Tem que fisgar uma frase do autor, diz
Marcelino Freire durante as oficinas literárias em que leciona. Os estudantes delas
recebem um ‘patrono’ – um autor sobre o qual devem pesquisar obra e vida. Não
era o caso naquela manhã de sexta-feira, 20 de setembro, mas o público que
lotou o auditório da Semana Literária Sesc 2013 pôde aprender sobre Manoel
Carlos Karam, patrono do citado evento, apenas ouvindo Freire na palestra “Karam,
o irônico mordaz”.
Freire está sentado em uma poltrona branca, e
a sua direita está uma minúscula mesa de vidro, três livros empilhados e um
copo plástico com água sobre ela. Ele conta que escolhe autores de “uma seara
de quem escolheu a literatura como paixão, como ofício máximo e maldição”, por
vezes escritores cuja produção foi pouco conhecida – entre eles Jamil Snege,
que apresentou a cidade para o palestrante em décadas passadas.
Marcelino conta que durante uma dessas
oficinas, uma aluna perguntou “mas pode escrever dessa maneira?” ao estudar um
autor. Pode – e comenta sobre a mistura que Manoel Carlos Karam, fazia entre
teatro, quadrinhos, rádio e outras mídias. Ele pega um dos livros da mesa, lê
uma frase: “arranquei do dicionário a palavra paixão, carrego comigo”. “Karam
era movido por isso”, como se a escrita fosse a única coisa que pudesse fazer,
explica Freire. Um ofício exercido as cegas, como se a escrita se fizesse por
si.
“O texto está cheio de esquinas, você pode
encontrar um pente ou um cadáver. Você dobra a esquina, e não sabe o que tem no
próximo parágrafo”. Não dá para enquadrar
a literatura do Karam, você pensa uma coisa e é outra, diz Marcelino. Ele menciona
uma entrevista em que perguntaram ao homenageado autor um resumo do livro Cebola,
a qual respondeu ‘se eu pudesse resumir o livro em três linhas não teria
escrito 250 páginas’.
Com um segundo livro em mãos, Marcelino busca
uma frase noutra esquina da produção textual. “A felicidade não bate a porta. A felicidade
deixa um bilhete debaixo da porta. O bilhete dizia foda-se”, do Impostor no
Baile de Máscaras. Outra leitura, desta vez do Fontes Murmurantes: “temporada
de verão, a maré subiu – o mar, na tentativa de pegar os peixes que almoçamos”.
O palestrante conta uma tática que recomenda
aos alunos de suas oficinas: “joga um pitbull do sétimo andar. Vai ter que
fazer com que a história gire em torno disso, no mínimo vai desbloquear.” Está
com bloqueio? “Seus personagens não saem para tomar café?”, e volta a falar de
Karam, que se descrevia mais como leitor do que escritor, dono de uma
literatura sem estilo. E compara Manoel Carlos Karam a Machado de Assis – tudo
ao mesmo tempo agora. “Machado de Assis parava a história para dizer ‘vou ali e
já volto’, matava personagem com anúncio de velório, só não fazia colagem como
o Valêncio Xavier porque não podia a época”.
Marcelino Freire pega um livro, procura uma página
específica, mas enquanto não a encontra, brinca, olha para o copo plástico
d’água ao lado dos livros e diz que a palestra é um patrocínio de Serra da
Graciosa. “O Karam faria isso”, diz, entre risos seus e da plateia. O grande
escritor não escreve, compõe uma história, conta Freire, enfatizando a necessidade
de muita paixão prezando linguagem e humor para mostrar o quanto ridículo nós
somos.
“O leitor é coautor dos livros do Manoel
Carlos Karam, pode começar a ler em qualquer parte”, conta Freire. O patrono via
a literatura como um jogo, como se fosse mais fácil participar e divertir. E o
leitor é coautor dessa jogatina que vai de esquina a outra desenfreadamente.