segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Batalhas pela Leitura – Affonso Romano de Sant’Anna na Semana Literária Sesc 2013

“Acho que fui convidado por uma questão de ordem alfabética”, declara Affonso Romano de Sant’Anna, ministrante da palestra cujo nome serve de bússola a muitas das mesas-redondas por vir: “Cadê o Leitor”. Assim ele iniciou a primeira palestra da Semana Literária Sesc, realizada simultaneamente com a XI Feira Universitária do Livro, de 16 a 21 de setembro de 2013, em Curitiba/PR.

Sant’ Anna comenta que tinha vindo a capital paranaense em décadas passadas, mas “ninguém se lembra dos anos 70, quando Curitiba começou a ser inventada.” Entre as invenções que compõem a cidade, esta a estrutura física do auditório da citada feira: na Praça Santos Andrade, em frente ao campus central da UFPR foi montada uma tenda, ocupando parte da praça, na qual foram colocados estandes de livrarias e editoras, além do auditório onde ocorreu esta palestra.

Distando dois passos do público, que a despeito da torrencial chuva que desabava naquela noite de 16 de setembro lotou o auditório, Romano adverte: “Vou falar coisas estranhas”. “Todo mundo sabe o que é uma biblioteca, um leitor, o que é leitura. Só tem um detalhe- sabe mas não sabe. Vamos ajudar a desmobilizar esses conceitos”. O raciocínio ‘desmobilizante’ é exposto por meio de algumas histórias que o escritor conta.

O construtor de Brasília, quando planejou a estrutura junto com Niemeyer, foi questionado o porque de não existir biblioteca na planta desta cidade. Ouviu como resposta ‘esse negócio de biblioteca pública nunca deu certo no Brasil’. O palestrante relata uma segunda história, do início da década de 90, quando foi presidente da Biblioteca Nacional. Em avaliação de projetos relacionados a esta instituição, foi informado de que a leitura não é problema do Ministério da Cultura, e sim do Ministério da Educação.

Para Affonso Romano de Sant’Anna, qualquer espaço público pode ser ocupado pela leitura. Entre os projetos de seu mandato na Biblioteca Nacional, estão a leitura em hospitais, presídios e um trem-biblioteca, iniciativas nas quais os livros eram levados a possíveis leitores, independente de escolaridade ou moradia.

Romano cita um editor de grande livraria, que declarou em entrevista “o problema do Brasil é que produz livros demais”. “Temos que rever o conceito de livraria, que livraria virou outra coisa”, afirma, descontente; “as principais editoras pagam para ter livro exposto na melhor mesa. As livrarias passam por uma transformação muito grande, esse espaço é dinheiro”.

Uma impressão possível sobre as falas de Sant’Anna é de que sua indignação vem de um misto de descontentamentos tanto do que ele presenciou, como as mencionadas histórias, quanto do que estudou. Como se o Brasil pudesse fazer mais pela leitura.

“Em 1917, Monteiro Lobato trabalhou no Estadão, e foi pesquisar sobre o Saci. Lobato começou a colher versões do Saci Pererê, e escreveu o livro dele, que se tornou best-seller para a época”. Apesar dos livros terem sido editados por empresas de fora do Brasil, Sant’Anna comenta com entusiasmo sobre esta produção de Monteiro Lobato porque, a seus olhos, este “conseguiu que livros fossem vendidos em qualquer ponto de leitura; contatou formadores de opinião em Natal, em Ceará, outros lugares, sujeitos que funcionassem como ponte”.

Considerando os projetos citados anteriormente, cujos objetivos são levar a leitura e o livro aos leitores, essa ponte foi criada por outro sujeito citado por Sant’Anna. Ele menciona Paulo Freyre e seu método de alfabetização, constituído por usar palavras do cotidiano dos alunos nas aulas, de forma a aproximá-los da leitura.

“Leitura é uma coisa complexa”, afirma Affonso Romano. “Estamos batalhando para que hajam leitores”. Tanto a batalha quanto a complexidade da leitura são mostradas em mais uma história que o autor conta –desta vez, uma do programa de leitura nos hospitais.

Em um hospital, um paciente que estava internado no leito 14 recebeu um livro durante o tratamento. Após alguns dias de medicação, o doutor por ele responsável dera-lhe alta, pois considerava-o curado. Porém, o paciente do leito 14 não queria ir para casa porque não terminou de ler. Ao comentar esse fato com outros colegas, o doutor foi informado de que o enfermo era analfabeto. Em dúvida, foi perguntar ao paciente, que confirmou. Sant’Anna finaliza esta história com a frase do paciente, e diz, exagerando um pouco, que Guimarães Rosa teria pago por ela: o doente do leito 16 lê, e eu leio na leitura dele.

“Todo mundo lê, tudo é leitura e interpretação”, explica Romano, otimista. No início da palestra, ele afirmou que alguns conceitos devem ser revistos. Seria a leitura uma ponte, aproveitando-se das histórias que o autor contou? É uma interpretação – entre muitas possíveis.