Anoitecera em Curitiba. Clima frio, mas não o
suficiente para congelar alguns cidadãos de irem a um determinado recinto.
Especificamente, um paiol que em eras passadas foi depósito de pólvora, mas após anos de reforma, tornou-se
abrigo de material tão incandescente quanto, porém nada nocivo.
O Teatro Paiol estava aberto, e preparado
para receber os convivas daquela noite. Dois cartazes, um colado em cada parede
do interior, com frases e um anúncio sobre a atividade a acontecer; no palco,
circundado por filas de cadeiras dispostas da parte mais baixa até a mais alta
do tetro, fora montada uma mesa, na qual pratos com salgados e doces tinham
por companhia garrafas de refrigerantes, e térmicas com chá e café.
Pessoas chegam ao estabelecimento,
gradativamente formando grupos que dialogam entre si, desde frequentadores
assíduos a recém-chegados. ‘Que achou do conto?’, ‘esse mês tivemos dois,
gostei de ambos’, a conversa segue; até que o mediador é avistado. Ele toma seu
lugar, uma banqueta no centro do palco, os participantes sentam-se nas
cadeiras, e o curto silêncio dá lugar as falas da noite.
“Boa noite”, diz o doutor Jaime Bieler, com o
microfone em mãos. Ele saúda os participantes, faz uma breve introdução dos
contos a serem debatidos naquela noite, e diz, em tom de brincadeira, que “os
novatos têm direito a um salgado e um copo de bebida”. A edição de Julho de
2013 do Encontos tinha começado.
Associado ao programa de incentivo a leitura
Conversa entre Amigos, do deputado Marcelo Almeida, o Encontos começou como um
grupo que se reunia para conversar mensalmente sobre um conto. Atualmente, os
participantes recebem gratuitamente o conto via e-mail ou correio, e o encontro
acontece na última segunda-feira de cada mês, no já mencionado Teatro Paiol. Em
algumas ocasiões, o autor esteve presente na conversa, como em novembro de
2012, na comemoração da quinquagésima edição do Encontos, na qual se discutiu
“O Encalhe dos Trezentos”, de Domingos Pellegrini, que permaneceu escondido em
meio a plateia durante parte do evento - e depois foi até o palco para falar
sobre a obra.
Uma vez começado o evento, qualquer
participante é livre para falar, tanto em relação ao que gostou na história por
motivos particulares a analisa-la de acordo com parâmetros sócio-cronológicos. Como
o doutor Bieler afirmou noutras ocasiões, ‘não é um encontro de literatos’, e
sim uma conversa sobre o conto. Machado de Assis, Edgar Allan Poe, Mario de
Andrade e Horácio Quiroga estão entre os autores cuja produção originou
debates, e aquela noite teve dose dupla: “Os Devaneios do General”, de Érico
Veríssimo, e “Más Notícias”, de Luiz Vilela.
“Sobe o primeiro conto, o personagem pensava
ser o dono de tudo, e começou a pagar pela crueldade que fez [ao longo da vida]”,
diz um senhor na primeira fila. Em uma fileira na direção oposta, outra pessoa
malha os protagonistas: “são pessoas sadomasoquistas, que não estão
equilibradas, frutos do sistema que não souberam se adaptar a realidade”. Um
rapaz na fileira do meio fala que era a primeira vez em que estava
participando, e emenda ‘quem está vendo que ele [o personagem] está pagando
pelo que fez somos nós que estamos lendo’.
Noutro local, uma mulher pede o microfone, e
expressa o ‘mergulho’ que fez na mente da personagem. “Como minha família está vendo meu
envelhecimento, será que estou construindo relações ou remoendo o que não deu
certo?”. Em meio a argumentos e, não raro, risos, presencia-se um encontro
entre interpretações pessoais, de acordo com a forma que cada participante
‘traz o tema para nossa realidade’, nas palavras de um membro. Mas não só pelo
encontro entre pessoas e ideias – o mediador já falou que, caso os novatos ‘se
comportem’, terão direito a mais de um salgado.