“Acho que fui convidado por uma questão de
ordem alfabética”, declara Affonso Romano de Sant’Anna, ministrante da palestra
cujo nome serve de bússola a muitas das mesas-redondas por vir: “Cadê o
Leitor”. Assim ele iniciou a primeira palestra da Semana Literária Sesc, realizada
simultaneamente com a XI Feira Universitária do Livro, de 16 a 21 de setembro
de 2013, em Curitiba/PR.
Sant’ Anna comenta que tinha vindo a capital
paranaense em décadas passadas, mas “ninguém se lembra dos anos 70, quando
Curitiba começou a ser inventada.” Entre as invenções que compõem a cidade,
esta a estrutura física do auditório da citada feira: na Praça Santos Andrade,
em frente ao campus central da UFPR foi montada uma tenda, ocupando parte da
praça, na qual foram colocados estandes de livrarias e editoras, além do
auditório onde ocorreu esta palestra.
Distando dois passos do público, que a
despeito da torrencial chuva que desabava naquela noite de 16 de setembro lotou
o auditório, Romano adverte: “Vou falar coisas estranhas”. “Todo mundo sabe o
que é uma biblioteca, um leitor, o que é leitura. Só tem um detalhe- sabe mas
não sabe. Vamos ajudar a desmobilizar esses conceitos”. O raciocínio ‘desmobilizante’
é exposto por meio de algumas histórias que o escritor conta.
O construtor de Brasília, quando planejou a
estrutura junto com Niemeyer, foi questionado o porque de não existir
biblioteca na planta desta cidade. Ouviu como resposta ‘esse negócio de
biblioteca pública nunca deu certo no Brasil’. O palestrante relata uma segunda
história, do início da década de 90, quando foi presidente da Biblioteca
Nacional. Em avaliação de projetos relacionados a esta instituição, foi
informado de que a leitura não é problema do Ministério da Cultura, e sim do
Ministério da Educação.
Para Affonso Romano de Sant’Anna, qualquer
espaço público pode ser ocupado pela leitura. Entre os projetos de seu mandato
na Biblioteca Nacional, estão a leitura em hospitais, presídios e um
trem-biblioteca, iniciativas nas quais os livros eram levados a possíveis
leitores, independente de escolaridade ou moradia.
Romano cita um editor de grande livraria, que
declarou em entrevista “o problema do Brasil é que produz livros demais”.
“Temos que rever o conceito de livraria, que livraria virou outra coisa”,
afirma, descontente; “as principais editoras pagam para ter livro exposto na
melhor mesa. As livrarias passam por uma transformação muito grande, esse
espaço é dinheiro”.
Uma impressão possível sobre as falas de
Sant’Anna é de que sua indignação vem de um misto de descontentamentos tanto do
que ele presenciou, como as mencionadas histórias, quanto do que estudou. Como
se o Brasil pudesse fazer mais pela leitura.
“Em 1917, Monteiro Lobato trabalhou no Estadão,
e foi pesquisar sobre o Saci. Lobato começou a colher versões do Saci Pererê, e
escreveu o livro dele, que se tornou best-seller para a época”. Apesar dos
livros terem sido editados por empresas de fora do Brasil, Sant’Anna comenta
com entusiasmo sobre esta produção de Monteiro Lobato porque, a seus olhos,
este “conseguiu que livros fossem vendidos em qualquer ponto de leitura;
contatou formadores de opinião em Natal, em Ceará, outros lugares, sujeitos que
funcionassem como ponte”.
Considerando os projetos citados
anteriormente, cujos objetivos são levar a leitura e o livro aos leitores, essa
ponte foi criada por outro sujeito citado por Sant’Anna. Ele menciona Paulo
Freyre e seu método de alfabetização, constituído por usar palavras do
cotidiano dos alunos nas aulas, de forma a aproximá-los da
leitura.
“Leitura é uma coisa complexa”, afirma
Affonso Romano. “Estamos batalhando para que hajam leitores”. Tanto a batalha
quanto a complexidade da leitura são mostradas em mais uma história que o autor
conta –desta vez, uma do programa de leitura nos hospitais.
Em um hospital, um paciente que estava
internado no leito 14 recebeu um livro durante o tratamento. Após alguns dias
de medicação, o doutor por ele responsável dera-lhe alta, pois considerava-o
curado. Porém, o paciente do leito 14 não queria ir para casa porque não
terminou de ler. Ao comentar esse fato com outros colegas, o doutor foi
informado de que o enfermo era analfabeto. Em dúvida, foi perguntar ao
paciente, que confirmou. Sant’Anna finaliza esta história com a frase do
paciente, e diz, exagerando um pouco, que Guimarães Rosa teria pago por ela: o
doente do leito 16 lê, e eu leio na leitura dele.
“Todo mundo lê, tudo é leitura e
interpretação”, explica Romano, otimista. No início da palestra, ele afirmou
que alguns conceitos devem ser revistos. Seria a leitura uma ponte,
aproveitando-se das histórias que o autor contou? É uma interpretação – entre
muitas possíveis.