“Qual é a definição da crônica?”, indaga Luiz
Rebinski, mediador, aos dois cronistas que estão cada um a sua direita e
esquerda. A noite de 17 de setembro de 2013, após dois dias de pesada chuva em
Curitiba, abrigou uma mesa-redonda sobre a Crônica Nossa de Cada Dia, durante a
Semana Literária Sesc, simultânea a XI Feira Universitária UFPR. Mas a primeira
resposta ouvida pelo público que lotou o auditório não foi exatamente uma
definição.
“É bom que não saibam, que a gente vai
enrolando”, diz bem-humoradamente Xico Sá. “Quase um mix entre jornal e
literatura, colada no dia-a-dia, [enquanto] o conto tem sua cota de absurdo e
ficção”. A crônica brasileira é coloquial, diz ele, como se fosse uma cadeira
puxada para a conversa.
“Não dá para analisar definição, é um gênero
muito jovem”, fala Luís Henrique Pellanda. “A crônica deve muito a imprensa”, o
cronista menciona João do Rio e Olavo Bilac como influentes, além de Rubem
Braga, um “repórter que não saiba ser repórter” e escrevia crônicas.
“Escutei que a crônica absorve elementos da
ficção, em especial do conto”, diz Rebinski. Xico Sá complementa que a crônica
aborda toda temática, de comportamento a tragicomédia, como se houvesse “tema
por temporada”, de acordo com os assuntos em voga. É uma mudança do gênero, de
acordo com Sá. “Natural que a temática se diversifique”, afirma Pellanda, ao
comentar que o gênero ganhou popularidade com a internet.
Mencionando uma coluna de Michel Laub, Luiz
Rebinski comenta sobre conto ser mais fácil de escrever do que o romance – e
pergunta aos cronistas o que pensam. “Eu fazia exercício de ficção no conto,
fiz romance para matar a maldição do cronista”, conta Sá, que transita nas três
categorias. “O maior sacrifício foi limpar o cronista [da ficção]”, e Sá contou
ter perdido a vergonha de escrever prosa com seu livro Big Jato, embora tivesse
se consolidado noutra foram de escrita.
“Quando vem o romance?” pergunta Rebinski a
Pellanda. Este cita Elvira Vigna, que em mesa redonda do mesmo evento afirmou
“escrevo romance porque sou burra”. “É um vício de conversa perguntar quando
vem o romance”, responde. Quanto a suposta facilidade em escrever determinado
gênero, não tem relação com classificação em si, pois “depende do
comprometimento”.
Pellanda conta uma história de Ignácio de
Loyola Brandão, que certa vez mandou uma crônica para uma antologia organizada
por uma companhia de marketing. Porém, o material foi recusado, e Loyola recebeu
como justificativa do diretor da empresa ‘sua crônica tem diálogo, conto não
tem diálogo’, e o mencionado escritor substituiu travessões por aspas para que
seu material fosse aceito. Definição de conto e crônica feira por diretor de
marketing, relata Luís Pellanda, e afirma que “o Brasil vive um momento de
mercado, gênero não é importante para o leitor”.
Luiz Rebinski questiona seu xará sobre os
temas de suas crônicas, onde “tem muita desgraceira”. Este acha difícil falar de temas, “a
paternidade serviu de filtro”, pois enquanto saía para passear com a filha,
tornou-se mais atento ao que via no centro da cidade.
Quanto a Xico Sá, São Paulo foi ambiente de
parte de sua produção, e posteriormente o Rio de Janeiro. “O lugar está na
crônica, e o leitor reconhece. É legal levar um lugar para quem lê”. Seu colega
de gênero adiciona: “se escrevo nomeando os lugares, qualquer absurdo parece
verdadeiro.” Sá conta que a mudança de cidade e tema enriquece a escrita, na
busca “além da novidade da esquina”.
Uma novidade que pode vir em uma caminhada,
reparando nos detalhes eu compõem a cidade, ou ao ter de prestar atenção no
ambiente. Como disse Xico Sá, “a andança é fundamental para o cronista”.