segunda-feira, 19 de agosto de 2013

“Eu não funciono” - a mecânica da escrita de Gonçalo Tavares - Litercultura 2013

O mediador Flávio Stein começa a segunda sessão do Litercultura, na Sociedade Garibaldi, na tarde de 17 de agosto de 2013, se valendo de comparação semelhante a que Mario Helio fez quando apresentou Alberto Manguel durante a primeira sessão, na noite anterior: a vantagem de se apresentar um grande autor é não precisar apresentá-lo.  Sem olhar para Stein, o convidado passeia calmamente com uma caneta por um caderno.

Uma personagem se põe a “aproveitar para se concentrar mentalmente nas suas investigações geométricas”, de acordo com leitura de um trecho de O Senhor Brecht; como se buscasse algum silêncio para atividade em particular. Stein pergunta a Gonçalo Tavares como ocorre o diálogo entre diversas vozes em seus livros. O escritor comenta sobre o que chamou transição literária, que se dá a partir do diálogo com outras vozes – as dos escritores que vieram antes.

“Todos os que escrevem não devem ter a ilusão de que somos os primeiros escritores do mundo”. Tavares menciona Fiódor Dostoiévski, e enfatiza: “se não soubermos o que ele escreveu, é como se estivéssemos a escrever na época dele”. Cita a epopeia, em especial a de Camões, e completa : “Olhar para o que foi feito como algo ultrapassado é ideia de quem não tem imaginação”. O diálogo do autor de Jerusalém com obras do passado é ousado, pois “escrevo para resgatar a marca do ultrapassado, o antigo é que muitas vezes nos surpreende”.

Gonçalo diz considerar a própria escrita fria, e não é “grande entusiasta de surpresas”, as considera “qualquer coisa que tenha duração mínima, nada morre mais rapidamente que uma surpresa”. A despeito desta fala, ele as pronuncia sem exagero ou raiva, em um tom de voz tranquilo. Seu diálogo com as obras do passado não é em tom de nostalgia, e somado a essa falta de gosto por surpresas (“nos meus romances está claro quem morreu e quem matou”), fazem parte do que ele preza- “gosto da ideia de que a pessoa leia e sinta”.

Mas o que é exatamente o que Gonçalo Tavares aprecia? Flávio Stein pergunta como funciona a ‘máquina [de escrever]’ Tavares, mas não há resposta direta de imediato. O escritor comenta como as máquinas entraram em nosso vocabulário, em destaque ao termo funcional – “funcional é algo que vem das máquinas e não dos homens; quando estamos a dizer que alguém está mal dizemos que ele não funciona bem”.

Mas ele retorna rápido – “em resposta a sua pergunta, eu não funciono”. Otimista, afirma que “escritor é quem escreve, publicação é outra coisa”. Neste ‘não funcionamento particular’, escreveu muito dos 18 aos 30 anos, mas não se preocupou em ter algo publicado antes dos 30. Quando manda algo para avaliação, é sempre após quatro ou cinco anos após a primeira versão.

E este processo de escrita, que Tavares diz ser hipnótico, é algo próximo a um duelo entre dois objetos.  “A janela e a cadeira são inimigas” – como se o mundo ‘lá fora’ [da escrita] gritasse mais alto que a necessidade de escrever. “É impossível fazer algo com tanta densidade sendo interrompido”, afirma. A despeito desta exigência, Tavares diz que “o mais difícil é sentar [para escrever]”.


O juízo crítico de Gonçalo é exposto novamente ao responder outra pregunta de Flávio Stein – se a literatura pode mudar essa “realidade da máquina”. “Um livro não resolve”,  ele começa, “mas [acredito que] muitos resolvem”; “a pessoa que lê fica mais lucida”. Relacionando a já mencionada ideia do autor, de que aprecia o sentimento do leitor, encontra-se explicação quando ele emenda que “ a lucidez pode ser interpretada por um momento durante a leitura em que a pessoa [está lendo e] levanta a cabeça, como se aquilo a tivesse impactado”.  E ele diz não funcionar.