“A criança vê o adulto com mistério”, fala
Mariana Sanchez, mediadora da mesa redonda batizada Bisbilhotando Outros
Mundos, realizada manhã de 19 de setembro. A frase foi originalmente
pronunciada em debate do dia anterior, ambos inseridos na Semana Literária
Sesc, evento simultânea a XI Feira Universitária UFPR. A mediadora pergunta aos
dois convidados qual o fascínio da infância sobre eles.
“Tenho dois livros sobre bruxas, foram os que
mais gostei de escrever, porque tinha medo de bruxas quando era criança”, conta
Ernani Ssó. “O livro para criança não funciona se o autor não lembra como foi
enquanto criança, funciona quando o autor tem uma ligação forte com a própria
infância”. O escritor também conta que o pai lhe contava histórias na infância,
e as infantis que escreveu foram um conjunto de saudade daquelas e uma dose de
vingança das bruxas.
“Não vejo mistério nenhum na infância, a vida
é mistério em qualquer idade”, revela Marina Colasanti. Quando escreveu livros
infantis, ficou surpresa com a nitidez das próprias sensações deste período
específico. “Nunca tive intenção de escrever para crianças. Quero dar ao leitor
o que ele não quer, ou o que não sabe que quer. Meus temas são o que me sinto
obrigada a escrever, são uma ‘garantia’ da minha sinceridade mais intensa”.
Sanchez pergunta a Ernani sobre uma
experiência em que um de seus livros foi usado em leituras escolares. “Foi
interessante, o Contos de Morte Morrida está sendo recomendado para crianças de
oito anos, e a criança distingue bem a realidade da fantasia”. A leitura desta
obra por dois alunos foi notada por um bibliotecária e uma professora,
posteriormente envolvendo mais pessoas dentro da escola.
E quanto a Marina, autora de contos de fada,
qual a diferença destes para a literatura dita infantil? “A coisa mais difícil
da literatura é a qualidade, os contos de fada são um gênero com pouca produção
e difíceis porque são feitos sem a razão. Um conto de fada ‘construído’ é
chato, só funciona quando surpreende o autor, se não me surpreender não serve.
Aconteceu assim na minha cabeça, é assim que vai”.
A mediadora pergunta a ambos como apresentar
o mundo da leitura as crianças de forma natural, sem forçar o desenvolvimento a
prática. Ernani Ssó menciona uma entrevista em que Fernanda Savata afirmou que
sem dúvida o que faz entrar para a leitura é paixão ao contar um livro para
alguém, e o hábito deve ser transmitido por meio disto. “As crianças se afastam
dos livros obrigatórios, o elogio da leitura é quase igual ao elogio da alface:
o pai diz que alface é boa mas não come. O pai não lê, o professor não lê, e se
a criança não gostar não adianta. As escolas deveriam ter alguma forma de
contagiar as crianças com leitura. O professor não devia impor, deveria ser
guia. E tem que descobrir um livro que emocione, não é porque um autor é
clássico que deve ser lido”.
“Antes falávamos entre nós escritores, mas
estamos falando disso publicamente há trinta anos. Nem todo escritor está
interessado em leitura”, conta Colasanti. Ela compara a transmissão da leitura
a um transplante de um órgão vital. “Tem que fidelizar o leitor, porque a
criança para de ler quando entra na adolescência”.
Ernani emenda que não se preocupa com o que a
criança vai entender, mas essa frase está longe da indiferença. “Entender um
mito racionalmente é um pouco difícil”. Exemplifica: gosta da cena da Rapunzel
na janela do quarto, jogando os cabelos para baixo, a espera do resgate. “Uma
visão realista disso não faz sentido. As imagens ficam com a gente, o
significado varia com o leitor. Mensagem é com o correio, não com a
literatura”.
Mariana Sanchez pergunta aos convidados como
foi a experiência deles com a tradução. “Tentei
ler Dom Quixote em espanhol, mesmo com dicionário não consegui”,
responde Ssó. Insatisfeito com as traduções que encontrou, propôs o trabalho,
que foi aceito pela Companhia das Letras. “Eu mesmo queria ler o livro
tranquilamente”.
Marina Colasanti trabalhou na tradução de
Pinóquio, e reclamou que as versões adaptadas traíram a original – em especial
a animada feita pela Disney. “O original tinha roupa de papel estampado, sapato
de casca de árvore, miolo de pão no chapéu”. Para ela, o significado não deve
ser alterado.