Mochilas são extensões portáteis das pessoas.
Uma olhada quando seus donos pausam o andar, próximos a entrada de salas,
faculdades, empresas, bibliotecas ou quaisquer outros locais e tiram algo
delas, e pode-se imaginar que vida e histórias a pessoa leva consigo nas
costas.
No auditório da Sociedade Garibaldi, um homem
leva sua mochila até o palco, e enquanto tira seu conteúdo e o põe no chão,
fala para a plateia a sua frente. “Este aqui foi indicação de um amigo, uma
outra pessoa me recomendou O Estrangeiro [de Albert Camus] e um outro", e segue
contando de suas últimas leituras, a pilha de livros próxima a seu pé direito.
E assim Marcelo Almeida começa uma sessão do
Conversa Entre Amigos, programa de incentivo a leitura de sua criação. O grupo
lê um livro e se encontra para dialogar sobre a obra, ocasionalmente na
presença do autor. Laurentino Gomes, Carola Saavedra e Mia Couto estão entre os
autores cuja produção foi debatida pelos participantes, que também se reuniram
para conversar sobre As Brasas, de Sándor Márai.
Naquela manhã de 17 de agosto de 2013, o
Conversa estava incluso na programação do Litercultura, cuja pré-estreia foi em
abril, com a vinda de John Maxwell Coetzee, autor de Desonra, Infância de Jesus
e Homem Lento, e este foi lido pelo referido grupo. E o livro em questão era A
Contadora de Histórias, de Herman Riviera Letelier.
Almeida conta sua impressões acerca da
história, que considerou “tocante”; comenta sobre as personagens da família da
protagonista, todos com nomes iniciados pela letra eme, e outros detalhes. Os
livros da pilha a seus pés estão visualmente fechados, mas em um notavam-se
visíveis sinais de manuseio: capa parcialmente aberta, páginas que insistiam em
não ficarem fechadas após a leitura, seu dono o pega e lê para o público. Escolhe
um trecho no qual o pai da protagonista diz “não me falem dessa sirigaita”, ao
se referir a esposa que o abandonara, e se tranca em um quarto por horas a fio.
Menções a trecho e outro, abre espaço para
que os participantes contem as próprias histórias a partir da história. Uma mão
levantada em um canto da plateia, uma mulher conta que, durante a leitura,
lembrou-se dos antigos permanentes – quando a pessoa comprava um ingresso para
o cinema, e tinha direito a assistir uma série de filmes no local.
Outra senhora fala, a voz audível mesmo sem
microfone, e relata que o livro a remeteu a infância. Morava em uma cidade
interiorana, e o cinema era o principal – e único – lazer. Não apenas pelos
filmes, mas o local também sediava outras atividades, concursos de miss e
teatro entre elas. Porém, com a chegada da televisão, gradativamente o cinema
perdeu o posto, e os habitantes passaram a frequentar as casas de quem possuía
a então novidade.
De impressão a outra dos que pedem a voz,
observa-se a essência do programa. Um diálogo livre, tanto quem se identificou com todo ou parte da ficção e até quem não gostou do
livro analisado pode falar, diretamente sobre o enredo em si ou sobre uma
lembrança ocasionada pela leitura. De página a outra, acontece o
Conversa entre Amigos.