domingo, 28 de julho de 2013

Diálogo Silencioso

E nos encontramos quase por acaso, que você tem feito? Já comecei aquele projeto, posso te mostrar? Você me diz que seus estudos vão mal, de novo, e consegue mais do que imagina, mas é para isso que servem, não? E aquele caso, terminou enfim? E sei lá mais o que nos perguntamos.

Fazem o que, duas, três semanas que nos vimos pela última vez? Mais do que isso, qual de nós perdeu as contas? E só nos eventos de sempre, a agenda está sempre cheia você diz, que ingenuidade minha perguntar. Ao menos nesses locais – mais do que as atividades que nos movem, valem pelas pessoas que encontramos.

Tenho caminhado bastante, você conta, só para passar o tempo, aproveitar um pouco essas folgas. Bons quinze quilômetros, a distância é mais ou menos essa, ida e volta, digo que é uma boa distância, você me diz que anda isso em duas ou três horas, dependendo do dia.

Te conto das minhas andanças, cada vez maiores e mais tempo fora de casa, as vezes voltando por uma rua diferente da qual fui. De súbito, a ideia, já que ambos caminhamos tanto, que tal companhia? Claro, porque não, tenho um dia livre semana que vem.

O dia chega. Te encontro no local combinado, achei que viesse de casa, já estava na rua faz tempo? Não muito, você responde, e me indica por quais ruas seguiremos.

Me lembro daqui. Já comprei um presente na loja ali do meio, tem um almoço perfeito naquele restaurante, quando passei aqui anos atrás nem tinha essa calçada, passei aqui várias vezes e nunca olhei o nome das ruas, reconheço um pouco a região. Você me responde frase ou outra, brevemente.

Começa a parte nova, ao menos para mim. Nos afastamos um pouco da região central, mas ainda estamos em solo urbano. Até demais – algumas quadras mal tem espaço para nós, temos que pular por cima de buracos destampados, poças com água da chuva do dia anterior, pedras e materiais de construção da reforma que ainda não acabou, disputando o pouco espaço com pedestres apressados, o conjunto todo quase transformando o passeio em uma corrida de obstáculos.

Vamos por baixo da trincheira, os carros passando velozmente tanto a nossa direita quanto na rua de cima. Não precisamos competir com eles, nossa trilha é composta por trechos irregulares e inacabados, mas servem bem a nossos pés. Esta trilha particular é nossa forma de conhecer a cidade, excessivamente percorrida pelas vias principais para se incomodar com dois aspirantes a exploradores.

Noto detalhes. Talvez pequenos, sutis, mas nada que incomode. Seu silêncio. Não lhe pergunto o porquê. Apenas tento perceber, sem me preocupar onde sua mente está. Te tiro um pouco desse estado perguntando porque caminha olhando o chão, ouço um só olho de resposta. E você retoma sua não expressão verbal.

Assim foi durante quase todo o tempo em que andamos. Colocamos o assunto em dia semana passada, você talvez queira me perguntar sobre algo e não o faz, costume de ter o silêncio por companhia? Não indago, evito falar, te resumi minha vida naquela outra conversa, as novidades são velhas conhecidas suas. Tenho ideia que começou a dar frutos, preciso avaliar tudo, aquele livro que você indicou é perfeito, a viagem está próxima, os problemas são os mesmos, mas deixe; não falemos disso. Não falemos.

Além do exercício físico, ou passatempo, ou puro gosto por bater perna por aí meio sem destino, é uma atividade preenchida por quietude. Não as poucas falas constrangedoras com desencontros verbais, nada de recolhimento em si porque o outro disparou a própria fúria pelo verbo, tampouco uma conversa forçada porque um dos interlocutores não sabe quando encerrar o assunto.

Apenas silêncio. Condição calma e espontânea, pouco dizendo tudo, uma compreensão moldada além das palavras.  Suavemente interrompida- você me indica o lugar aonde chegamos, e me diz para olhar na direção oposta. Andamos tudo isso. Um discreto sorriso lhe invade a face, dedicamos minutos a contemplar a paisagem desenhada pelas distâncias percorridas a pé.


Você me diz que devemos voltar, o almoço nos espera em casa e ainda há a tarde em frente. Retornamos ao trajeto, e, discretamente, ao nosso diálogo silencioso. 

PS.: originalmente publicado em http://diesvenit.blogspot.com.br/2013/06/dialogo-silencioso.html