segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Além da Literatura – Seminário na Semana Literária Sesc 2013

Noite de 18 de setembro, quarta-feira. A Semana Literária Sesc 2013 prossegue, simultânea a XI Feira Universitária UFPR. No auditório montado a frente das escadarias do campus central da UFPR, pessoas que venceram o gelado clima da capital acomodavam-se em seus lugares, aguardando os ocupantes das quatro poltronas brancas colocadas em frente ao público começassem o seminário.

Flavio Stein, mediador, apresenta os convidados e o tema, O Desafio de Construir Leitores. “O leitor se constrói na infância, entre a casa e a escola”, explica, e pergunta aos três palestrantes, ambos sentados em poltronas a sua direita, como se dá a construção do leitor.

“A escola privilegia modelo de decodificação, os alunos são incentivados a ler para encontrar respostas nos textos e não a ler de fato”, afirma a professora Lucia Cheren. Para ela a leitura é mais ampla do que dessa busca: “ler é buscar ponto de vista de quem organiza, a informação nunca é neutra. É preciso não confundir leitura com simplificação”. Seu raciocínio, descrito a partir de um texto por ela escrito e segurado em mãos, vai além da pura leitura; de acordo com ela devemos discutir “como tornar-se letrado, não apenas alfabetizado. Fala-se mais do texto literário, que aproxima-se da aventura, mas não de formação de ponto de vista”.

Cheren prossegue em sua leitura. “Há professores que percebem problemas graves de leitura, não há concentração possível”, ela questiona como é a casa deste estudante- há espaço para o estudo? O bairro onde mora é seguro? Há outras opções de atividade além da leitura? A professora cita um dado do Retratos da Leitura 2011- “a mãe em geral é mais leitora que o pai”. Somados, tais itens influenciam a formação do estudante, e acrescenta que há casos em que o indivíduo é leitor enquanto estudante escolar, mas, sob as condições mencionadas, “esse leitor escolar tem grandes chances de se tornar um não –leitor”.

Flavio Stein passa a vez para Maria Antonieta Cunha, doutora em Letras, indaga-a sobre programas de leitura. “Sob qualquer ponto de vista, a leitura é um bem que deve ser levado a todos. E como todo bem comum, deve ser tratado como política pública” ela afirma. Entre o que chama de conquista através da leitura, avalia não apenas a ampliação da capacidade de pensar, mas também o desenvolvimento pessoal. Assim como sua colega ministrante Cheren, Maria Antonieta se vale de estatística: “em 2007, o principal incentivador era a mãe; em 2011, era o professor”. A despeito disso, ela enfatiza: “a escola está falhando na formação de leitores. Eles não são formados pela biblioteca da escola”.

O mediador passa a palavra ao terceiro convidado, o escritor Ronaldo Correia de Brito, e pergunta seu parecer sobre esta questão. “Estou aqui no lugar de leitor, sou um escritor que espera chance de apenas ler e entrar nos livros”, se apresenta, a leveza quase em contraste contraponto ao teor acadêmico das outras convidadas. “Minha experiência me tornou alguém muito ligado a livros, é quase um vício”. Antes de responder diretamente a pergunta de Stein, Correia fala que houve uma perda da narrativa oral, e junto com ela a da tradição mítica. “O homem necessita narrar-se, nossas sociedades ingressaram na pós-modernidade, mas perderam tradição mítica. Houve um corte sem volta na forma de afirmar identidade pela narrativa oral”. Brito cita um exemplo de uma sociedade inglesa, na qual aconteceu uma divisão entre os habitantes. O primeiro grupo constituía-se por uma cultura inglesa culta e letrada, o segundo por uma cultura tribal inculta narradora. Os daquele informavam-se isoladamente, enquanto os deste relacionavam-se e retransmitiam o conhecimento entre si. Correia não reclama da considerada cultura letrada, mas não a considerada excludente da tradição oral.

Stein comenta sobre um retorno a oralidade, presente na produção do escritor. Seria “para permitir que o leitor ouça a própria voz”?  Ronaldo Correia menciona a cultura zen budista, na qual os artistas nunca assinam suas obras - elas existem no instante em que alguém as vê. “Um livro fechado em uma biblioteca é um obra morta, só ganha vida através de quem o lê”. Quanto a voz, a partir do que ele afirma pode-se interpretar que está ligada a formação. “Nossa formação é tão fragmentada quanto um achado de arqueólogo. Não pense que você é um eu que cresceu, e sim algo que se formou a partir de fragmentos”. E insiste na oralidade, pois considera que os exercícios de fala, como chamou, podem “recuperar a sociedade”.

Eis que Maria Antonieta Cunha complementa, contando um escritor que conhecera: “tornou-se escritor ouvindo narrativas da avó, que era negra, vinha da senzala, e 100% analfabeta”. Não exclui a oralidade, mas ressalta que há diferenças entre alfabetizar e formar cabeças, ressaltando que se devem buscar “dados além da pura alfabetização”.

“E o que a gente faz com este público imenso adulto que não lê?”, diz o mediador. Lucia Cheren conta que “as universidades se elitizaram, se relacionam com as escolas”. Além de considerar que estes dois meios devem interagir, diz serem importantes “novas estratégias para que a leitura e a escrita tenham significado”. “Sabemos mais sobre alfabetização do que sobre formar leitores para a vida inteira”, adiciona Maria Antonieta Cunha. “O mistério da criação do leitor é absolutamente individual, não há caminhos que funcionem para todos”, completa. Ronaldo Correia de Brito diz que “é preciso construir além da literatura”.