O juiz acena, e os dois jogadores aguardam
qual deles vai receber a bola. Não era um jogo, apenas um treino em forma de
mesa-redonda intitulada “Gol de Letra’, inclusa na Semana Literária Sesc 2013,
simultânea a XI Feira Universitária UFPR. Ao invés de um juiz ou um técnico, um
mediador – Paulo Krauss, que lança a pergunta aos dois convocados – como
entraram no futebol?
“Só torço para dois times: o Internacional e
para quem estiver jogando contra o Grêmio”, responde Marcelo Backes. Nascido em
Campinas das Missões, interior do Rio Grande do Sul, conta que não havia muito
a fazer na cidade, e que sua relação com o futebol é natural, tanto que parece
desmentir o que diz do próprio vínculo com o esporte. Backes conta que seu elo
com o futebol sempre foi de sofrimento, nunca jogou muito bem, mas ouviu
repetidas vezes ‘você não joga nada’ do pai.
Bola, ou vez, para o parceiro do
treino-debate, José Roberto Torero. “Nunca liguei muito para futebol até meus
nove anos”, mas até ser levado pelo pai a um jogo específico- o pai lhe disse
“você tem que ir”. Em determinado momento da partida, um jogador cruzou os
braços, e gesticulou como quem se despede. Torero conta que o pai era durão,
mas estava chorando – por que aquele jogador ia parar de jogar? E via a mesma
reação em outros no estádio, e aquela despedida de Pelé em 1973 o fez querer
entender o que o futebol que faz as pessoas chorarem. “Tristezas e alegrias
renovadas, o futebol parece muito com a vida”.
O técnico-mediador Krauss pergunta aos
escritores como se deu o elo entre literatura e futebol. Torero responde que
foi chamado para escrever o livro do Santos, e também para escrever crônicas
esportivas. Mas a despeito da presença do esporte em sua escrita, ele explica
“não sou apaixonado por futebol, não é o assunto mais importante, é só o mais
importante das coisas menos importantes”.
Backes usou o futebol como pano de fundo em
seu livro O Último Minuto, no qual um treinador aposentado conta a um
seminarista o porquê do esporte em sua vida. Aproveitando a jogada de seu
colega de debate, conta que o futebol, combinado na escrita com outros
assuntos, pode ser um bom veículo para falar de outros temas.
Paulo Krauss indaga a José Roberto Torero:
considerando que há muita crônica esportiva no Brasil, por que não há uma
literatura mais ‘aprofundada’ sobre ele? “Não é grande assunto na literatura”,
responde o convidado, que cita alguns motivos – um deles é o que considera “um
divórcio entre futebol e intelectualidade”. O esporte possuía, em campeonatos
passados, um público majoritariamente elitista, e gradativamente tornou-se
acessível e praticado pelas camadas populares. Outro fator foi a seleção
brasileira, negativamente associada a ditadura no país, como se fosse
propaganda desta. Torero adiciona uma comparação da partida de futebol ao
cinema, com 90 minutos de duração, protagonistas e ocasionais heróis, marco na
história – no caso o intervalo, como se o esporte fosse uma narrativa em si.
E Marcelo Backes, sente falta de mais futebol
na literatura? “Nunca pensei nas motivações”, responde, argumentando que poucos
escritores têm experiências como jogadores ou técnicos de futebol, fundamental
para escrever sobre o tema. Quanto a crônica, a considera uma observação de
maneira distante, como se fosse outra estratégia para relatar uma partida.
Uma última pergunta do mediador – que
observações fazem do mercado de livros relacionados ao esporte? Torero conta
que há muitos títulos com tiragens pequenas, mal ultrapassando cinco mil
exemplares, para atender pequenas demandas. “Vou escrevendo, não cogito
leitores” conta Marcelo Backes, “uma vez o livro pronto, não há o que fazer”.
Objetivo, aponta o futebol como uma metáfora, uma gramado no qual enxerga uma
“tentativa de interpretar o momento pelo qual o Brasil está passando”.