domingo, 18 de agosto de 2013

Contadores de Filmes – Conversa entre Amigos no Litercultura 2013

Mochilas são extensões portáteis das pessoas. Uma olhada quando seus donos pausam o andar, próximos a entrada de salas, faculdades, empresas, bibliotecas ou quaisquer outros locais e tiram algo delas, e pode-se imaginar que vida e histórias a pessoa leva consigo nas costas.

No auditório da Sociedade Garibaldi, um homem leva sua mochila até o palco, e enquanto tira seu conteúdo e o põe no chão, fala para a plateia a sua frente. “Este aqui foi indicação de um amigo, uma outra pessoa me recomendou O Estrangeiro [de Albert Camus] e um outro", e segue contando de suas últimas leituras, a pilha de livros próxima a seu pé direito.

E assim Marcelo Almeida começa uma sessão do Conversa Entre Amigos, programa de incentivo a leitura de sua criação. O grupo lê um livro e se encontra para dialogar sobre a obra, ocasionalmente na presença do autor. Laurentino Gomes, Carola Saavedra e Mia Couto estão entre os autores cuja produção foi debatida pelos participantes, que também se reuniram para conversar sobre As Brasas, de Sándor Márai.

Naquela manhã de 17 de agosto de 2013, o Conversa estava incluso na programação do Litercultura, cuja pré-estreia foi em abril, com a vinda de John Maxwell Coetzee, autor de Desonra, Infância de Jesus e Homem Lento, e este foi lido pelo referido grupo. E o livro em questão era A Contadora de Histórias, de Herman Riviera Letelier.

Almeida conta sua impressões acerca da história, que considerou “tocante”; comenta sobre as personagens da família da protagonista, todos com nomes iniciados pela letra eme, e outros detalhes. Os livros da pilha a seus pés estão visualmente fechados, mas em um notavam-se visíveis sinais de manuseio: capa parcialmente aberta, páginas que insistiam em não ficarem fechadas após a leitura, seu dono o pega e lê para o público. Escolhe um trecho no qual o pai da protagonista diz “não me falem dessa sirigaita”, ao se referir a esposa que o abandonara, e se tranca em um quarto por horas a fio.

Menções a trecho e outro, abre espaço para que os participantes contem as próprias histórias a partir da história. Uma mão levantada em um canto da plateia, uma mulher conta que, durante a leitura, lembrou-se dos antigos permanentes – quando a pessoa comprava um ingresso para o cinema, e tinha direito a assistir uma série de filmes no local.

Outra senhora fala, a voz audível mesmo sem microfone, e relata que o livro a remeteu a infância. Morava em uma cidade interiorana, e o cinema era o principal – e único – lazer. Não apenas pelos filmes, mas o local também sediava outras atividades, concursos de miss e teatro entre elas. Porém, com a chegada da televisão, gradativamente o cinema perdeu o posto, e os habitantes passaram a frequentar as casas de quem possuía a então novidade.


De impressão a outra dos que pedem a voz, observa-se a essência do programa. Um diálogo livre, tanto quem se identificou com todo ou parte da ficção e até quem não gostou do livro analisado pode falar, diretamente sobre o enredo em si ou sobre uma lembrança ocasionada pela leitura. De página a outra, acontece o Conversa entre Amigos.