domingo, 8 de setembro de 2013

Voltando a Leitura

Durante alguns meses, fui estudante de um curso de fotografia, lecionado em uma escola no centro de Curitiba. Um ônibus e dez minutos de caminhada me bastavam para eu chegar ao destino. Avesso a atrasos, preferia chegar cedo, ainda que isso me resultasse em quinze ou vinte minutos de espera.

O que não me dizia nada. Minha ocupação pré-aula, sentado em um banco próximo a sala, era a mesma que durante o tempo dentro do veículo: um livro. Devido à prática, ganhei uma injusta alcunha. “Estudando de novo”, me disse a professora, mais de uma vez. Imerecida fama minha, e ingenuidade a dela. A menos que ela considere coletânea de contos do Marquês de Sade ou do Dalton Trevisan como baixaria fina – neste caso, arrisco-me a dizer que honro o adjetivo “estudioso”.

Talvez “absorto” sirva. Tão empolgado estava em determinada leitura, não necessariamente dos citados autores, que lia em pé no ponto de ônibus, dentro dos tubos que também caracterizam o transporte coletivo da metrópole. A lotação chegando, eu entrava e me encostava próximo a porta, quando não nesta, e voltava a ler assim que fechasse. A despeito do livro, não me concentrava a ponto de ignorar meus arredores, o que incluía freadas bruscas, entrada e saída de passageiros e gritos ou expressões verbais indiscretas destes, em especial uma dirigida a mim - “nossa, isso que é vontade de ler”. Um coletivo terrivelmente cheio, transitando lentamente debaixo de um sol escaldante, e um sujeito se punha a ler como se tais fatores não o afetassem. Por vezes eu observava pessoas lendo dessa maneira, noutras o visado era eu.

Houve capítulos, melhor, situações nas quais a prática me rendeu reações mistas. Em casa, eu com a mente e os olhos enterrados em um livro, e topava com alguma passagem que me era engraçada, eu ria. Quem estava perto me olhava com algo que de estranhamento. Mesmo não pedindo silêncio, talvez fosse esperado de mim, considerando minha absorção durante a leitura.


Entre olhares cujo significado variava entre “tudo bem aí?” e “alguém está se divertindo”, a melhor reação foi a da minha irmã caçula. Eu tinha me jogado em um sofá na sala, e voltei a ler, e ela chegou dizendo que ia interromper meu silêncio ligando a televisão. Eu lia, e ria. Ela me perguntou sobre o livro, ao que respondi que gostava tanto daquele em especial que lia uma vez por ano. A caçula me olha espantada, uma expressão de personagem de desenho animado tremendo de susto, e emenda: “acho que vou voltar a assistir”. Quanto a mim, voltei a rir- não do livro, mas da reação dela. Melhor deixar ele lendo antes que fale mais bobagem, não? 

domingo, 1 de setembro de 2013

Abrigo do Caos – uma conversa com Otávio Linhares, editor da revista Jandique

Curitiba, 31 de agosto de 2013

Uma revista? Tem o tamanho de um livro. Mas é revista. Livro! Com gravuras. Em uma edição, coloridas fusões de pessoas e árvores, uma continuando a outra; noutra, homens e criaturas imaginárias revezam-se entre as páginas; na terceira e, até a data de escrita deste relato, recente revista, as ilustrações estão dispostas como histórias em quadrinhos, enquanto um homem de chapéu e jaqueta na capa parece olhar para o leitor ou leitora, esperando as páginas serem abertas.

Ao final dos textos, o logotipo : um homem de vasto bigode, olhos fechados, cabeça levemente abaixada, o indicador esquerdo encostado na testa, o nome da publicação a sua direita – Jandique. “Há [algum] conceito estético”, afirma Otávio Linhares, editor-chefe, sobre a composição da revista;  “na segunda edição tivemos textos de quem vem do teatro, na primeira tivemos xilogravuras”.

Cada número tem sua própria estética, assim como variação dos textos. “Nossa ideia é encontrar, publicar e divulgar os autores curitibanos. Nada mais que isso” é o mote da Jandique.

“O que menos falta é escritor em Curitiba”, explica Linhares. “Estou publicando quem me pede, outro dia recebi um texto, não conheço o autor, mas gostei do que li”. Não há restrição quanto a tema ou forma, pois a intenção  “é fazer aparecer, não julgar. Que nem Manoel Carlos Karam , que problematiza forma e linguagem, e Miguel Sanches Neto, que possuí uma narrativa mais linear, significa que algum dos dois é melhor que o outro? Não, são maneiras diferentes de escrever, quero ver para onde o cara quer ir com esse mundo”. Paulo Leminski, Luci Collin, Oneide Diedrich, Carlos Machado, Assionara Souza, Alexandre França estão entre os autores publicados, mundo que abrange de contos e poemas a críticas literárias e entrevistas com pessoas relacionadas ao cenário cultural, tais como os irmãos Thiago e Frederico Tizzot da editora Arte e Letra e os donos da loja de quadrinhos Itiban, Mitie Taketani e Xico Utrabo.


Questionado sobre a face da produção literária local, Otávio responde que “a literatura de Curitiba é caótica”. Ele compara o cenário da capital paranaense com o de Rio de Janeiro ou de Bahia, e diz que não existe “uma literatura carioca. Há essa necessidade de se criar um rótulo, como se a literatura tivesse uma cara a partir do local. É mais fácil lidar com uma literatura industrial do que o caos”.


Um caos que sempre teve abrigo em Curitiba. A cidade possuiu periódicos literários, os mais célebres sendo Joaquim e Nicolau, apesar de que “a vida dos periódicos é muita curta”. “Os periódicos são marcados não só pela potência dos autores, mas pelo tempo de vida”, completa o editor da Jandique. Atualmente, a capital tem os jornais Rascunho (cuja idade ultrapassa uma década), Cândido (completou dois anos em 2013), e Relevo (em circulação desde 2010), além de outras publicações dedicadas a alguma forma de leitura. “Talvez agora faltem periódicos em Curitiba”, argumenta Otávio Linhares. Aos vindouros escritores e escritoras em busca de espaço, e aos leitores e leitoras curiosos pela produção local, bem-vindos a Jandique.