Noite de 18 de setembro, quarta-feira. A Semana
Literária Sesc 2013 prossegue, simultânea a XI Feira Universitária UFPR. No
auditório montado a frente das escadarias do campus central da UFPR, pessoas
que venceram o gelado clima da capital acomodavam-se em seus lugares,
aguardando os ocupantes das quatro poltronas brancas colocadas em frente ao
público começassem o seminário.
Flavio Stein, mediador, apresenta os
convidados e o tema, O Desafio de Construir Leitores. “O leitor se constrói na
infância, entre a casa e a escola”, explica, e pergunta aos três palestrantes,
ambos sentados em poltronas a sua direita, como se dá a construção do leitor.
“A escola privilegia modelo de decodificação,
os alunos são incentivados a ler para encontrar respostas nos textos e não a
ler de fato”, afirma a professora Lucia Cheren. Para ela a leitura é mais ampla
do que dessa busca: “ler é buscar ponto de vista de quem organiza, a informação
nunca é neutra. É preciso não confundir leitura com simplificação”. Seu
raciocínio, descrito a partir de um texto por ela escrito e segurado em mãos,
vai além da pura leitura; de acordo com ela devemos discutir “como tornar-se letrado,
não apenas alfabetizado. Fala-se mais do texto literário, que aproxima-se da
aventura, mas não de formação de ponto de vista”.
Cheren prossegue em sua leitura. “Há
professores que percebem problemas graves de leitura, não há concentração
possível”, ela questiona como é a casa deste estudante- há espaço para o
estudo? O bairro onde mora é seguro? Há outras opções de atividade além da
leitura? A professora cita um dado do Retratos da Leitura 2011- “a mãe em geral
é mais leitora que o pai”. Somados, tais itens influenciam a formação do estudante,
e acrescenta que há casos em que o indivíduo é leitor enquanto estudante
escolar, mas, sob as condições mencionadas, “esse leitor escolar tem grandes
chances de se tornar um não –leitor”.
Flavio Stein passa a vez para Maria Antonieta
Cunha, doutora em Letras, indaga-a sobre programas de leitura. “Sob qualquer ponto
de vista, a leitura é um bem que deve ser levado a todos. E como todo bem
comum, deve ser tratado como política pública” ela afirma. Entre o que chama de
conquista através da leitura, avalia não apenas a ampliação da capacidade de
pensar, mas também o desenvolvimento pessoal. Assim como sua colega ministrante
Cheren, Maria Antonieta se vale de estatística: “em 2007, o principal
incentivador era a mãe; em 2011, era o professor”. A despeito disso, ela enfatiza:
“a escola está falhando na formação de leitores. Eles não são formados pela
biblioteca da escola”.
O mediador passa a palavra ao terceiro
convidado, o escritor Ronaldo Correia de Brito, e pergunta seu parecer sobre
esta questão. “Estou aqui no lugar de leitor, sou um escritor que espera chance
de apenas ler e entrar nos livros”, se apresenta, a leveza quase em contraste
contraponto ao teor acadêmico das outras convidadas. “Minha experiência me
tornou alguém muito ligado a livros, é quase um vício”. Antes de responder
diretamente a pergunta de Stein, Correia fala que houve uma perda da narrativa
oral, e junto com ela a da tradição mítica. “O homem necessita narrar-se,
nossas sociedades ingressaram na pós-modernidade, mas perderam tradição mítica.
Houve um corte sem volta na forma de afirmar identidade pela narrativa oral”.
Brito cita um exemplo de uma sociedade inglesa, na qual aconteceu uma divisão
entre os habitantes. O primeiro grupo constituía-se por uma cultura inglesa
culta e letrada, o segundo por uma cultura tribal inculta narradora. Os daquele
informavam-se isoladamente, enquanto os deste relacionavam-se e retransmitiam o
conhecimento entre si. Correia não reclama da considerada cultura letrada, mas
não a considerada excludente da tradição oral.
Stein comenta sobre um retorno a oralidade,
presente na produção do escritor. Seria “para permitir que o leitor ouça a
própria voz”? Ronaldo Correia menciona a
cultura zen budista, na qual os artistas nunca assinam suas obras - elas
existem no instante em que alguém as vê. “Um livro fechado em uma biblioteca é
um obra morta, só ganha vida através de quem o lê”. Quanto a voz, a partir do
que ele afirma pode-se interpretar que está ligada a formação. “Nossa formação
é tão fragmentada quanto um achado de arqueólogo. Não pense que você é um eu
que cresceu, e sim algo que se formou a partir de fragmentos”. E insiste na
oralidade, pois considera que os exercícios de fala, como chamou, podem
“recuperar a sociedade”.
Eis que Maria Antonieta Cunha complementa,
contando um escritor que conhecera: “tornou-se escritor ouvindo narrativas da
avó, que era negra, vinha da senzala, e 100% analfabeta”. Não exclui a
oralidade, mas ressalta que há diferenças entre alfabetizar e formar cabeças,
ressaltando que se devem buscar “dados além da pura alfabetização”.
“E o que a gente faz com este público imenso
adulto que não lê?”, diz o mediador. Lucia Cheren conta que “as universidades
se elitizaram, se relacionam com as escolas”. Além de considerar que estes dois
meios devem interagir, diz serem importantes “novas estratégias para que a
leitura e a escrita tenham significado”. “Sabemos mais sobre alfabetização do
que sobre formar leitores para a vida inteira”, adiciona Maria Antonieta Cunha.
“O mistério da criação do leitor é absolutamente individual, não há caminhos
que funcionem para todos”, completa. Ronaldo Correia de Brito diz que “é
preciso construir além da literatura”.