terça-feira, 20 de agosto de 2013

Palavras, Palavrinhas e Palavrões – Silio Boccanera e Ana Maria Machado no Litercultura 2013


Ministério da Verdade. Inimigos do momento. Big Brother – não o televisivo, mas o original do livro 1984. E um termo chave: novilíngua. Citando o livro de George Orwell, Silio Boccanera iniciou a sexta sessão do Litercultura, na Sociedade Garibaldi, na noite de 17 de agosto de 2013. “[Há] distorção de palavras para disfarçar a realidade”, alertando que isso ocorre no mundo fora do livro- o nosso.

Rememora noticiários e seus termos.  “Técnica ampliada de interrogatório, ou seja, tortura. O ex-presidente dos Estados Unidos diz que o ataque ao Irã foi uma retaliação antecipada.” Ao discorrer sobre o quanto expressões e palavras mascaram situações, seu tom de voz pode soar irônico; impressão logo desmentida, se aproxima da indignação. Cita a Coreia do Norte, sobre a qual afirma “o cidadão não tem voz, e é autoproclamada democracia”.  “Existe jogo de palavras com uso político, palavras capazes de explicar o poder são ignoradas”.

Ainda recorrendo ao material de George Orwell, cita seis dicas deste em relação a escrita. “Nunca usar a mesma metáfora; cuidar no uso de palavras longas e curtas; cortar palavras; não usar voz passiva quando se pode usar a voz ativa; evitar estrangeirismos; e quando necessário quebrar qualquer uma dessas regras”. Ao que ele fala em cortar palavras, sua colega Ana Maria Machado sai do silêncio e comenta sobre essa ação, mas cita Carlos Drummond de Andrade: “escrever é cortar palavras”.

Após isto, ela prossegue. “Substituição de material pétreo do palácio Capanema;  vão trocar as pedras. Em um currículo escolar, há uma atividade lúdica de psicomotricidade aquática, com pedido para que as crianças levem trajes de banho. É um banho de mangueira.” Ela conta uma situação em que um menino queria aprontar com outro, e descobriu o calcanhar de acrílico do alvo.

Silio Boccanera comenta uma manchete. “O Papa vai fazer vários santos – ele vai canonizar uns três”. Ana Maria Machado conta o olhar de um francês sobre o Brasil, que ficou impressionado com a maneira pela qual situações cotidianas são explicadas : “ele acha estranho [as pessoas falarem] ‘o sistema caiu’ ”. Caiu aonde? , ela acrescenta, irreverente. Ao encerramento da sessão, dividida entre o enfoque jornalístico de Boccanera e do tom involuntariamente cômico de Machado, um olhar pela plateia revelou que ninguém caiu. Mas se fosse uma pessoa, a língua portuguesa, tão atingida por vícios e enganos, teria de ficar longe das janelas antes que alguém a defenestrasse.