terça-feira, 22 de outubro de 2013

Herança por meio de Histórias – Ilan Brenman na FLIM 2013

Escritores são herdeiros dos narradores, de acordo com Cecília Meireles. A frase é citada por Ilan Brenman, na primeira palestra da Flim 2013 – Festa Literária do Medianeira, em uma chuvosa noite de segunda-feira, 21 de outubro. A mencionada frase de Meireles, Brenman adiciona que vivemos e morremos por causa das histórias, algo explicado por meio de uma que ele conta.

Em um reino muito distante, havia um rei muito poderoso, apaixonado por sua rainha. Porém, um dia ela adoeceu, emagreceu muito, e o rei pediu auxílio aos melhores médicos do reino. Porém, em vão – a rainha continuava doente, magra e triste. Em busca de socorro, o rei andou por todos os cantos, e nenhum remédio parecia bastar. Até encontrar um camponês, que o apresentou a sua esposa – sorridente,  saudável e em forma. ‘Mas o que o senhor dá a sua esposa, que ela está tão bem?’ perguntou o rei, e ouviu do camponês que este a alimentava com carne de língua. O rei deu-se por satisfeito com a resposta, voltou ao seu castelo e instruiu ao cozinheiro que preparasse tal prato.

Ilan Brenman continua com a história –seu cozinheiro preparou a tal ‘carne de língua’ com o que tinha- língua de cobra, sapo, qualquer animal que fosse; mas, mesmo com ingerindo essa refeição, a rainha não melhorou. E o rei afligia-se, se perguntava porque o tal ‘remédio’ funcionou tão bem com a esposa do camponês, mas não com sua amada rainha. Foi conversar com o camponês, contou-lhe que serviu carne de língua a rainha mas ela não melhorava, e os dois homens trocaram de lugar por alguns dias – o rei foi cuidar da esposa do camponês, enquanto aquele foi cuidar da rainha. Ao desfazer a ‘troca’, o rei notou que a rainha estava bem, tinha voltado a forma, sorridente, ao que a esposa do camponês adoeceu. Este perguntou o que houve, e o rei contou que serviu a tal carne de língua a esposa do camponês da mesma forma que a rainha, e o camponês explicou o que realmente significava tal expressão. Não era de comer ou beber, ou algo físico, e sim contar histórias para a pessoa. Aí o rei suspendeu o prato que pediu a seu cozinheiro, a passou a contar histórias para sal rainha.

Após terminar de contar esta história, Brenman comenta dos vários tipos de ‘carne’ do que nomeou açougue da vida, há desde carne fina de primeira qualidade a comida de quinta. E adverte - se nos alimentamos apenas de histórias ‘fast-food’, viramos zumbis.

Mas ilustrar um raciocínio por meio do conto parece não ser o suficiente. Por que inventar histórias se podemos falar? Ilan questiona a plateia, uma multidão de pais, mães, professores, crianças e visitantes que lotou o salão nobre do Colégio Medianeira. A primeira resposta veio de uma criança na segunda fila, próxima ao palestrante: para deixar a vida interessante. Outras respostas, de adultos, vieram de carona – pelo conhecimento, criatividade.

O homem não suporta a angústia de não compreender o mundo, e as histórias eram criadas para explica-lo, conta Brenman. No contato com estas ferramentas de compreensão chamadas histórias e linguagens, podemos entender a história da natureza humana, e perceber que não houve mudança nela, diz o palestrante, que considera a espécie como a mesma de sempre.

Parte da herança dos escritores, legado dos narradores, conforme a citação no início desta palestra, pode ser explicada por outro ato falado por Ilan: nomear. Usando uma frase do psicanalista francês Jacques Lacan, argumenta que quando não se nomeiam sentimentos, eles nos devoram; enquanto o ato de nomear é mais do que mera definição, é uma proteção.

