domingo, 28 de julho de 2013

Envelhecimento Fotográfico

Metade dos itens mudados de lugar, dois sacos de plástico cheios de lixo, algumas revistas e jornais velhos separados, livro esquecido em um canto do armário, CDs e filmes empilhados, além de chaveiros, enfeites, lembranças e cartas encaixotados, enfim, um mínimo de organização no quarto.  Mas ainda não tinha encontrado o que procurava.

Sem alternativa, o jeito foi me render ao quarto ‘dos fundos’ – aquele espaço na casa que não serve de dormitório há meses, mas está ocupado por uma bagunça de objetos indesejáveis sem data de saída.  Na base do que parece ser uma pilha de sacolas e caixas de eletrônicos, uma caixa na qual eu esperava que estivesse o que motivou a expedição em meio a tanta tralha.

Ela servia de depósito para uma coleção de fotos, do tempo da máquina fotográfica, quando não se podia cometer um mínimo erro que fosse – eram 36 ‘poses’, e olhe lá. Depois do décimo álbum que revirei, perdi as contas. Fotos soltas e negativos faziam companhia aos álbuns, um acervo guardado a parte, longe dos excessos do arquivo digital.

Imagens de 8, 10 anos atrás ou mais, alguns sustos ao olhar as datas anotadas no verso. Olhar fotos antigas é algo entre cômico e assustador. Nem eu lembrava que certo parente meu já teve cabelo, mas com certeza ele não me deixaria esquecer alguma besteira qualquer – menos ainda quem documentou a traquinagem em uma foto. Atividades do colégio, visitas de amigos em casa, viagens de família, não foram poucas as risadas nessa busca.

Alguns minutos de nostalgia depois, encontrei até mais do que imaginava. Peguei o telefone, avisei um (velho) amigo : “achei! Venha para cá.” Constantemente fui questionado sobre esses registros, que eu nunca achava por sei lá o que, e a cobrança se tornou quase tão antiga quanto a amizade. Ainda bem que as fotos estavam intactas.

As fotos. Quantos as pessoas nelas, não arrisco. “Olha sua cara de criança nessa foto, que é isso” ; “isso daqui é muito velho, foi antes de você ficar gordo”; “olha que besta a gente era nesse tempo”; “que cara andrógina nessa foto, credo”; “a gente tá ficando velho”. Envelhecemos alguns anos, ficaram esses registros visuais e as muitas lembranças. “Uma reunião dessas seria impossível hoje” me diz o amigo, com uma foto de uma festa de pelos menos cinco anos atrás em mãos. Tenho de concordar. Do grupo, cada um foi cuidar da própria vida em um canto diferente, todos cada vez mais ocupados – e constato isso a cada vez que consigo reencontrar alguém.

Somem-se os compromissos a presença da comunicação digital, parece que as conversas face a face tornaram-se mais raras. Ao oposto de papos sobre como mudou a vida daquele tempo até hoje (um ano atrás parece bastar), sem rendições a nostalgias, mas apenas por alguma saudade da companhia. Envelhecemos, ficamos ocupados, voltamos a trabalhar, nos dedicamos aos estudos, o que for – nos afastamos de alguns e conhecemos outros, renovando o ciclo.


Após conversar pela internet com pessoas que fisicamente estão longe, fico alguns instantes parado em frente ao computador. Vou a cozinha abastecer uma xícara com chá, olho de relance para o quarto de minha mãe, e noto que ela adormeceu. Com os olhos fechados e enrolada no cobertor, parece uma criança empacotada pronta para dormir, esperando que alguém apague a luz, desligue a televisão e lhe dê um beijo de boa noite. E eu e alguns amigos ainda nos espantamos e nos perguntamos o que é envelhecer.

Ps.: originalmente publicado em
 http://diesvenit.blogspot.com.br/2013/05/envelhecimento-fotografico.html