segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Compreensão Cruzada – Lourival Holanda e Marcelo Coelho na Semana Literária Sesc 2013

Quarta-feira, 18 de setembro em Curitiba. A Semana Literária Sesc, ocorrendo simultaneamente a XI Feira Universitária UFPR, abriu as 9 horas, e gradativamente mais pessoas adentraram a tenda montada na Praça Santos Andrade. Funcionários dos estandes de livrarias e editoras ajeitam livros nos balcões, obras literárias lado a lado com grossos volumes acadêmicos.

No auditório, montado na escadaria do campus central da UFPR, mais uma mesa-redonda começa. O primeiro a falar é Rogério Pereira, mediador, que apresenta o tema “Leituras Cruzadas”, comentando sobre leituras de materiais relacionados à literatura ou não, o que ocasiona uma divisão entre leitores ‘literários’ e ‘pragmáticos’, que leem material essencialmente técnico. “O que é decisivo na construção do leitor?” questiona aos dois convidados.

“Geralmente se fala sobre o que transcende a literatura, mas quero pensar o oposto, no que a antecede”, diz Lourival Holanda. Para ele, na infância se inicia a percepção não apenas da leitura, mas da vida em si. “Graciliano Ramos escreveu Infância e só depois os outros livros, como se quisesse se livrar disto. A criança vê o adulto como mistério, mas o adulto também vê a criança com mistério”. Em tom de deslumbramento, ele afirma que em meio a esta inversão de papéis há ocasiões em que “a gente rouba da infância o que precisa para escrever”.

Marcelo Coelho, segundo convidado deste debate, aborda os livros considerados infantis de maneira crítica: “tem livro que não é para ler, é para assoprar, ou virar boia, parece brinquedo, e a ilustração é tudo”. Coelho conta algo que desaprova. “Muitos autores de livro infantil falam em tom de voz de criança quando estão falando com criança, como se subestimassem ela”. Igualmente crítico se mostra ao discorrer sobre o encontro leitor-autor: “não é a função do escritor encontrar seu leitor, se vai encontrar leitor não está fazendo literatura. Fazer literário é importante para si, a primeira pessoa com quem o autor se comunica é a si mesmo, o resto é mercado. Mercado de professor que lê livro infantil e empurra na criança, empurro-terapia literária”.

Mas “como o leitor vai encontrar a leitura?” questiona o mediador Rogério Pereira. “A escola deve estar preocupada com a formação”, adverte Lourival Holanda. De acordo com ele, o que a criança realmente aprende nós não sabemos. Emenda: “é preciso desenvolver o imaginário da criança, a autonomia de pensamento desde cedo. A escola ainda está vinculada a formação e consolação”.

“Existe gente que gosta de ler”, afirma Marcelo Coelho, “mas para muitas pessoas ler não é fundamental”. A frase poderia soar pessimista, mas foi pronunciada naturalmente, sem lamento. Ele conta uma história pessoal, diz que quando estava em idade escolar recebia muitos estímulos para jogar futebol, mas não conseguia gostar do esporte – e para ele a situação é semelhante em relação a leitura. “O problema é preencher a imaginação da criança, nenhuma criança nasce com imaginação fulgurante”.

“Não é ser ou não essencial, depende do que se entende por leitura”, retruca Holanda. Ele relaciona escrita e leitura à civilização – “Não existiria o mundo se não fosse Ilíada, Odisseia, Bíblia, Alcorão”, afirma, pois considera a leitura fundamental para decodificar os acontecimentos do mundo. Um processo que deve ser acompanhado pelo que Holanda chama deslumbramento, como ‘reverência’ a descoberta por meio da leitura.

Rogério Pereira indaga sobre esta capacidade de interpretar e questionar o mundo, dilatada pela leitura. “Talvez quem não goste de ler não se sinta bem frente ao arsenal de conhecimento da leitura”, responde Marcelo Coelho. Ele argumenta que alguns podem ter uma relação instrumental com a leitura, preferindo informações técnicas ao invés de obras literárias, as quais atribui uma possibilidade extra: “alguns preferem entender como uma coisa funciona do que entender como uma pessoa funciona, faz parte da variedade humana”. Quanto a Lourival Holanda, considera a leitura importante para desenvolver o potencial do imaginário, “a literatura faz [isso] melhor que outros meios. A literatura não tem discurso assertivo, não tem certezas, que nos envenenam”.

E a leitura em períodos específicos ou cronológicos, existe? É com tal indagação que o mediador prossegue. O primeiro a responder é Coelho, dizendo que há quem tenha “um pouco de medo de ler um livro realmente bom, um Fausto de Goethe ou a Divina Comédia de Dante Alighieri. Tem livros que caem na mão [do indivíduo] com 18 anos e parece a idade ideal”. Uma vez vencido tal medo, o leitor conhece o porquê de determinada obra manter a relevância.

Seu colega Lourival Holanda vê de outro ângulo. Chama parcela dos leitores de ‘utilitários’, por desejarem o que chama de domínio de área, não em tom crítico, mas por ter, aparentemente, outro foco. “Na literatura não há domínio, literatura é ‘despossessão’. A compreensão não nos cabe”. Despossessão através da literatura, e desenvolvimento do imaginário por meio dela, podem ser resumidos por uma palavra do otimista Lourival: transubstanciação. “Isso pode começar na infância, literatura é aposta”.


Marcelo Coelho diz que “o não entender faz parte. As vezes a literatura faz a gente reconhecer algo que sabia, mas não sabia que sabia. Explica, mas ultrapassa a capacidade de compreensão”. Mas não impede a aproximação.