Ao contrário do chamado politicamente correto de não mostrar realidades as crianças e disfarçar temas com palavras suaves, como se falar de violência fosse incentivar um comportamento violento na criança - um pensamento que Ilan comenta ser ultrapassado nas áreas educacionais estrangeiras, mas ainda corrente no Brasil.


A criança é dona de um mundo interior rico e complexo, argumenta Ilan Brenman. Um universo a ser explorado com cuidado e sensibilidade, nomeando experiências e sensações, evitando ou possivelmente reduzindo a angústia da incompreensão, especialmente ao considerar que as viagens das crianças (por meio de leituras ou não) não são as mesmas de pais e mães. E assim se toma posse da herança deixada por narradores e escritores.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Segundo Nascimento

Na foto do cartaz de divulgação, o semblante sério, curtos cabelos e comportados, as mãos próximas dos pés, trajes comuns sem adereços ou extravagâncias, composição visual cuja impressão pode ser de alguma rigidez ou excessiva seriedade no trato. Em um pátio interno de um colégio, uma multidão crescente e ruidosa aglomera-se frente a uma porta de um teatro, aguardando a pessoa cujo trabalho é motivo de um bate-papo.

Sem anúncios, nem escândalos com a própria presença, apresenta-se em notável discrição. Algumas vozes em volta silenciam, perante a chegada da admirada figura. Uma funcionária fala com a convidada, indica-a um corredor, informa-a de que ao final deste está o organizador do evento. Poucos minutos de espera, as portas do teatro são abertas, o público adentra. Um funcionário do colégio faz uma breve apresentação da convidada: escritora, jornalista, tais e tais prêmios, livros, pequena formalidade antes que o microfone seja passado a dela.

“Eu não tinha muita convicção disso, de ser repórter”, ela fala, tom suave e natural de voz. “Eu tinha escolhido jornalismo, nunca tive problemas nas aulas, mas acabei escolhendo porque as outras opções de faculdade não pareciam tão legais. Mas apesar disso, eu nunca tive em mim essa força, esse ideal de reportar. Só no final do curso que um professor me ensinou a importância disso”, explica. “Esse professor me ensinou que reportar é mais do que levar informação, que há casos em que você conta uma vida quando escreve”.

“É como se você se deixasse por um momento e desse a sua voz a outro”, continua. A repórter fala de tal forma que o ouvinte é embalado pela tranquilidade do que ouve. Ela emenda: “é você buscar ouvir alguém pela voz desse alguém, evitando julgamentos prévios”. Uma moça na plateia levanta a mão, e pergunta como é a relação da convidada com a escrita e a leitura, considerando que boa parcela dos trabalhos dela está relacionada a estas atividades.

“A leitura veio antes da escrita, foi como nascer de novo”, ela responde. “Fui ensinada a ler e escrever pelo meu pai, e ele aprendeu com uma senhora para quem prestava serviços. Esta senhora queria que todas as pessoas do vilarejo onde meu pai morava pudessem ler e escrever, e sempre dizia que o mundo da leitura é um mundo maravilhoso, onde você viaja pelas páginas. O meu pai aprendeu isso com ela, e eu com ele. E graças a essa senhora que nós podemos viajar pelas páginas, porque antes disso éramos cegos das letras. Foi um segundo nascimento”.


Outras perguntas foram feitas naquele curto bate-papo, uma delas sobre inspiração, em busca de compreender como a escriba exerce o ofício. Alguns ouvintes nas cadeiras da primeira fila do teatro, que estavam com blocos de papel e canetas em mãos, puseram-se a rabiscar rapidamente, para registrar com exatidão cada palavra da convidada. Porém, pouco antes da pergunta cuja resposta foi mencionada no parágrafo anterior, também haviam mãos levantadas, possíveis questões extras ou declarações de afeto. Mas quando ela falou no que denominou segundo nascimento, parcela dos que assistiam ao bate-papo julgaram ter compreendido mais do que as palavras podem explicar.