O mediador Flávio Stein começa a segunda
sessão do Litercultura, na Sociedade Garibaldi, na tarde de 17 de agosto de
2013, se valendo de comparação semelhante a que Mario Helio fez quando
apresentou Alberto Manguel durante a primeira sessão, na noite anterior: a
vantagem de se apresentar um grande autor é não precisar apresentá-lo. Sem olhar para Stein, o convidado passeia
calmamente com uma caneta por um caderno.
Uma personagem se põe a “aproveitar para se
concentrar mentalmente nas suas investigações geométricas”, de acordo com
leitura de um trecho de O Senhor Brecht; como se buscasse algum silêncio para
atividade em particular. Stein pergunta a Gonçalo Tavares como ocorre o diálogo
entre diversas vozes em seus livros. O escritor comenta sobre o que chamou
transição literária, que se dá a partir do diálogo com outras vozes – as dos
escritores que vieram antes.
“Todos os que escrevem não devem ter a ilusão
de que somos os primeiros escritores do mundo”. Tavares menciona Fiódor
Dostoiévski, e enfatiza: “se não soubermos o que ele escreveu, é como se
estivéssemos a escrever na época dele”. Cita a epopeia, em especial a de
Camões, e completa : “Olhar para o que foi feito como algo ultrapassado é ideia
de quem não tem imaginação”. O diálogo do autor de Jerusalém com obras do
passado é ousado, pois “escrevo para resgatar a marca do ultrapassado, o antigo
é que muitas vezes nos surpreende”.
Gonçalo diz considerar a própria escrita fria,
e não é “grande entusiasta de surpresas”, as considera “qualquer coisa que
tenha duração mínima, nada morre mais rapidamente que uma surpresa”. A despeito
desta fala, ele as pronuncia sem exagero ou raiva, em um tom de voz tranquilo.
Seu diálogo com as obras do passado não é em tom de nostalgia, e somado a essa
falta de gosto por surpresas (“nos meus romances está claro quem morreu e quem
matou”), fazem parte do que ele preza- “gosto da ideia de que a pessoa leia e
sinta”.
Mas o que é exatamente o que Gonçalo Tavares
aprecia? Flávio Stein pergunta como funciona a ‘máquina [de escrever]’ Tavares,
mas não há resposta direta de imediato. O escritor comenta como as máquinas
entraram em nosso vocabulário, em destaque ao termo funcional – “funcional é
algo que vem das máquinas e não dos homens; quando estamos a dizer que alguém
está mal dizemos que ele não funciona bem”.
Mas ele retorna rápido – “em resposta a sua
pergunta, eu não funciono”. Otimista, afirma que “escritor é quem escreve,
publicação é outra coisa”. Neste ‘não funcionamento particular’, escreveu muito
dos 18 aos 30 anos, mas não se preocupou em ter algo publicado antes dos 30. Quando
manda algo para avaliação, é sempre após quatro ou cinco anos após a primeira
versão.
E este processo de escrita, que Tavares diz
ser hipnótico, é algo próximo a um duelo entre dois objetos. “A janela e a cadeira são inimigas” – como se
o mundo ‘lá fora’ [da escrita] gritasse mais alto que a necessidade de
escrever. “É impossível fazer algo com tanta densidade sendo interrompido”,
afirma. A despeito desta exigência, Tavares diz que “o mais difícil é sentar
[para escrever]”.
O juízo crítico de Gonçalo é exposto
novamente ao responder outra pregunta de Flávio Stein – se a literatura pode
mudar essa “realidade da máquina”. “Um livro não resolve”, ele começa, “mas [acredito que] muitos
resolvem”; “a pessoa que lê fica mais lucida”. Relacionando a já mencionada
ideia do autor, de que aprecia o sentimento do leitor, encontra-se explicação
quando ele emenda que “ a lucidez pode ser interpretada por um momento durante
a leitura em que a pessoa [está lendo e] levanta a cabeça, como se aquilo a
tivesse impactado”. E ele diz não
funcionar.