segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Cadeira puxada para Conversa - Luís Henrique Pellanda e Xico Sá na Semana Literária Sesc 2013

“Qual é a definição da crônica?”, indaga Luiz Rebinski, mediador, aos dois cronistas que estão cada um a sua direita e esquerda. A noite de 17 de setembro de 2013, após dois dias de pesada chuva em Curitiba, abrigou uma mesa-redonda sobre a Crônica Nossa de Cada Dia, durante a Semana Literária Sesc, simultânea a XI Feira Universitária UFPR. Mas a primeira resposta ouvida pelo público que lotou o auditório não foi exatamente uma definição.

“É bom que não saibam, que a gente vai enrolando”, diz bem-humoradamente Xico Sá. “Quase um mix entre jornal e literatura, colada no dia-a-dia, [enquanto] o conto tem sua cota de absurdo e ficção”. A crônica brasileira é coloquial, diz ele, como se fosse uma cadeira puxada para a conversa.

“Não dá para analisar definição, é um gênero muito jovem”, fala Luís Henrique Pellanda. “A crônica deve muito a imprensa”, o cronista menciona João do Rio e Olavo Bilac como influentes, além de Rubem Braga, um “repórter que não saiba ser repórter” e escrevia crônicas.

“Escutei que a crônica absorve elementos da ficção, em especial do conto”, diz Rebinski. Xico Sá complementa que a crônica aborda toda temática, de comportamento a tragicomédia, como se houvesse “tema por temporada”, de acordo com os assuntos em voga. É uma mudança do gênero, de acordo com Sá. “Natural que a temática se diversifique”, afirma Pellanda, ao comentar que o gênero ganhou popularidade com a internet.

Mencionando uma coluna de Michel Laub, Luiz Rebinski comenta sobre conto ser mais fácil de escrever do que o romance – e pergunta aos cronistas o que pensam. “Eu fazia exercício de ficção no conto, fiz romance para matar a maldição do cronista”, conta Sá, que transita nas três categorias. “O maior sacrifício foi limpar o cronista [da ficção]”, e Sá contou ter perdido a vergonha de escrever prosa com seu livro Big Jato, embora tivesse se consolidado noutra foram de escrita.

“Quando vem o romance?” pergunta Rebinski a Pellanda. Este cita Elvira Vigna, que em mesa redonda do mesmo evento afirmou “escrevo romance porque sou burra”. “É um vício de conversa perguntar quando vem o romance”, responde. Quanto a suposta facilidade em escrever determinado gênero, não tem relação com classificação em si, pois “depende do comprometimento”.

Pellanda conta uma história de Ignácio de Loyola Brandão, que certa vez mandou uma crônica para uma antologia organizada por uma companhia de marketing. Porém, o material foi recusado, e Loyola recebeu como justificativa do diretor da empresa ‘sua crônica tem diálogo, conto não tem diálogo’, e o mencionado escritor substituiu travessões por aspas para que seu material fosse aceito. Definição de conto e crônica feira por diretor de marketing, relata Luís Pellanda, e afirma que “o Brasil vive um momento de mercado, gênero não é importante para o leitor”.

Luiz Rebinski questiona seu xará sobre os temas de suas crônicas, onde “tem muita desgraceira”.  Este acha difícil falar de temas, “a paternidade serviu de filtro”, pois enquanto saía para passear com a filha, tornou-se mais atento ao que via no centro da cidade.

Quanto a Xico Sá, São Paulo foi ambiente de parte de sua produção, e posteriormente o Rio de Janeiro. “O lugar está na crônica, e o leitor reconhece. É legal levar um lugar para quem lê”. Seu colega de gênero adiciona: “se escrevo nomeando os lugares, qualquer absurdo parece verdadeiro.” Sá conta que a mudança de cidade e tema enriquece a escrita, na busca “além da novidade da esquina”.


Uma novidade que pode vir em uma caminhada, reparando nos detalhes eu compõem a cidade, ou ao ter de prestar atenção no ambiente. Como disse Xico Sá, “a andança é fundamental para o cronista”.