16 de junho de 2013. Manhã de céu cinzento em
Curitiba. Saindo da praça Osório, uma das muitas referências do centro, e seguindo
por rua que cruza com ela, notam-se poucas pessoas, transmitindo uma impressão
de que a cidade está deserta. O destino
da caminhada é um ponto específico na rua Comendador Araújo, esquina com a
Avenida Presidente Taunay.
Precisamente, uma antiga construção em frente
a entrada de um shopping. Um casarão branco, grande, ocupando um pedaço
considerável da quadra. Olhando-o mais de perto, percebem-se os muitos detalhes
nas janelas, corrimões nas escadas, ícones que lembram Netuno ou outro deus
grego debaixo de uma das sacadas, e uma parte do prédio, próximo de onde ele
termina ao se aproximar de outra construção da quadra, há um telhado no mesmo
tom de azul-claro das portas, janelas e detalhes que as circundam, debaixo do
qual está uma pequena sacada, escondida pelos galhos de magras árvores a sua
frente.
Um rapaz chega e começa a fotografar esta construção.
Caçando o melhor ângulo, ele a documenta de frente, de lado, mais perto atrás de
um detalhe dela. Três pessoas chegam, portando mochilas ou pastas em mãos, de
onde tiram canetas, pincéis, lápis e pranchetas de desenho, e veem-se bancos de
madeira ou plástico nas mãos de uma delas. Estas pessoas cumprimentam o homem,
“é aqui hoje”, ‘logo o pessoal chega’, conversam, já procurando um lugar para
começarem.
Gradativamente chegam mais membros do Croquis
Urbanos. Desde o início de abril de 2013, o grupo se reúne para desenhar. Cada
um se posiciona em um ponto ao redor da construção: duas mulheres ficam no
banco do ponto de táxi próximo do encontro entre as duas ruas, um se encosta em
um poste de luz, uma senta nos degraus da construção, outros três se ajeitam em
banquinhos de madeira que levaram para debaixo de uma marquise do shopping, duas
se sentam em uma parte do canteiro de plantas da calçada. Começa a chover, não
tem problema: debaixo da marquise há espaço para todos, e ainda há quem fique
um pouco mais perto do final dela, sujeito a água, com um guarda-chuva em uma
das mãos, o lápis em outra e a prancheta no colo.
Praça Santos Andrade, casarão do Cristo Rei,
Moinho do Rebouças, Vista Alegre, Praça das Nações estão entre os locais já
desenhados pelo Croquis Urbanos. A cada encontro semanal algum local de
Curitiba é visualmente documentado pelos membros do grupo, formado por
arquitetos, engenheiros, chargistas, artistas plásticos, estudantes e pessoas
de demais áreas, independente da atividade profissional estar ligada a
desenhos.
Gradativamente, os contornos tomam forma e
cor. Um risco horizontal, seguido de dois
verticais em cada ponta, um traço horizontal em cima, já se tem base de
parte da construção – logo acompanhada
pelas outras peças que a compõem. Ao observar de perto o processo,
nota-se a perspectiva particular de cada participante: na pintura de um, o
casarão é retratado como uma fotografia em preto-e-branco; para outro, o azul é
a cor dominante, debaixo da qual se escondem as linhas da construção; em um
caderno há um traço rústico, marcando por um grafite escuro e cinzento; numa
prancheta há aquarela clara, noutra tons brilhantes de canetas especiais; um
destaca detalhes da parte mais alta da construção com azul claro, acompanhado
pelo verde também claro das folhas de uma árvore; outro finaliza com verdes
escuros e um tom levemente pálido de azul, acompanhados de tons semelhantes.
“O difícil é saber quando o desenho acaba”,
diz Simon Taylor, chargista, finalizando
com leves toques no pincel, pingando gotas verdes no retrato que tece. Alguns
já terminaram, e colocam os desenhos em uma escada do lado de fora do
shopping. “O legal desse grupo é isso,
cada um desenha de uma maneira. É como se cada um buscasse uma voz, uma
identidade [pelo desenho]” , afirma Taylor.
O grupo se reúne na frente da escada,
admirando a produção da manhã. “E esse aqui de quem é?”, “isso aqui é bem o seu
estilo!”, os comentários sobre o trabalho de cada pessoa seguem. Após algumas
fotos, o grupo lentamente se dispersa, cada um a caminho do lar. Para na semana
seguinte se reunir e desenhar outro local de Curitiba, ampliando o acervo de
Croquis Urbanos.
Fotos: Walter Bach
Fotos: Walter Bach
PS.: originalmente publicado em
http://diesvenit.blogspot.com.br/2013/06/os-retratos-dos-croquis-urbanos.html