Metade dos itens mudados de lugar, dois sacos
de plástico cheios de lixo, algumas revistas e jornais velhos separados, livro
esquecido em um canto do armário, CDs e filmes empilhados, além de chaveiros,
enfeites, lembranças e cartas encaixotados, enfim, um mínimo de organização no
quarto. Mas ainda não tinha encontrado o
que procurava.
Sem alternativa, o jeito foi me render ao
quarto ‘dos fundos’ – aquele espaço na casa que não serve de dormitório há
meses, mas está ocupado por uma bagunça de objetos indesejáveis sem data de
saída. Na base do que parece ser uma
pilha de sacolas e caixas de eletrônicos, uma caixa na qual eu esperava que
estivesse o que motivou a expedição em meio a tanta tralha.
Ela servia de depósito para uma coleção de
fotos, do tempo da máquina fotográfica, quando não se podia cometer um mínimo
erro que fosse – eram 36 ‘poses’, e olhe lá. Depois do décimo álbum que
revirei, perdi as contas. Fotos soltas e negativos faziam companhia aos álbuns,
um acervo guardado a parte, longe dos excessos do arquivo digital.
Imagens de 8, 10 anos atrás ou mais, alguns
sustos ao olhar as datas anotadas no verso. Olhar fotos antigas é algo entre
cômico e assustador. Nem eu lembrava que certo parente meu já teve cabelo, mas
com certeza ele não me deixaria esquecer alguma besteira qualquer – menos ainda
quem documentou a traquinagem em uma foto. Atividades do colégio, visitas de
amigos em casa, viagens de família, não foram poucas as risadas nessa busca.
Alguns minutos de nostalgia depois, encontrei
até mais do que imaginava. Peguei o telefone, avisei um (velho) amigo : “achei!
Venha para cá.” Constantemente fui questionado sobre esses registros, que eu
nunca achava por sei lá o que, e a cobrança se tornou quase tão antiga quanto a
amizade. Ainda bem que as fotos estavam intactas.
As fotos. Quantos as pessoas nelas, não
arrisco. “Olha sua cara de criança nessa foto, que é isso” ; “isso daqui é
muito velho, foi antes de você ficar gordo”; “olha que besta a gente era nesse
tempo”; “que cara andrógina nessa foto, credo”; “a gente tá ficando velho”.
Envelhecemos alguns anos, ficaram esses registros visuais e as muitas
lembranças. “Uma reunião dessas seria impossível hoje” me diz o amigo, com uma
foto de uma festa de pelos menos cinco anos atrás em mãos. Tenho de concordar.
Do grupo, cada um foi cuidar da própria vida em um canto diferente, todos cada
vez mais ocupados – e constato isso a cada vez que consigo reencontrar alguém.
Somem-se os compromissos a presença da
comunicação digital, parece que as conversas face a face tornaram-se mais
raras. Ao oposto de papos sobre como mudou a vida daquele tempo até hoje (um
ano atrás parece bastar), sem rendições a nostalgias, mas apenas por alguma
saudade da companhia. Envelhecemos, ficamos ocupados, voltamos a trabalhar, nos
dedicamos aos estudos, o que for – nos afastamos de alguns e conhecemos outros,
renovando o ciclo.
Após conversar pela internet com pessoas que
fisicamente estão longe, fico alguns instantes parado em frente ao computador. Vou
a cozinha abastecer uma xícara com chá, olho de relance para o quarto de minha
mãe, e noto que ela adormeceu. Com os olhos fechados e enrolada no cobertor,
parece uma criança empacotada pronta para dormir, esperando que alguém apague a
luz, desligue a televisão e lhe dê um beijo de boa noite. E eu e alguns amigos
ainda nos espantamos e nos perguntamos o que é envelhecer.
Ps.: originalmente publicado em
http://diesvenit.blogspot.com.br/2013/05/envelhecimento-fotografico.html
Ps.: originalmente publicado em
http://diesvenit.blogspot.com.br/2013/05/envelhecimento-fotografico.html