Precisa-se de pouco para se espantar com o conteúdo daquela sala. Muito foi publicado sobre os itens nela depositados, desde abordagens formais a citações indiretas. Lendo friamente, parecem distantes, representações de épocas longínquas, apenas gravuras e descrições reproduzidas a exaustão. Até andar por aquele espaço.
Passando pela porta, seguindo reto, há uma mesa de madeira, com uma tampa de vidro por cima, tanto ela quanto uma proteção de um tecido vermelho acomodando os objetos da exposição. Em um canto, um papel retangular, na vertical, nele uma figura oval com variações avermelhadas. Um homem de expressão sofrida, parte da face virada para quem observa a imagem: uma espécie de colar preso aproximadamente na metade do pescoço, na frente um quadrado, aparentemente feito de metal, servindo de suporte a um objeto fino que se estende do queixo até abaixo do pescoço, cada extremidade com duas pontas divididas por curvas, ambas ferindo o indivíduo; perto da imagem, repousa a Forquilha do Herege.
“Firmemente segurado no pescoço da vítima, com uma correia de couro robusta e através das quatro pontas afiadíssimas, cravadas na carne, debaixo do queixo e no peito, impedia qualquer movimento ao torturado, permitindo-lhe, porém, confessar as suas culpas.” Assim está escrito em um papel perto deste item. Uma introdução branda à exposição de Instrumentos Medievais de Tortura, abrigada em uma sala do andar superior do Museu Municipal de Arte de Curitiba.
O objeto logo a direita da entrada da sala é a ‘Roda’. “Este castigo, de antigas origens, relaciona-se com significados religiosos e consistia em amarrar os réus numa roda que se fazia girar em torno de espinhos, pedras afiadas ou mesmo fogo vivo e, desse modo, o corpo vinha horrivelmente torturado”, lê-se no descritivo na parede. Noutra parte da sala, vê-se uma cadeira de ferro forrada de espinhos, com ligas para prender a pessoa pelos tornozelos e pulsos. Atrás dela, na frente de uma parede branca no meio do espaço, há um caixão de ferro disposto verticalmente, a parte de cima esculpida de tal forma que lembra uma máscara humana, e seu interior preenchido por espinhos, menos do que a cadeira citada anteriormente, mas posicionados de forma a causar uma dor calculada.
É uma das impressões possíveis após observar os instrumentos e ler as descrições de seu funcionamento. Eram ferramentas de coerção, utilizadas durante a Idade Média com a justificativa de obter confissões de suspeitos. Como se fosse possível ‘justificar’ cada ferida na anatomia humana alheia com acusações de heresia e bruxaria, apenas por um indivíduo supostamente não seguir um credo dominante.
Porém, os instrumentos medievais de tortura não eram usados apenas contra supostos dissidentes religiosos. Em descrições de alguns, lê-se que ladrões e assassinos também eram punidos, tornando-se tanto exemplos do que podia acontecer a infratores da lei quanto alvos de retaliações por parte da população - o Pelourinho sendo exemplo destas duas possibilidades. “Conhecido e utilizado desde os tempos mais remotos, na Época Medieval, que estava reservado, geralmente, aos vagabundos e mendigos, porém as mulheres não estavam isentas desse tratamento, sobretudo aquelas responsáveis de pouca fidelidade ao marido ou de ultrajem às [sic] noções de pudor social da época”, segundo a placa ao lado de um chicote, formado por um cabo e um corrente. Outra impressão possível ao analisar o conteúdo da exposição é de que não existiam limites para a tortura. Ao lado deste chicote, há um poste, com um par de algemas presas próximas a seu topo, e uma variação do referido instrumento, composta por cordas finas; “recordamos o famoso gato das nove caudas, [...] cujas cordas eram encharcadas numa solução de sal e enxofre, dissolvidos na água, aumentando a sua eficiência”.
A exposição, que ficará em Curitiba até 6 de outubro de 2013, foi trazida da Itália por colecionadores europeus, e seus mais de 50 instrumentos, datados dos séculos XIII a XVII, entre originais e réplicas, foram vistos por alemães, russos, poloneses, espanhóis e argentinos, entre outras nacionalidades. São amostras de como o ser humano desperdiçou sua capacidade criativa preocupando-se em ferir a própria espécie, materializando contornos de brutalidade em infinitas formas de causar dor. A era presente infelizmente não é isenta deste aspecto, embora não seja o intento deste texto alavancar tal discussão.
Os escritos sobre a Garrota e das armas típicas de carcereiros informam que variações destes ainda são usadas, embora sem especificações quanto à circunstância. Talvez nas eras vindouras sejam expostas mais ferramentas cujo uso foi nada além do sofrimento alheio, independente da data de elaboração. Em uma amostra utópica na qual tais aparelhos sejam apenas memórias de um tempo em que o humano mutilava fisicamente seu semelhante. Enquanto tal milênio não chega, pode-se ter contato com esse lado ao observar os instrumentos de tortura.
Instrumentos Medievais de Tortura, Período da Inquisição
Museu Municipal de Arte de Curitiba – MuMA – Portão Cultural
Museu Municipal de Arte de Curitiba – MuMA – Portão Cultural
Av. República Argentina, 3.430
Encerramento: 6 de outubro de 2013
De terça a domingo, das 10h às 19h.
Ingressos a R$ 15 e R$ 7,50 (meia-entrada)
Encerramento: 6 de outubro de 2013
De terça a domingo, das 10h às 19h.
Ingressos a R$ 15 e R$ 7,50 (meia-entrada)
Fotos: Walter Bach
PS.: originalmente publicado em
http://diesvenit.blogspot.com.br/2013/07/contornos-da-brutalidade.html
PS.: originalmente publicado em
http://diesvenit.blogspot.com.br/2013/07/contornos-da-brutalidade.html