Terça-feira, 17 de setembro de 2013. Chovia
torrencialmente no centro de Curitiba, mas no segundo dia da Semana Literária
do Sesc, acontecimento simultâneo a XI Feira Universitária UFPR, uma
mesa-redonda em particular foi mais forte que o clima.
Embora não seja a melhor palavra para
descrever. Irinêo Netto, mediador da mesa-redonda em questão, apresenta o tema
‘Força do Escritor’, pontuando a “transformação social que a leitura faz no
Brasil; interferência da ficção no dia-a-dia das pessoas”, e pergunta às
convidadas o que consideram disto.
“Minha primeira reação foi achar que essas
perguntas não cabiam, são antigas”, dispara Elvira Vigna. “A arte é sinônimo de
transformação, ou você se permite participar de uma experiência estética ou
você não a tem”. Vigna menciona Jack Kerouac, por julgar que houve ‘atitude
artística’ a partir de modelos lançados pela produção deste- apesar de que,
segundo a escritora, hoje “não tem mais a figura mitificada do escritor”. Mas
retornando diretamente a pergunta do mediador, ela enfatiza: “sua pergunta não
tem sentido”. Irinêo Netto reage fazendo de conta que esconde as folhas com as
perguntas a serem feitas atrás do sofá, mas logo as põe de volta as mãos. Vigna
mantém o tom crítico da resposta. “Aí você fala do Brasil. Qual a sua intenção
com a literatura”, ela questiona, se seria escrever apenas para o que chama
‘elite culta’.
Em verve igualmente crítica, mas em direção diferente
da primeira convidada, a também escritora Vilma Arêas diz concordar
parcialmente daquela. “É muito difícil entender hoje, a mudança de velocidade
do tempo social”. Para ela, vivemos em uma era de “liberdade controladíssima,
posso fazer uma pirueta de acordo com quem sou”. A calma afirmação dela
encontra-se, parcialmente, com a de sua colega quando Vilma diz que devemos
entender o valor da arte, e emenda: “muitas vezes a gente escreve para se
salvar”. Após citar Mario de Andrade, que escreveu que o importante é ‘sofrer
bem’, Arêas compara o ato de escrever ao de pintar, no sentido de praticar
ambas para aprender. “Precisamos de formas organizadas para sermos menos
malucos”, brinca ela. Vilma Arêas comenta sobre pedidos das editoras de se
produzir um livro por ano, para manter a visibilidade do escritor, o que ela
recusa. “O folhetim colocou a literatura na esteira de montagem”, explica, “o
bom é que democratiza, o ruim é que automatiza”.
Irinêo Netto, mediador do debate, retoma: se
essas perguntas são antigas, por que se discute sobre literatura nesses termos,
por que deste falar de literatura como se ela tornasse as pessoas melhores? O
que não é exatamente verdade, ele acrescenta.
Elvira Vigna é a primeira. Ela compara tal
discussão com personagem de desenho animado, que começa a correr, passa da
beira do penhasco, fica poucos segundos no ar e só então percebe que não há
chão embaixo de seus pés, e enfim cai. Ela nomeia isso de “obsessão pela
tagarelice”. E comenta, novamente, o que tinha chamado de elite culta. “Literatura
representa quem faz literatura”. Exemplifica: considera que existe um ambiente
culto versus inculto, pois vê influência da primeira camada com suas temáticas
e personagens, excluindo a segunda camada. E dá-lhe outra crítica: “se a
intenção é incluir, é porque está feio”.
“Há algo na arte que escapa ao fazedor”,
afirma Vilma Areas. Netto começa a falar sobre a internet, mas especificamente
sobre usuários que buscam na rede a confirmação do que já sabem, de como
colunistas podem ser estilhaçados redes sociais, porém Arêas intervém. “Mídia
não vive sem arte, e vice-versa, é um casamento complexo”, e também diz que
arte é feita de forma lenta, enquanto o ritmo social ‘força’ uma leitura
rápida. “Discordo”, fala Vigna, antes que o mediador continue, “acho que a
gente está confundindo sujeito com predicado”. Sobrea internet, Vigna relaciona
a literatura a internet pela possibilidade de escrita e publicação, a
“experiência estética a qualquer momento”, e manifesta opinião contrária a de
Arêas: “a internet não é controlável, a arte não é vendável”.
Irinêo Netto argumenta: “a internet não é
controlável, mas é monitorada”, mas antes que Vilma Arêas prosseguisse a
conversa para as artes, sua colega involuntariamente provoca risos na plateia:
“nós fomos escolhidas para um tema chato e por termos cabelos”. O mediador
retoma, questiona ambas escritoras : por que um romance?
Elvira Vigna afirma que “escrevo romance
porque sou burra. O cara do conto já sabe o que quer”, como se explorasse
melhor as possibilidades do gênero. “Escrevo para não ficar maluca, consigo
organização através da escrita, pois hoje tudo leva a desconcentração”,
responde Vilma Arêas, que considera a escrita uma “necessidade humana”. Cada uma a sua forma, descreveram
experiências de forças incalculáveis.