
Zanella conta que lê 30 páginas, se não se
sentir conquistado este ‘prazo’, desiste do livro. O importante, ele diz, é
encontrar um livro que possa divertir o leitor. Considera importante a expansão
do acervo literário, mas com cautela, conta que a indicação de alguns livros
lhe foi desastrosa em determinados momentos – não tinha consciência para
entender Dom Casmurro aos 11 anos. Zanella fala que a literatura pode ajudar a
conhecer pessoas, algo que somado ao que ele e Andrioli contaram neste
bate-papo, pode fazer com que leitores e escritores vejam nas produções e
leituras uns dos outros alguém com quem conversar.