segunda-feira, 23 de setembro de 2013

A Força do Escritor: Elvira Vigna e Vilma Arêas na Semana Literária Sesc 2013

Terça-feira, 17 de setembro de 2013. Chovia torrencialmente no centro de Curitiba, mas no segundo dia da Semana Literária do Sesc, acontecimento simultâneo a XI Feira Universitária UFPR, uma mesa-redonda em particular foi mais forte que o clima.

Embora não seja a melhor palavra para descrever. Irinêo Netto, mediador da mesa-redonda em questão, apresenta o tema ‘Força do Escritor’, pontuando a “transformação social que a leitura faz no Brasil; interferência da ficção no dia-a-dia das pessoas”, e pergunta às convidadas o que consideram disto.

“Minha primeira reação foi achar que essas perguntas não cabiam, são antigas”, dispara Elvira Vigna. “A arte é sinônimo de transformação, ou você se permite participar de uma experiência estética ou você não a tem”. Vigna menciona Jack Kerouac, por julgar que houve ‘atitude artística’ a partir de modelos lançados pela produção deste- apesar de que, segundo a escritora, hoje “não tem mais a figura mitificada do escritor”. Mas retornando diretamente a pergunta do mediador, ela enfatiza: “sua pergunta não tem sentido”. Irinêo Netto reage fazendo de conta que esconde as folhas com as perguntas a serem feitas atrás do sofá, mas logo as põe de volta as mãos. Vigna mantém o tom crítico da resposta. “Aí você fala do Brasil. Qual a sua intenção com a literatura”, ela questiona, se seria escrever apenas para o que chama ‘elite culta’.

Em verve igualmente crítica, mas em direção diferente da primeira convidada, a também escritora Vilma Arêas diz concordar parcialmente daquela. “É muito difícil entender hoje, a mudança de velocidade do tempo social”. Para ela, vivemos em uma era de “liberdade controladíssima, posso fazer uma pirueta de acordo com quem sou”. A calma afirmação dela encontra-se, parcialmente, com a de sua colega quando Vilma diz que devemos entender o valor da arte, e emenda: “muitas vezes a gente escreve para se salvar”. Após citar Mario de Andrade, que escreveu que o importante é ‘sofrer bem’, Arêas compara o ato de escrever ao de pintar, no sentido de praticar ambas para aprender. “Precisamos de formas organizadas para sermos menos malucos”, brinca ela. Vilma Arêas comenta sobre pedidos das editoras de se produzir um livro por ano, para manter a visibilidade do escritor, o que ela recusa. “O folhetim colocou a literatura na esteira de montagem”, explica, “o bom é que democratiza, o ruim é que automatiza”.

Irinêo Netto, mediador do debate, retoma: se essas perguntas são antigas, por que se discute sobre literatura nesses termos, por que deste falar de literatura como se ela tornasse as pessoas melhores? O que não é exatamente verdade, ele acrescenta.

Elvira Vigna é a primeira. Ela compara tal discussão com personagem de desenho animado, que começa a correr, passa da beira do penhasco, fica poucos segundos no ar e só então percebe que não há chão embaixo de seus pés, e enfim cai. Ela nomeia isso de “obsessão pela tagarelice”. E comenta, novamente, o que tinha chamado de elite culta. “Literatura representa quem faz literatura”. Exemplifica: considera que existe um ambiente culto versus inculto, pois vê influência da primeira camada com suas temáticas e personagens, excluindo a segunda camada. E dá-lhe outra crítica: “se a intenção é incluir, é porque está feio”.

“Há algo na arte que escapa ao fazedor”, afirma Vilma Areas. Netto começa a falar sobre a internet, mas especificamente sobre usuários que buscam na rede a confirmação do que já sabem, de como colunistas podem ser estilhaçados redes sociais, porém Arêas intervém. “Mídia não vive sem arte, e vice-versa, é um casamento complexo”, e também diz que arte é feita de forma lenta, enquanto o ritmo social ‘força’ uma leitura rápida. “Discordo”, fala Vigna, antes que o mediador continue, “acho que a gente está confundindo sujeito com predicado”. Sobrea internet, Vigna relaciona a literatura a internet pela possibilidade de escrita e publicação, a “experiência estética a qualquer momento”, e manifesta opinião contrária a de Arêas: “a internet não é controlável, a arte não é vendável”.

Irinêo Netto argumenta: “a internet não é controlável, mas é monitorada”, mas antes que Vilma Arêas prosseguisse a conversa para as artes, sua colega involuntariamente provoca risos na plateia: “nós fomos escolhidas para um tema chato e por termos cabelos”. O mediador retoma, questiona ambas escritoras : por que um romance?

Elvira Vigna afirma que “escrevo romance porque sou burra. O cara do conto já sabe o que quer”, como se explorasse melhor as possibilidades do gênero. “Escrevo para não ficar maluca, consigo organização através da escrita, pois hoje tudo leva a desconcentração”, responde Vilma Arêas, que considera a escrita uma “necessidade humana”.  Cada uma a sua forma, descreveram experiências de forças incalculáveis.