Ministério da Verdade. Inimigos do momento.
Big Brother – não o televisivo, mas o original do livro 1984. E um termo chave:
novilíngua. Citando o livro de George Orwell, Silio Boccanera iniciou a sexta
sessão do Litercultura, na Sociedade Garibaldi, na noite de 17 de agosto de
2013. “[Há] distorção de palavras para disfarçar a realidade”, alertando que
isso ocorre no mundo fora do livro- o nosso.
Rememora noticiários e seus termos. “Técnica ampliada de interrogatório, ou seja,
tortura. O ex-presidente dos Estados Unidos diz que o ataque ao Irã foi uma
retaliação antecipada.” Ao discorrer sobre o quanto expressões e palavras
mascaram situações, seu tom de voz pode soar irônico; impressão logo
desmentida, se aproxima da indignação. Cita a Coreia do Norte, sobre a qual
afirma “o cidadão não tem voz, e é autoproclamada democracia”. “Existe jogo de palavras com uso político,
palavras capazes de explicar o poder são ignoradas”.
Ainda recorrendo ao material de George
Orwell, cita seis dicas deste em relação a escrita. “Nunca usar a mesma
metáfora; cuidar no uso de palavras longas e curtas; cortar palavras; não usar
voz passiva quando se pode usar a voz ativa; evitar estrangeirismos; e quando
necessário quebrar qualquer uma dessas regras”. Ao que ele fala em cortar
palavras, sua colega Ana Maria Machado sai do silêncio e comenta sobre essa ação,
mas cita Carlos Drummond de Andrade: “escrever é cortar palavras”.
Após isto, ela prossegue. “Substituição de
material pétreo do palácio Capanema; vão
trocar as pedras. Em um currículo escolar, há uma atividade lúdica de
psicomotricidade aquática, com pedido para que as crianças levem trajes de banho.
É um banho de mangueira.” Ela conta uma situação em que um menino queria
aprontar com outro, e descobriu o calcanhar de acrílico do alvo.
Silio Boccanera comenta uma manchete. “O Papa
vai fazer vários santos – ele vai canonizar uns três”. Ana Maria Machado conta
o olhar de um francês sobre o Brasil, que ficou impressionado com a maneira
pela qual situações cotidianas são explicadas : “ele acha estranho [as pessoas
falarem] ‘o sistema caiu’ ”. Caiu aonde? , ela acrescenta, irreverente. Ao
encerramento da sessão, dividida entre o enfoque jornalístico de Boccanera e do
tom involuntariamente cômico de Machado, um olhar pela plateia revelou que
ninguém caiu. Mas se fosse uma pessoa, a língua portuguesa, tão atingida por
vícios e enganos, teria de ficar longe das janelas antes que alguém a
defenestrasse.