terça-feira, 30 de julho de 2013

Os Retratos dos Croquis Urbanos

16 de junho de 2013. Manhã de céu cinzento em Curitiba. Saindo da praça Osório, uma das muitas referências do centro, e seguindo por rua que cruza com ela, notam-se poucas pessoas, transmitindo uma impressão de que a cidade está deserta.  O destino da caminhada é um ponto específico na rua Comendador Araújo, esquina com a Avenida Presidente Taunay.

Precisamente, uma antiga construção em frente a entrada de um shopping. Um casarão branco, grande, ocupando um pedaço considerável da quadra. Olhando-o mais de perto, percebem-se os muitos detalhes nas janelas, corrimões nas escadas, ícones que lembram Netuno ou outro deus grego debaixo de uma das sacadas, e uma parte do prédio, próximo de onde ele termina ao se aproximar de outra construção da quadra, há um telhado no mesmo tom de azul-claro das portas, janelas e detalhes que as circundam, debaixo do qual está uma pequena sacada, escondida pelos galhos de magras árvores a sua frente.

Um rapaz chega e começa a fotografar esta construção. Caçando o melhor ângulo, ele a documenta de frente, de lado, mais perto atrás de um detalhe dela. Três pessoas chegam, portando mochilas ou pastas em mãos, de onde tiram canetas, pincéis, lápis e pranchetas de desenho, e veem-se bancos de madeira ou plástico nas mãos de uma delas. Estas pessoas cumprimentam o homem, “é aqui hoje”, ‘logo o pessoal chega’, conversam, já procurando um lugar para começarem.

Gradativamente chegam mais membros do Croquis Urbanos. Desde o início de abril de 2013, o grupo se reúne para desenhar. Cada um se posiciona em um ponto ao redor da construção: duas mulheres ficam no banco do ponto de táxi próximo do encontro entre as duas ruas, um se encosta em um poste de luz, uma senta nos degraus da construção, outros três se ajeitam em banquinhos de madeira que levaram para debaixo de uma marquise do shopping, duas se sentam em uma parte do canteiro de plantas da calçada. Começa a chover, não tem problema: debaixo da marquise há espaço para todos, e ainda há quem fique um pouco mais perto do final dela, sujeito a água, com um guarda-chuva em uma das mãos, o lápis em outra e a prancheta no colo.

Praça Santos Andrade, casarão do Cristo Rei, Moinho do Rebouças, Vista Alegre, Praça das Nações estão entre os locais já desenhados pelo Croquis Urbanos. A cada encontro semanal algum local de Curitiba é visualmente documentado pelos membros do grupo, formado por arquitetos, engenheiros, chargistas, artistas plásticos, estudantes e pessoas de demais áreas, independente da atividade profissional estar ligada a desenhos.

Gradativamente, os contornos tomam forma e cor. Um risco horizontal, seguido de dois  verticais em cada ponta, um traço horizontal em cima, já se tem base de parte da construção – logo acompanhada  pelas outras peças que a compõem. Ao observar de perto o processo, nota-se a perspectiva particular de cada participante: na pintura de um, o casarão é retratado como uma fotografia em preto-e-branco; para outro, o azul é a cor dominante, debaixo da qual se escondem as linhas da construção; em um caderno há um traço rústico, marcando por um grafite escuro e cinzento; numa prancheta há aquarela clara, noutra tons brilhantes de canetas especiais; um destaca detalhes da parte mais alta da construção com azul claro, acompanhado pelo verde também claro das folhas de uma árvore; outro finaliza com verdes escuros e um tom levemente pálido de azul, acompanhados de tons semelhantes.

“O difícil é saber quando o desenho acaba”, diz Simon Taylor, chargista,  finalizando com leves toques no pincel, pingando gotas verdes no retrato que tece. Alguns já terminaram, e colocam os desenhos em uma escada do lado de fora do shopping.  “O legal desse grupo é isso, cada um desenha de uma maneira. É como se cada um buscasse uma voz, uma identidade [pelo desenho]” , afirma Taylor.


O grupo se reúne na frente da escada, admirando a produção da manhã. “E esse aqui de quem é?”, “isso aqui é bem o seu estilo!”, os comentários sobre o trabalho de cada pessoa seguem. Após algumas fotos, o grupo lentamente se dispersa, cada um a caminho do lar. Para na semana seguinte se reunir e desenhar outro local de Curitiba, ampliando o acervo de Croquis Urbanos. 

Fotos: Walter Bach