quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Esquina do Texto – Marcelino Freire na Semana Literária Sesc 2013

Tem que fisgar uma frase do autor, diz Marcelino Freire durante as oficinas literárias em que leciona. Os estudantes delas recebem um ‘patrono’ – um autor sobre o qual devem pesquisar obra e vida. Não era o caso naquela manhã de sexta-feira, 20 de setembro, mas o público que lotou o auditório da Semana Literária Sesc 2013 pôde aprender sobre Manoel Carlos Karam, patrono do citado evento, apenas ouvindo Freire na palestra “Karam, o irônico mordaz”.

Freire está sentado em uma poltrona branca, e a sua direita está uma minúscula mesa de vidro, três livros empilhados e um copo plástico com água sobre ela. Ele conta que escolhe autores de “uma seara de quem escolheu a literatura como paixão, como ofício máximo e maldição”, por vezes escritores cuja produção foi pouco conhecida – entre eles Jamil Snege, que apresentou a cidade para o palestrante em décadas passadas.

Marcelino conta que durante uma dessas oficinas, uma aluna perguntou “mas pode escrever dessa maneira?” ao estudar um autor. Pode – e comenta sobre a mistura que Manoel Carlos Karam, fazia entre teatro, quadrinhos, rádio e outras mídias. Ele pega um dos livros da mesa, lê uma frase: “arranquei do dicionário a palavra paixão, carrego comigo”. “Karam era movido por isso”, como se a escrita fosse a única coisa que pudesse fazer, explica Freire. Um ofício exercido as cegas, como se a escrita se fizesse por si.

“O texto está cheio de esquinas, você pode encontrar um pente ou um cadáver. Você dobra a esquina, e não sabe o que tem no próximo parágrafo”. Não dá para enquadrar a literatura do Karam, você pensa uma coisa e é outra, diz Marcelino. Ele menciona uma entrevista em que perguntaram ao homenageado autor um resumo do livro Cebola, a qual respondeu ‘se eu pudesse resumir o livro em três linhas não teria escrito 250 páginas’.

Com um segundo livro em mãos, Marcelino busca uma frase noutra esquina da produção textual.  “A felicidade não bate a porta. A felicidade deixa um bilhete debaixo da porta. O bilhete dizia foda-se”, do Impostor no Baile de Máscaras. Outra leitura, desta vez do Fontes Murmurantes: “temporada de verão, a maré subiu – o mar, na tentativa de pegar os peixes que almoçamos”.

O palestrante conta uma tática que recomenda aos alunos de suas oficinas: “joga um pitbull do sétimo andar. Vai ter que fazer com que a história gire em torno disso, no mínimo vai desbloquear.” Está com bloqueio? “Seus personagens não saem para tomar café?”, e volta a falar de Karam, que se descrevia mais como leitor do que escritor, dono de uma literatura sem estilo. E compara Manoel Carlos Karam a Machado de Assis – tudo ao mesmo tempo agora. “Machado de Assis parava a história para dizer ‘vou ali e já volto’, matava personagem com anúncio de velório, só não fazia colagem como o Valêncio Xavier porque não podia a época”.

Marcelino Freire pega um livro, procura uma página específica, mas enquanto não a encontra, brinca, olha para o copo plástico d’água ao lado dos livros e diz que a palestra é um patrocínio de Serra da Graciosa. “O Karam faria isso”, diz, entre risos seus e da plateia. O grande escritor não escreve, compõe uma história, conta Freire, enfatizando a necessidade de muita paixão prezando linguagem e humor para mostrar o quanto ridículo nós somos.


“O leitor é coautor dos livros do Manoel Carlos Karam, pode começar a ler em qualquer parte”, conta Freire. O patrono via a literatura como um jogo, como se fosse mais fácil participar e divertir. E o leitor é coautor dessa jogatina que vai de esquina a outra desenfreadamente.