quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Leitor como Amigo - Daniel Zanella e Luiz Andrioli na FLIM 2013

Manhã de terça-feira, 22 de outubro de 2013, segundo dia da Festa Literária do Medianeira – FLIM. Dentro da tenda montada próxima a cancha esportiva, algumas pessoas escolhiam seus lugares tranquilamente, os convidados deste bate-papo se encaminhavam para o palco, não sem antes serem avisados para ‘se prepararem’. Em um breve momento começa a sessão, e eis que dezenas de alunos, na faixa etária de 13-14 anos, entram na tenda e lotam-na com suas elétricas presenças.

Ricado Pozzo, mediador, pergunta aos dois convidados sobre o ‘assunto do momento’, a biografia, considerando que na semana anterior a esta sessão houve polêmica devido a família do falecido poeta curitibano Paulo Leminski não ter autorizado a publicação de uma biografia deste escrita por Domingos Pellegrini – fato mencionado pelo mediador. Daniel Zanella responde que a imagem de uma pessoa pública pertence a coletividade, como se a vida da pessoa, no caso, Leminski, não pertencesse mais a família dela, embora ela procure velar os mortos a própria maneira. Zanella considera tal impedimento é um ranço da ditadura, devido a este cerceamento de informação.

Impedir a publicação de uma biografia é censurar uma história, e este ato é o mesmo de censurar uma reportagem que expõe riscos de uma decisão política equivocada, responde Luiz Andrioli, outro convidado desta mesa. Ele conta do processo e escrita do livro O Circo e a Cidade, sobre a trajetória da família circense Queirolo em Curitiba. Conheceu membros desta família através da própria, e após longa pesquisa começou a escrever o livro, o que significou contar acontecimentos bons e ruins. Alguns dos Queirolo não gostaram do que leram ,e tentaram convencer Andrioli a desistir da biografia; mas meses depois do livro ter sido publicado, a família circense passou a aceita-lo como seu. Ninguém gosta de se ver no espelho, diz Andrioli, e pergunta para o público – alguém já gravou a própria voz? Gostou do que ouviu? Um coro de ‘nããããos’ foi a resposta, e ele comenta que é semelhante em relação a biografia.

Ricardo Pozzo pergunta aos convidados como é a percepção do que constrói uma boa história. Daniel Zanella menciona Nelson Rodrigues, admirado por suas crônicas ditas simples, acessíveis a todo cidadão; ao que este disse em uma entrevista ‘vocês não imaginam como é difícil escrever simples’. Zanella conta que o cronista deve enxergar o leitor como amigo, para quem conta algo do cotidiano sem que isso soe conteúdo apenas para entendidos ou iniciados em determinado assunto, mas sim uma conversa leve; de maneira que o leitor, se identificando com que lhe é contado, enxergue no escritor um amigo próprio.

Luiz Andrioli conta sobre uma crônica que escreveu para a revista TopView, sobre uma barista. Ao conversar com a barista, soube que parte da família dela havia trabalhado com café, desde parentes que haviam estudado o tema a alguns que sobreviveram de plantações de café em eras passadas. Mas não parecia ser o suficiente, era como se faltasse algo para ‘fechar o texto’, a gíria do jornalismo para terminar a matéria. Andrioli disse que se valeu se um detalhe para tanto: durante o tempo em que entrevistou a barista, no local de trabalho desta, o marido dela foi até lá e entregou-a algo, pequeno o suficiente para caber em uma mão fechada – um brinco, precisamente. O jornalista pediu para ver o brinco, que tinha a forma de um grão de café pintado a ouro, de onde veio o nome da crônica – Grão de Ouro. É ao observar detalhes que vem a inspiração, conta o jornalista.

Respondendo a uma pergunta de Ricardo Pozzo, Luiz Andrioli recomenda a leitura de Érico Veríssimo e Dalton Trevisan. Cita uma pesquisa publicada pela revista Science, na qual se escreveu que quem lê mais ficções e romances está mais apto a conhecer o outro, tendo uma sensibilidade maior, não a ponto de chorar pelo que presencia, mas no sentido de perceber as nuances do contexto que o cerca.


Zanella conta que lê 30 páginas, se não se sentir conquistado este ‘prazo’, desiste do livro. O importante, ele diz, é encontrar um livro que possa divertir o leitor. Considera importante a expansão do acervo literário, mas com cautela, conta que a indicação de alguns livros lhe foi desastrosa em determinados momentos – não tinha consciência para entender Dom Casmurro aos 11 anos. Zanella fala que a literatura pode ajudar a conhecer pessoas, algo que somado ao que ele e Andrioli contaram neste bate-papo, pode fazer com que leitores e escritores vejam nas produções e leituras uns dos outros alguém com quem conversar.