quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Recriação Poética – Ricardo Pozzo e Marcelo Sandmann na FLIM 2013

Segundo debate de terça-feira, 22 de outubro, na Festa Literária do Medianeira – FLIM 2013. No palco da tenda montada próxima a cancha esportiva do Colégio Medianeira, Cezar Tridapalli, organizador do evento, fala ao público, formado em maioria por estudantes de 14-15 anos, sobre o bate-papo da mesma manhã, no qual Daniel Zanella e Luiz Andriolli comentaram que a literatura permite conhecer outras pessoas, como se as desses voz – e Tridapalli passa a vez para Assionara Souza, mediadora desta sessão.

Ela pergunta aos dois escritores convidados onde se esconde a poesia, visto que ambos adotaram esta forma de expressão. Para Ricardo Pozzo, as crianças tem uma felicidade interior única, e o ‘mundo adulto’ muitas vezes perde a sensibilidade para perceber as sutilezas do mundo delas, recriado a sua própria maneira, e na falta de quem as ouça acabam falando sozinhas – parte desse ‘falar sozinho’ sendo fonte de poesias e demais escritos.

Já Marcelo Sandmann escreve a partir de textos que lê – ‘estou o tempo todo conversando com outros escritores’. Mas não é apenas dessas leituras que ele se alimenta para escrever, e sim de experiências pessoais, na observação de detalhes do cotidiano.

Pozzo diz que começa a escrever porque lê, e diz que todo mundo tem direito a escrever. Mesmo que seja algo apenas para si, ou que a pessoa não goste do que escreveu quando for ler de novo, pois considera que ao escrever se transmite um sentimento que não poderia ser contado de outra forma.

Após ler um trecho de um poema de Marcelo Sandmann, Assionara Souza pergunta como é a exposição de outros textos em sua obra. Sandmann menciona policial em ascensão, histórias macabras ou pesadas do cotidiano, conta que só as manchetes dos noticiários por si mesmas já contam histórias, e a reunião que ele faz delas em suas poesias é como um choque de linguagem entre o lado ‘bruto’ da realidade e o poético.


É preciso ser muito humano para ter sensibilidade hoje, argumenta Ricardo Pozzo. Nas palavras dele, a poesia é uma significação de força e sensibilidade, uma das expressões de humanidade em um mundo que há incentivo a tudo, menos a essa face sensível. 

Leitor como Amigo - Daniel Zanella e Luiz Andrioli na FLIM 2013

Manhã de terça-feira, 22 de outubro de 2013, segundo dia da Festa Literária do Medianeira – FLIM. Dentro da tenda montada próxima a cancha esportiva, algumas pessoas escolhiam seus lugares tranquilamente, os convidados deste bate-papo se encaminhavam para o palco, não sem antes serem avisados para ‘se prepararem’. Em um breve momento começa a sessão, e eis que dezenas de alunos, na faixa etária de 13-14 anos, entram na tenda e lotam-na com suas elétricas presenças.

Ricado Pozzo, mediador, pergunta aos dois convidados sobre o ‘assunto do momento’, a biografia, considerando que na semana anterior a esta sessão houve polêmica devido a família do falecido poeta curitibano Paulo Leminski não ter autorizado a publicação de uma biografia deste escrita por Domingos Pellegrini – fato mencionado pelo mediador. Daniel Zanella responde que a imagem de uma pessoa pública pertence a coletividade, como se a vida da pessoa, no caso, Leminski, não pertencesse mais a família dela, embora ela procure velar os mortos a própria maneira. Zanella considera tal impedimento é um ranço da ditadura, devido a este cerceamento de informação.

Impedir a publicação de uma biografia é censurar uma história, e este ato é o mesmo de censurar uma reportagem que expõe riscos de uma decisão política equivocada, responde Luiz Andrioli, outro convidado desta mesa. Ele conta do processo e escrita do livro O Circo e a Cidade, sobre a trajetória da família circense Queirolo em Curitiba. Conheceu membros desta família através da própria, e após longa pesquisa começou a escrever o livro, o que significou contar acontecimentos bons e ruins. Alguns dos Queirolo não gostaram do que leram ,e tentaram convencer Andrioli a desistir da biografia; mas meses depois do livro ter sido publicado, a família circense passou a aceita-lo como seu. Ninguém gosta de se ver no espelho, diz Andrioli, e pergunta para o público – alguém já gravou a própria voz? Gostou do que ouviu? Um coro de ‘nããããos’ foi a resposta, e ele comenta que é semelhante em relação a biografia.

Ricardo Pozzo pergunta aos convidados como é a percepção do que constrói uma boa história. Daniel Zanella menciona Nelson Rodrigues, admirado por suas crônicas ditas simples, acessíveis a todo cidadão; ao que este disse em uma entrevista ‘vocês não imaginam como é difícil escrever simples’. Zanella conta que o cronista deve enxergar o leitor como amigo, para quem conta algo do cotidiano sem que isso soe conteúdo apenas para entendidos ou iniciados em determinado assunto, mas sim uma conversa leve; de maneira que o leitor, se identificando com que lhe é contado, enxergue no escritor um amigo próprio.

Luiz Andrioli conta sobre uma crônica que escreveu para a revista TopView, sobre uma barista. Ao conversar com a barista, soube que parte da família dela havia trabalhado com café, desde parentes que haviam estudado o tema a alguns que sobreviveram de plantações de café em eras passadas. Mas não parecia ser o suficiente, era como se faltasse algo para ‘fechar o texto’, a gíria do jornalismo para terminar a matéria. Andrioli disse que se valeu se um detalhe para tanto: durante o tempo em que entrevistou a barista, no local de trabalho desta, o marido dela foi até lá e entregou-a algo, pequeno o suficiente para caber em uma mão fechada – um brinco, precisamente. O jornalista pediu para ver o brinco, que tinha a forma de um grão de café pintado a ouro, de onde veio o nome da crônica – Grão de Ouro. É ao observar detalhes que vem a inspiração, conta o jornalista.

Respondendo a uma pergunta de Ricardo Pozzo, Luiz Andrioli recomenda a leitura de Érico Veríssimo e Dalton Trevisan. Cita uma pesquisa publicada pela revista Science, na qual se escreveu que quem lê mais ficções e romances está mais apto a conhecer o outro, tendo uma sensibilidade maior, não a ponto de chorar pelo que presencia, mas no sentido de perceber as nuances do contexto que o cerca.


Zanella conta que lê 30 páginas, se não se sentir conquistado este ‘prazo’, desiste do livro. O importante, ele diz, é encontrar um livro que possa divertir o leitor. Considera importante a expansão do acervo literário, mas com cautela, conta que a indicação de alguns livros lhe foi desastrosa em determinados momentos – não tinha consciência para entender Dom Casmurro aos 11 anos. Zanella fala que a literatura pode ajudar a conhecer pessoas, algo que somado ao que ele e Andrioli contaram neste bate-papo, pode fazer com que leitores e escritores vejam nas produções e leituras uns dos outros alguém com quem conversar.