terça-feira, 20 de agosto de 2013

A identidade de uma Biblioteca – Miguel Sanches Neto no Litercultura 2013

“Eu estudei para ser padre, fui aprendiz de tipógrafo... o seu livro é autobiográfico em relação a mim” – foi com tal fala que Sidney Rocha abriu a terceira sessão do Litercultura, em 17 de agosto de 2013, na qual mediou uma conversa com Miguel Sanches Neto. Rocha se referiu a Máquina de Madeira, último livro de Sanches Neto, cujo protagonista é padre e inventa um protótipo da máquina de escrever; ambientado no Brasil rural e escravocrata da era colonial, entre as possíveis interpretações a partir de Máquina, está a formação de identidade – tanto da referida personagem, que persistiu nesta invenção, quanto do país.

“A leitura é a base de tudo, o escritor é filho do leitor”, diz Miguel. “A leitura é minha identidade, porque vim de uma família que não tinha livros”. O escritor conta que, quando estudante do ensino fundamental, houve uma ocasião em que se desentendeu com um colega de classe e acertou-lhe um soco. O ‘castigo’ foi uma estadia na biblioteca, e posteriormente o leitor passou a crítico literário e escritor.

Sidney questiona como são as leituras do ex crítico (Sanches Neto manteve uma coluna na Gazeta do Povo de 1993 a 2012), e este responde que as divide em frias e quentes. “As leituras frias, pragmáticas, ou leituras de desmontagem. São informativas, [servem] para recolher material para determinado personagem, para compreensão do mecanismo narrativo”, explica.

A outra classificação de leitura é chamada ‘quente’. “São as grandes leituras, dos irmãos de alma. Quando leio esses autores, aqueles autores me leem, é uma leitura que modifique ou intensifique minha maneira de ser”, afirma Miguel. “O leitor é a soma de todos os livros que leu, nós somos uma biblioteca”.

Rocha comenta sobre a literatura como máquina de replicar discursos, o que pode ser interpretado tanto como referência ao citado livro quanto a uma ‘função’ da escrita; e pergunta ao convidado como é o processo de escrita. Este responde que a escrita é “ato de juntar, escolher [palavras], ato que nos coloca no lugar do outro. Quanto mais eu leio, mais estou experimentando-me noutra identidade”.

O mediador questiona – “o que significa para o leitor saber o que o escritor leu?”. Por resposta, ele e plateia ouvem que é como se o leitor pudesse compartilhar a mesma experiência de leitura ao saber e ler o que um escritor leu, e também que é como se o leitor quisesse ser um pouco quem admira.

Esta admiração se origina, em parte, não apenas no conteúdo da obra de um escritor, mas também em declarações destes sobre os atos de escrita e leitura. Sidney Rocha pergunta se Miguel Sanches Neto acredita na literatura como algo salvador, e a resposta deste é que, ao viajar, têm-se as sensações dos livros. O convidado exemplifica que, ao se ler sobre um cheiro, ou local, e depois ter contato com ele, é como se o leitor já conhecesse aquilo, porque há o contato por meio da leitura e “depois o reconhecimento na realidade”. “A vida há na realidade no que em mim são apenas sensações, como se fossem ‘senhas’ de relacionamento com a sociedade”. Entre leituras, reconhecimentos e sensações, forma-se uma identidade.